18 junho 2013

amor, brasil e turquia

Elenco aqui uma coletânea de fotos e textos sobre o que anda acontecendo no país, dada a impossibilidade catatônica de elaborar comentário argumentativo inédito e bem refletido. É complicado para mim não só fazer notícia, mas também virar notícia. Fica difícil pensar quando pessoas próximas de você são vítimas de ação intencional e totalmente desmotivada da Polícia Militar.

Mas mesmo em face ao terror que é a violência saindo da periferia e chegando ao centro das maiores cidades brasileiras, tomando as ruas famosas como palco, o amor vem em turbilhões, em movimentos peristálticos. Vem da compreensão dos colegas de trabalho num momento não delicado de nossas vidas; da companhia dos amigos, as centenas de milhares de amigos que ganhamos nas últimas semanas; vem da garra daqueles que admiramos.

Por isso, obrigada a cada um dos manifestantes presentes no ato (reaça, partidário ou não). Obrigada, pessoas que trabalham na imprensa (confiável ou não).

Isto tudo não será somente uma boa lembrança, não importa o que acontece no futuro. Nosso futuro é agora, e isto é a mudança de verdade.


Foto: Jefferson Botega, Porto Alegre


Foto: Autor desconhecido, Porto Alegre


Foto: Adriana Franciosi, Porto Alegre


Foto: Midia Ninja, São Paulo


Foto: Miguel Schincariol/AFP, São Paulo


Foto: Marcello Casal Jr/ABr, Brasília


Foto: Ramiro Furquim/Sul21, Porto Alegre


Foto: Autor desconhecido, Porto Alegre

Sobre os protestos, texto do Igor Natusch

Acredito que, a partir de agora, quem ainda não tinha entendido vai ter que dar um jeito de entender. Vai ter que olhar as fotos de jornalistas com olhos estourados por bala de borracha ou levando spray de pimenta no rosto em pleno exercício profissional e formar uma opinião sobre isso. Vai ter que olhar imagens de pessoas de joelhos, mãos para cima, levando bala de borracha e bomba de gás e pensar um pouco a respeito. Vai ter que levar em conta o fato de que foram presas pessoas portando vinagre em SP, que invadiram um restaurante em Porto Alegre para prender quem estava fugindo da confusão criada pela própria polícia, que crianças e idosos foram agredidos em nome da suposta proteção de seus próprios interesses. Vai ter que olhar mais para as redes sociais e menos para a televisão e para os jornais. Vai precisar olhar para as pessoas e enxergar nelas outras pessoas, ouvir o que elas dizem, entender o que elas sentem. Vai precisar compreender que é cada vez mais gente na rua, cada vez mais indignação, e que o discurso político está cada vez mais desligado do que as pessoas querem, necessitam, exigem. [...] Porque o Estado é cada vez mais um serviçal do poder financeiro, e cada vez esmaga mais as pessoas para atender interesses cada vez mais irreais e desumanos. E cada vez menos gente consegue suportar. É uma crise de modelo e de representação, e ela não vai tomar conta do Brasil: ela já tomou. Do mundo todo, na verdade. E nada adiantará gritar contra os vândalos, ridicularizar suas demandas ou diminuir sua relevância. Porque a onda ganhou corpo, e o discurso foi além das próprias limitações: agora, a indignação alimenta a si mesma.

O amor não acaba, texto do Igor Natusch

[...] não apenas o amor não acabou como está transbordante. Não o amor patriótico vazio, o amor pela pátria amada deitada em berço esplêndido e que descobre que um filho seu não foge a luta e por aí vai. É um amor mais profundo: um amor de quem não vê seu amor em lugar algum e, por isso, quer mudança. É amor por nós mesmos: é amor próprio, da melhor espécie. E não achem que dá para usar esse amor para trocar um governo por outro, colocar um novo chefe igual ao chefe antigo mas de outra cor, outro rosto, outra sigla partidária. Porque esse amor que grita, que explode, que abraça e que quebra e que corre de mãos dadas para fugir da bomba e das balas – esse amor quer algo novo. Quer um mundo que corresponda a esse amor. E o mundo vai ter que ouvir esse apelo, cedo ou tarde.

Aos que ainda sabem sonhar, texto de Andre Borges Lopes

Não tenho nem sombra de dúvida de que prefiro esses inconformados que atrapalham o trânsito e jogam pedra na polícia. Ainda que eles nos pareçam filhinhos-de-papai, ingênuos em seus sonhos, utópicos em suas propostas, politicamente manobráveis em suas reivindicações, irresponsavelmente seduzidos pelos provocadores de sempre. Desde a Antiguidade, esses jovens ingênuos e irresponsáveis são o sal da terra, a luz do sol que impede que a humanidade apodreça no bolor da mediocridade, na inércia do conformismo, na falta de sentido do consumismo ostentatório, nas milenares pilantragens travestidas de iluminação espiritual. Esses moleques que tomam as ruas e dão a cara para bater incomodam porque quebram vidros, depredam ônibus e paralisam o trânsito. Mas incomodam muito mais porque nos obrigam a olhar para dentro das nossas próprias vidas e, nessa hora, descobrimos que desaprendemos a sonhar.

Site da Copa do Mundo em Cuiabá, ocupdo pelo Anonymous e com uma série de vídeos sobre a repressão estilo povo contra povo, preconizada pelo militarismo desprovido de cidadania profunda: copaemcuiaba.com.br

Especial da TV Folha, quando muitos jornais mudaram seus discursos após terem seu amor próprio (ou simplesmente seus repórteres) agredidos:



Ato da última segunda, 17/06, em Porto Alegre:



Tira baseada num discurso que o Slavoj Zizek fez no Occupy Wall Street, elaborada pelo Pirikart:

07 junho 2013

réquiem para porto alegre



O progresso cinza andou comendo minha cidade. Porto Alegre um dia foi conhecida como uma cidade arborizada. Mas venceram os acordos políticos (Fortunati recebeu mais de R$3 milhões de empreiteiras e construtoras), um paradigma de crescimento já superado (Por que a construção de mais vias não alivia os congestionamentos) e a surdez da "democracia" autocrática das grandes corporações (Duplicação de via na frente do Gasômetro: obra necessária?).

O drama, a tristeza, é como muitos de nós reagimos. Como disse um querido amigo, somos seres emotivos, a razão tem pouca força sobre nós. Este vídeo produzido pelo Coletivo Aura é um réquiem para Porto Alegre.



Para saber mais a respeito:

Imagens da manhã de domingo, dia 2 de junho de 2013.
Quatro dias antes, na madrugada do dia 29 de maio, a Prefeitura de Porto Alegre, juntamente com a Brigada Militar, prendeu 27 manifestantes que estavam acampados em um parque da cidade, defendendo o espaço contra a polêmica obra de duplicação de uma avenida. Às 4h da manhã, os funcionários do município iniciaram o corte das árvores. Seis horas depois, 57 árvores já haviam sido cortadas.

A necessidade da obra está sendo questionada pela população, pois a prefeitura não apresentou qualquer tipo de estudo de demanda, e nem possíveis alternativas, além da obra não beneficiar o transporte público. Não houve verdadeiro diálogo com a população. Foram realizadas algumas audiências públicas depois do início dos protestos onde não foi dada nenhuma resposta às demandas e críticas apresentadas pelos cidadãos.

A licença ambiental para o corte de 115 árvores foi emitida pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente, sendo que o então Secretário do Meio Ambiente, Luiz Fernando Záchia foi preso pela Polícia Federal, acusado de vender licenças ambientais. Além disso, o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, recebeu cerca de R$ 220 mil da empreiteira que está realizando a obra para sua campanha eleitoral em 2012.

Em 2011, o governador Tarso Genro e o prefeito José Fortunati assinaram um protocolo de intenções para realização de uma etapa da Fórmula Indy na Capital e, coincidentemente ou não, o trajeto proposto para a corrida passa pela área onde foi realizado o corte.

Enquanto isso, a mídia local reduz o protesto à mera questão do corte de árvores, ignorando as preocupações da população com a supressão de espaços públicos de convivência e com a priorização do transporte motorizado individual e a conseqüente degradação da cidade.

Música: Cartão Postal por Apanhador Só ( apanhadorso.com )

Referências: Fórmula Indy dará visibilidade internacional a Porto Alegre, diz Tarso Genro

04 junho 2013

o bom, o mal e o e-mail

Escrever para a internet é fácil e uma delícia. Frases são parágrafos; ensaios, posts. É como se cada oração tivesse uma importância fundamental e inequívoca, ou, no caso das frases-parágrafo, como se os assuntos precisassem necessariamente estar separados - para a melhor compreensão do leitor. Porque, diga-se de passagem, o leitor médio da internet é um leitor burro. Essa é a única justificativa para esse excesso de parágrafos, pontuação e frases curtíssimas.

Ao mesmo tempo, algumas pequenas maravilhsas, regozijos, fortalezas se erguem em meio à lama e ao caos no Facebook e seu irmão bastardo, o Google Plus: o email consegue subir vários níveis em comparação aos chats, hangouts, skypes. O email é a carta contemporânea. É a surpresa de abrir sua caixa do correio (eletrônico) e encontrar uma mensagem (virtual) escrita à mão (só texto sem gifs, memes ou emoticons), somente para você.

Isso mesmo: somente para você. Você não vai poder esquivar da resposta com um tímido "Like". Seus amigos não vão comentar felizes e emocionados. Ninguém vai compartilhar. Sua mãe não vai comentar que concorda, que você é demais e adicionar uma revelação constrangedora e descontextualizada da sua infância.

E sabe qual é o melhor? Você vai poder guardar para sempre. Isso vale para todos os tipos de internautas. O mundo, meus caros, é dividido em dois tipos de pessoas: as que limpam e as que não limpas suas caixas de entrada. Porque conferir di-a-ria-men-te a caixinha do correio, na possibilidade de uma mensagem exclusiva e carinhosamente para você, isso todo mundo faz.

03 junho 2013

o veneno mora ao lado


Publiquei uma matéria no site do Jornal Tabaré retomando o assunto da armazenagem de agrotóxicos no Rio Grande do Sul, assunto que voltou à discussão devido a um projeto de lei que critica o embasamento legal das normas no estado.

PL propõe alterações nos critérios de armazenagem de agrotóxicos no RS

Tramita na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul um Projeto de Lei importante para a produção agrícola no estado. O PL 20/2012 (leia na íntegra) do deputado estadual Gilmar Sossela (PDT) propõe alterações nos critérios de armazenamento de agrotóxicos nas propriedades agrícolas gaúchas. O argumento é de que exigências da FEPAM (Fundação Estadual de Proteção ao Ambiente Natural), órgão que regula a utilização de químicos no manejo agrícola, não possuem base legal.
Segundo a justificativa do projeto, “a falta de legislação que regulamenta e defina de forma clara os requisitos necessários para o licenciamento do depósito de agroquímicos, diga-se, quanto a segurança, construção e a proteção acabou gerando insegurança jurídica para o setor que, fica a cargo das exigências do órgão ambiental que não encontra respaldo em lei federal que regulamenta a atividade.” 
O projeto volta à pauta da Comissão nesta terça-feira, 4 de junho.
RS e os Agrotóxicos 
A economia gaúcha está fortemente ligada ao plantio de soja, milho, trigo, arroz, além da predominante pecuária extensiva no pampa. Grande parte dessas plantações se dá em latifúndios de monocultivo que utilizam defensivos agrícolas. 
O movimento ecológico brasileiro iniciou no Rio Grande do Sul na década de 70, com a volta ao Brasil do agrônomo José Lutzenberger. Há 30 anos está em vigor no estado a Lei 7.747/1982, que regula o uso de agrotóxicos. A legislação gaúcha é pioneira no país em proibir importação e utilização de agrotóxicos banidos em seus países de origem – ou seja, legalmente, não pode ser trazido para o estado nenhum defensivo químico cuja utilização tenha sido proibida no próprio país em que a molécula foi sintetizada.
O “banimento dos banidos” é uma das principais bandeiras da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Para a entidade, é preciso o desenvolvimento de uma força-tarefa que fiscalize não somente a importação, mas a utilização de defensivos já proibidos e que chegam de maneira ilegal Às mãos dos produtores. 
Presença dos movimentos ecológicos
Grupos ambientalistas do estado estão acompanhando o processo e fazendo pressão para o arquivamento do PL. Embora o assunto seja de interesse de boa parte da população gaúcha que lida com o plantio de cereais, o tema não está sendo valorizado na grande mídia, dificultando o fomento do debate público. 
O PL 20 é uma proposição de 32 deputados estaduais. Segundo Claudia Dreier, assessora de comunicação da Fundação Gaia, a pressão dos movimentos ambientais já conseguiu a retirada de uma assinatura: “A Deputada Juliana Brizola me falou que jamais apoiaria isto, e deve ter assinado sem ler”.
Análise de constitucionalidade 
Há mais de um mês o projeto está em tramitação na CCJ, Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia gaúcha. A bancada do PT e do PCdoB já pediu vistas ao PL, o que adiou duas vezes a votação. Os deputados representantes do PSDB, PMDB e PP responderam publicamente os movimentos sociais numa das reuniões da Comissão, afirmando que o projeto é inteiramente constitucional e que o mérito deve ser analisado nas Comissões que apreciam o PL posteriormente à aprovação na CCJ.
No entanto, a chefe do Serviço de Licenciamento e Controle de Agrotóxicos da FEPAM, Marta Labres revelou que os critérios utilizados pela Fundação nas visitas às propriedades rurais são regulados por um Portaria conjunta emitida pela Secretaria do Meio Ambiente em fevereiro de 2012. O projeto propõe substituir a distância mínima de 30 metros entre depósitos de agrotóxicos e residências rurais por filtros, no caso de constatação de odor por vazamento. O órgão técnico, no entanto, alerta que as partículas emitidas por defensivos químicos são gases inodoros, que causam contaminação a longo prazo dos organismos vivos. 
Ainda segundo a FEPAM, a grande maioria dos locais no estado já estão cumprindo as regras estabelecidas pelo órgão e o projeto de lei criaria um conflito no estabelecimento de novos locais de armazenagem e nos que estão em processo de adaptação. A Fundação defende que a Legislação Federal dá competência aos órgãos estaduais de licenciamento ambiental para regularem as atividades potencialmente poluidoras. O parecer completo da FEPAM foi publicado na íntegra pela Fundação Luterana de Diaconia, que financia projetos ambientais.
Movimentos recentes deram resultado
Em outubro do ano passado, a pressão dos movimentos ambientais fez com que o Deputado Ronaldo Santini (PTB) arquivasse seu próprio projeto de lei. O PL 78/2012 previa a utilização no estado de agrotóxicos utilizados no restante do país, com o objetivo de não deixar o Rio Grande do Sul em desvantagem na produção agrícola. O projeto, no entanto, era uma tentativa de alteração do artigo 6º da Lei gaúcha dos Agrotóxicos, que impede a utilização de insumos químicos banidos em seus países de origem. O deputado pediu desculpas as manifestantes, afirmou que não sabia da gravidade da questão e se comprometeu a apoiar como parlamentar os movimentos agroecológicos. Até o momento, ele não se pronunciou sobre o PL 20.
A Fundação Gaia – Legado Lutzenberger disponibilizou um modelo de email para que a população envie aos parlamentares, na intenção de pressioná-los a inviabilizar a aprovação do PL.

30 maio 2013

entre tipuanas e viadutos


Renata Ibis

Nesta quarta-feira, Porto Alegre amanheceu triste e menos verde. Foi desarmado numa ação da Brigada Militar o acampamento Ocupa Árvreso, que há 40 dias ocupava a frente da Câmara de Vereadores em contrariedade ao plano municipal da duplicação da Avenida Edvaldo Pereira Paiva. Há mais de um mês a cidade está debatendo sobre a necessidade da retirada de tipuanas e outros vegetais do local e, sem chegar a um consenso, a medida foi tomada enquanto o prefeito da capital gaúcha está em viagem ao Vale do Silício.

É possível que muitos cidadãos não concordem com a maneira com a forma ou o motivo dos protestos e pensem que é de alguma forma benéfica a obra de duplicação da Avenida. Também é, no entanto, bem provável que a cidadania não entenda de maneira clara que este não era (e ainda não é) um problema de árvores, mas um problema de urbanismo, de tipo de desenvolvimento, um problema ambiental em sentido amplo.

Este não é um debate de ecochatos, é um problema de urbanismo, especulação imobiliária e acordos políticos.Várias outras obras vão preparar a cidade para a Copa do Mundo e outros megaeventos esportivos. Não estams afinados às preocupações mundiais com mobilidade urbana. Sobre o assunto, recomendo a leitura dos seguintes textos:
No passado, foi a população que impediu que prefeituras anteriores derrubassem o Mercado Público (em nome do "progresso") e também a implosão da Usina do Gasômetro para ali passar uma avenida. Então não somos do contra, talvez sejamos pessoas com alguma informação a mais do que as pessoas que se deixam iludir pela mídia. (Razões contra a duplicação da Av. Edvaldo Pereira Paiva, parecer do Instituto de Arquitetos do Brasil/RS)
Não é nada comum vermos túneis gigantescos, viadutos e largas avenidas no meio de cidades que achamos interessantes, como maioria das cidades européias ou campeãs de caminhabilidade americanas como Nova Iorque, ambientes invejáveis para os brasileiros que as visitam. O modelo portoalegrense, no entanto, continua seguindo essa "estratégia ala Brasília", obsoleta desde a década de 60 com a influência de Jane Jacobs no pensamento urbanista. Em São Paulo, que cresceu desta mesma forma, 1/4 da área construída (tirando as ruas!) é exclusiva para garagens e estacionamentos. É talvez a cidade brasileira que mais sofreu intervenções de túneis e elevados e, consequentemente, tem alguns dos maiores congestionamentos do mundo, com momentos chegando a quase 300km de lentidão. Olhando desta forma as obras parecem ser um retrocesso, não desenvolvimento. (A falsa dialética "Árvores vs. Desenvolvimento" em Porto Alegre)
Temos de admitir que, em um mundo ideal, seríamos capazes de construir até acabar com os congestionamentos no trânsito. Um aumento do número de vias expressas em todo o país em 50% provavelmente superaria toda a demanda latente. No entanto, para fornecer mais do que um alívio temporário, este enorme investimento teria que ser feito junto com uma moratória sobre o crescimento suburbano. Caso contrário, as novas subdivisões, shoppings, parques de escritórios, cuja construção foi possível graças às novas vias acabariam por sufocá-las também. No mundo real, essas moratórias são raramente possíveis, é por isso que a construção de mais vias é geralmente uma loucura. (Por quê a construção de mais vias não alivia os congestionamentos, trecho de Suburban Nation: The Rise of Sprawl and the Decline of the American Dream)

Agora, quem irá de concordar com a forma truculenta e obscura que foi realizado o desmantelamento do acampamento? Os ativistas anunciaram publicamente que subiriam nas árvores para evitar o corte e, então foram imobilizados, algemados e retirados do local para evitar transtornos? A ação foi realizada de madrugada da véspera de um feriado, para evitar veiculação e vinda de pessoas ao local, que evitassem a retirada das árvores? (Como aconteceu em fevereiro, quando o corte foi iniciado na surdina e impedido pela própria população, numa atitude espontânea e nada partidária, sr. Wianey). Visto que a prefeitura retirou o pedido de reintegração de posse contra os acampados? Visto que nenhuma negociação foi feita, já que os planos por parte da prefeitura não mudaram mesmo enfrentando resistência popular clara e unânime?

Transparente, rápida e cirúrgica foi a operação, segundo o chefe Comando de Policiamento da Capital. Sem dúvida, e, depois deste procedimento médico, Porto Alegre está realmente na UTI.


Jornal Opa!

28 maio 2013

brasil otimista

Matéria publicada na EcoAgência sobre a conferência de Marina Silva e Fernando Gabeira em Porto Alegre.

Para Marina Silva, Brasil reúne condições para mudar paradigma de desenvolvimento

Ao participar do ciclo de debates Fronteiras do Pensamento, ao lado do ambientalista Fernando Gabeira, ex-ministra defendeu que para tomar a dianteira do desenvolvimento sustentável, o país precisa somente que seus dirigentes percebam o movimento mundial de preocupação com o meio ambiente.


Luiz Munhoz/Divulgação

Recursos hídricos, biodiversidade, extensão territorial. Para Marina Silva, possível candidata à presidência pela segunda vez no ano que vem, o Brasil tem todas as condições para liderar a mudança mundial de mudança no paradigma de desenvolvimento. A ex-ministra do Meio Ambiente durante o governo Lula (2003-2008), acompanhada do ex-deputado federal pelo PV Fernando Gabeira, realizou conferência em Porto Alegre nesta segunda-feira. Os políticos palestraram no Salão de Atos da UFRGS durante o ciclo de debates Fronteiras do Pensamento.

Para Marina, vivemos um momento de crise civilizatória, em que é urgente assumirmos o “desconforto da escolha” e transformar os hábitos cotidianos. A questão do meio ambiente não pode ser tratada de maneira isolada de muitos outros conflitos contemporâneos.

O consumismo segue sendo o maior problema, segundo a ativista ambiental, pois segue a lógica do desenvolvimentismo convencional e do que chamou de “cultura do excesso”: – “O ser humano precisa deslocar sua capacidade infinita de desejar coisas para a de ser outras coisas”. Marina pontuou que os problemas sociais de hoje não são técnicos, mas éticos. Gabeira citou exemplos de cidades que investiram na economia criativa e conseguiram aumentar a economia local, abrindo museus, criando feiras literárias, centros de arte. Marina citou a internet como uma das mais acessíveis ideias da desmaterialização do consumo. “Hoje, a economia funciona a partir de bens intangíveis. Uma pessoa inventa uma coisa onde se compartilha fotos e fofocas e isso dá dinheiro”, disse sobre o Facebook.

Marina e Gabeira criticaram o governo Dilma pela falta de tomada de posição na questão ambiental. A historiadora acreana criticou duramente o Plano Decenal do Ministério de Minas e Energia por não incluir nenhuma referência à energia solar. Marina avaliou o pré-sal como um mal necessário para o país, que ainda não pode dispensar totalmente o petróleo como matriz energética. Mas os lucros dessa investida federal deveriam ser destinados para desenvolver alternativas energéticas limpas.

A ex-ministra defendeu que para tomar a dianteira do desenvolvimento sustentável, o país precisa somente que seus dirigentes percebam o movimento mundial de preocupação com o meio ambiente. Para ela, a população já está bem alertada. O ex-deputado federal pelo PV Fernando Gabeira foi mais pessimista. Para ele, falta desenvolvimento educacional para que a crítica ganhe coro popular.

Apoiada na retrospectiva histórica feita por Gabeira das questões ambientais em pauta da Rio 92, Marina Silva criticou a defesa "do meio ambiente dos outros”. Para ela, os amazonenses devem se preocupar com a Amazônia e os gaúchos com as águas e o pampa. "Não é de um partido ou de um líder que vai sair a mudança, mas das pequenas atitudes pessoais em casa e no trabalho" - avaliou, conceituando o ativismo autoral.

Do lado de fora da conferência, simpatizantes da ex-Ministra do Meio Ambiente coletavam assinaturas para a formação do novo partido de Marina Silva, a Rede Sustentabilidade. Sobre a candidatura, ela adiantou: "acabamos de sair das eleições municipais, é preciso tomar um tempo para descansar".

27 maio 2013

o mundo contra a monsanto

Nesse sábado, 25 de maio, milhares de cidades em mais de 50 países saíram às ruas para alertar sobre os problemas socias e de saúde causados pela Monsanto e outras empresas químicas e de biotecnologia, e sua lógica de patente sobre a vida.

Em Porto Alegre, as demandas foram a retirada das sementes transgênicas do Programa Troca-Troca para a agricultura familiar e o investimento estatal em Bancos de Sementes Crioulas. Aos gritos de "Quero milho do campo, não milho da Monsanto" e "Sementes vivas, terra livre", um pequeno grupo de ambientalistas de todas as gerações se dirigiu ao Palácio Piratini. Receberam os ativistas o secretário-executivo do Gabinete do Governador Itiberê Borba e Francisco Milanez, ambientalista, ex-presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN) e recém nomeado responsável por Tarso Genro para elaborar o Plano de Sustentabilidade do Governo do Estado.


Ramiro Furquim/Sul21


Ramiro Furquim/Sul21


Ramiro Furquim/Sul21


Ariel Fagundes

Confira a íntegra da Carta entregue ao Governo do Estado:

MARCHA MUNDIAL CONTRA A MONSANTO

CARTA AO GOVERNADOR

Porto Alegre, 25 de maio de 2013

Neste sábado, 25 de maio, milhões de cidadãos ao redor do planeta protestamna Marcha Mundial Contra a Monsanto, respondendo unificada e ativamente aos problemas sociais, econômicos e de saúde relacionados ao consumo e ao cultivo de alimentos transgênicos. Seguido ao protesto, o movimento no Rio Grande do Sul traz duas propostas de desenvolvimento sustentável para o estado: o investimento estatalmaciço em Bancos de Sementes Crioulas e a retirada imediata das sementes transgênicas do Programa Troca-Troca de Sementes da EMATER.

Por estes motivos encaminhamos hoje o presente documento, fruto de organização democrática e popular, ao Governador do RS, Tarso Genro, por intermédio do chefe do Gabinete do Governador, Ricardo Zamora; da coordenadora de educação ambiental da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Gislaine Pacheco; e do responsável pelo Plano de Sustentabilidade do Estado, Francisco Milanez.

1. PROBLEMAS

A Monsanto é uma empresa de agricultura e biotecnologia que lucra vendendo organismos geneticamente modificados (OGM) e agrotóxicos e cobrando royalties sobre o uso de seus produtos patenteados. Entre as principais sementes produzidas e comercializadas ao redor do mundo estão milho, soja, trigo e algodão – commodities indispensáveis para a produção de alimentos em larga escala. Além da participação no agronegócio em latifúndios, a companhia também é fornecedora de insumos para a pecuária (respondendo pela criação do hormônio de crescimento bovino recombinante) e para a fabricação de comida industrializada (inventando o adoçante artificial sacarina e posteriormente comprando a criadora do aditivo alimentar aspartame).

Posto que fornece subsídios para a produção do que hoje se tornou a base alimentar do planeta,a implantação de campos de sementes transgênicas concentra para a Monsanto os benefícios da produção agrícola ao redor do mundo. Hoje, a transnacional está atrelada a 90% da produção de transgênicos no planeta e líder no mercado de sementes. Esse patamar foi adquirido com a práticas ilegais (ou legais em países com legislações frágeis) e política monopolista no fornecimento de alimentos em todo o mundo, conforme detalhado a seguir.

As sementes a que hoje temos acesso são fruto da biodiversidade de frutas, verduras, legumes e grãos criados espontaneamente pelo desenvolvimento milenar e natural dos organismos vivos. Retirando genes de outros organismos animais ou vegetais e implantando-os em sementes alimentícias, a Monsanto registra a patente deste novo gênero alimentício. Com a ajuda da monocultura, os campos substituíram espécies alimentícias locais pela lista de produtos aceitos pela indústria alimentícia internacional – e a frondosa variedadeda qual goza o território brasileiro sucumbe pouco a pouco.

Os agricultores de todo o mundo que adquirem sementes transgênicas assinam um contrato em que se comprometem a repassar para a companhia uma porcentagem do lucro de sua lavoura. O comprometimento está justificado pelo controle exclusivo sobre as sementes feito pela Monsanto, que produz e adquireas patentes das sementes geneticamente modificadas. Há suspeitas de que o suicídio de centenas de agricultores na Índia esteja relacionado à impossibilidade de saírem do endividamento com a companhia, causado pelos altos custos das sementes e dos insumos químicos necessários à plantação.

Recentemente, a empresa foi processada por centenas de produtores rurais brasileiros que requisitaram a nulidade da cobrança de porcentagem no lucro sobre a plantação de OGM. No entanto, o término do pagamento de royalties não é o único problema em questão. Pois, independente do repasse financeiro, a Monsanto se beneficia contínua e crescentemente das produções agrícolas locais por dois motivos: a dependência do campo e o enfraquecimento do solo.

Para resguardar sua fatia de mercado, a Monsanto tem adquirido recentemente bancos de sementes nativas numa estratégia preventiva frente às constantes investidas populares contrárias à cobrança de royalties pela empresa.Um movimento mundial organiza ativistas para pressionarem os representantes do governo a adicionarem dispositivos às constituições federais, visando preencher “buracos na legislação” que permitem a essas grandes empresas patentearem as variedades de plantas e os métodos tradicionais de produção de alimentos. Proteção legislativa é o método democrático para garantir a segurança da saúde de consumidores e produtores e da economia da produção agrícola local.

A Monsanto iniciou estudos de sementes terminator (não-germináveis), isto é, que não podem se reproduzir espontaneamente – o que deixaria o produtor rural dependente da encomenda de uma nova leva de sementes a cada nova safra. Segundo Carta Aberta do CEO da Monsanto Robert B. Shapiro, a companhia não pretende e nunca comercializou sementes estéreis. Mas o depoimento de agricultores de todo o país aos movimentos sociais e a contínua encomenda de novas remessas de sementes denuncia que alguma parte desta tecnologia pode ter chegado aos campos brasileiros.

Ainda há que se dize que a transgenia ameaças as espécies nativas. Algumas espécies de plantas têm cruzamento polinizado, o que significa que o pólen fértil de GMOs pode fecundar outras plantas distantes, transformando plantações próximas também em áreas transgênicas.

Adicionalmente, os agricultores que utilizam suas sementes e se negam a repassar parte de seus lucros, além de serem criminalizados pelos prejuízos financeiros causados à transnacional, contaminam a terra com o cultivo. Isso porque o cultivo de transgênicos está ligado ao uso intensivo de agrotóxicos. O uso de agrotóxicos – que está incluído no “pacote” da plantação de OGM – altera os ciclos naturais do solo e impacta negativamente na retroalimentação mantida pela própria produção de matéria orgânica, responsável pela fertilidade do solo. Mesmo assim, o Brasil é o campeão mundial na importação e no uso de agrotóxicos para o cultivo de alimentos. 85% da soja produzida no país é geneticamente modificada. Hoje, a soja transgênica está presente em 17 estados do Brasil, e a maior produção está no Mato Grosso do Sul, no Paraná e no Rio Grande do Sul.

São dezenas as pesquisas que indicam que consumo de OGM causa doenças. Essa combinação, segundo pesquisas científicas,provoca, em longo prazo (por isso dificilmente mapeáveis), infecções, tumores, câncer, infertilidade, destruição do sistema imunológico, resistência a antibióticos e mutação da flora intestinal.
A informação é pouca divulgada devido à intensa produção de testes patrocinados pela própria Monsanto e à imposição de barreiras a estudos que revelem os impactos dos transgênicos. As pesquisas, em geral, são de curta duração, não registrado impactos negativos nos organismos e influenciando os critérios de biossegurança dos países importadores de sementes OGM. Faltam pesquisas independentes que acompanhem os efeitos a longo prazo dos transgênicos nos organismos vivos. Os poucos estudos que conseguem ser publicados desvencilhando-se da opressão contínua da companhia de biotecnologia sobre os laboratórios de pesquisa ganham pouca visibilidade pela falta de discussão pública sobre o assunto.

Em setembro de 2012, uma pesquisa do francês Gilles-Eric Séralini foi publicada na revista científica Food and Chemical Toxicology, Este foi o estudo mais prolongado até o momento sobre os efeitos da ingestão de milho transgênico da Monsanto NK603, com e sem glifosato (um dos herbicidas mais utilizados no mundo). Os ratos de laboratório alimentados com OGM indicaram propensão radicalmente maior amortalidade, infertilidade, desenvolvimento de tumores mamários e problemas hipofisários e renais em comparação aos outros animais. O estudo foi fortemente combatido pela companhia com forte resposta à imprensa acerca da falta de credibilidade na equipe de Séralini. Pouco tempo depois, foi admitido no comitê editorial da revista para um cargo recém criado Richard E. Goodman, que trabalhou para a empresa entre 1997 e 2004.

A empresa ainda trabalha contra a rotulagem de alimentos transgênicos. O direito de informação aos consumidores na exigência de discriminação na embalagem de produtos contendo OGM, segundo texto publicado no site da Monsanto no Brasil, “pode prejudicar a confiança dos consumidores” e adicionar um grande ônus às agências regulatórias.

Uma série de estudos já revela que o problema da fome está relacionado à má distribuição de alimentos ao redor do mundo – uma consequência da especulação sobre terras e do paradigma econômico sobrepor-se ao bem-estar da população de países com menos condições financeiras. A maior prova de que a biotecnologia não diminuiu o problema, pelo contrário, só dificultou ainda mais o acesso às condições nutritivas mínimas é de que o número de famintos no mundo aumentou. Segundo a FAO, hoje mais de 1 bilhão de pessoas não têm garantido o mínimo de carboidratos necessários à boa nutrição diariamente. Desses, 65% estavam em na Índia, China, República Democrática do Congo, Bangladesh, Indonésia, Paquistão e Etiópia – países localizados em regiões produtoras de grandes estoques de alimentos transgênicos, destinados, principalmente para a engorda de rebanhos bovinos.

O uso de alimentos transgênicos atende um modelo agrícola da monocultura levando, por consequência, ao desmatamento e à contaminação das águas por agrotóxicos. Os latifúndios produtores de um único gênero alimentício têm o solo empobrecimento por desvincularem-no de outrasespécies companheiras que poderiam suprir suas necessidades nutritivas. A intensificação da mecanização no campo (forte argumento do agronegócio de grande escala) tem sido uma das principais responsáveis pela fuga da mão-de-obra do campo no país.

Ao redor do mundo, Alemanha, França, Hungria, Rússia, República Tcheca e outros países já se posicionaram contrários à Monsanto e à exploração econômica dos campos por parte de outras multinacionais da biotecnologia.Movimento campesino no Haiti recusou a doação de sementes da Monsanto, depois do terremoto que abalou o país.Frente à forte oposição ativista em países da Europa, a estratégica da companhia norte-americana foi transferir o investimento em países, frágeis financeira e legislativamente, deficitários em qualificação técnica no campo e com abundância de água e de terra para desenvolvimento de latifúndios, tais como China, Índia e os latino-americanos Argentina e Brasil.

Enquanto o estado permanece calado, deixando de promover educação ambiental, melhoria da vida no campo e formação agroecológica, as grandes companhias de biotecnologia investem pesados recursos em meios de comunicação brasileiros, que são demandados para produzirem conteúdo publicitário e favorável ao uso de sementes transgênicas. Os argumentos da Monsanto são de que as sementes de OGM são mais duradouras e independentes de insumos – o que faria da transgenia uma opção sustentável – e que o lucro da propriedade rural é intensificado e o problema da fome diminuído pelo aumento da produção. Como já visto, os argumentos são falsos: os campos ficam dependentes; os seres humanos e animais, contaminados pela ingestão de alimentos geneticamente modificados; a riqueza e biodiversidade, comprometida; e os produtores rurais, reféns da empresa que fornece sementes.

Lutando contra a Monsanto, estamos lutando pela nossa comida. Ao lado dessa, outras empresas compartilham a estratégia antes descrita: Cargill, Syngenta, Bayer e suas filiais no Brasil e no mundo. Muitos agricultores, consumidores e políticos já são contra a lógica econômica dessas organizações. Uma mudança política pode reverter o quadro e colocar novamente a soberania alimentar e a garantia de um meio ambiente sadio, direitos inalienáveis dos cidadãos, acima dos interesses econômicos de uma empresa de fins privados.

2. PROPOSTAS

Como sabido, a inclusão de sementes no programa Troca-Troca da EMATER foi uma medida proposta pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (FETAG-RS) e aprovada pelo conselho do Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento dos Pequenos Estabelecimentos Rurais (FEAPER). Conforme alertado anteriormente, variados problemas estão relacionados à introdução dos transgênicos nos campos. Os movimentos sociais aqui presentes requerem um posicionamento do estado que possa emitir nova sugestão e retirar as sementes dos campos da agricultura familiar – e, possivelmente, da agricultura de todo o estado.

Para alimentar a população de maneira independente, manter a produção agrícola diversificada e a mão-de-obra no campo,a reposta é investir na soberania alimentar.Nesse sentido, pedimos que o estado adote em seu Plano Estatal de Sustentabilidade o investimento em Bancos de Sementes Crioulas, que valorizem e protejam a biodiversidade local e as alternativas naturais de alimentação.

Neste sábado nos concentramos contra a Monsanto, contra o desnecessário investimento em biotecnologia frente à riqueza nutritiva e econômica natural que nossas sementes crioulas já nos oferecem. No entanto, o desejo e a implantação da transição agroecológica radical acontece todos os dias.


Na confiança de um posicionamento firme e pioneiro de nosso governo e no aguardo de respostas imediatas às duas pautas previamente apresentadas, assinam este documento:
Associação Agroecológica;
Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida - RS;
IGRÉ - Amigos da Água;
InGá – Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais;
FEPAM;
Fundação Gaia Legado Lutzenberger;
Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul;
Coletivo Cea - Centro de Estudos Ambientais;
ONG Pachamama;
E demais ambientalistas, ativistas e movimentos sociais presentes.

09 maio 2013

não se deitam comigo corações obedientes



A Naifa é um grupo que mistura fado, pop e música eletrônica. Como se não bastasse, os portugueses cantam poesia.

Mitó (Maria Antónia Mendes, voz), Luís Varatojo (guitarra portuguesa) e João Aguardela (baixo) trabalham musicando versos de poetas locais. Os primeiros, discos "Canções Subterrâneas" e "3 Minutos Antes de a Maré Encher", estão repletos de músicas filhas da poesia. O terceiro, "Uma Inocente Inclinação Para o Mal", é a primeira criação letrística, toda assinada por Aguardela. Com a morte do baixista em 2009, o grupo volta à poesia.

Apesar de ser difícil que as novidades da velha península ibérica sem jabá atravessem o oceano, conheci a banda por causa de uma poeta que gosto muito, Adília Lopes. Duas músicas do disco "Canções Subterrâneas" são poemas seus. Em Queixas de um utente, eles cantam Deus é a nossa mulher-a-dias. Em Meteorológica, o homônimo.



Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa




Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(...)
um dia
tão bonito
e eu
não fornico


O último disco, "Não se deitam comigo corações obedientes", foi lançado no ano passado e tem versos das poetistas Adília Lopes, Ana Paula Inácio, Margarida Vale de Gato, Maria do Rosário Pedreira e Renata Correia Botelho. Se esses não são nomes conhecidos para você, recomendo a leitura de cada link.

Dá pra ouvir um pouco das músicas de todos os álbuns no site: anaifa.com. Pra ouvir as músicas dos primeiros discos na íntegra, Santo YouTube.

02 maio 2013

ocupe seu coração



Semana passada, entrevistei Velcrow Ripper, diretor do documentário Occupy Love. O filme estreou no mês passado, contando um pouco das revoluções populares que chacoalharam o mundo nos últimos anos. Acompanho há tempos o trabalho dele, em busca incessante daquilo que anima, por dentro, as grandes revoluções. O amor, para um revolucionário como Velcrow, é a resposta para superar o momento atual de um mundo injusto, desigual e desumano.

Por que você pensa que o amor está por atrás de todos esses atos? Amor é uma maneira de simplificar todas as boas emoções que moveram essas coisas?
Para mim, o amor não é uma emoção. É muito mais profundo que isso. É o tecido da própria criação. É interdependência, conexão. É comunidade. É justiça. Estou falando sobre amor público, não amor romântico, que muitas vezes é apego disfarçado de amor. Este amor é profundo, é o amor do qual Martin Luther King Jr. falava, é o amor que fez Gandhi e sua revolução não-violenta efetiva.

No filme você repetidas vezes quer nos mostrar quando e como você pergunta às pessoas se poderia haver ali uma história de amor. O que você quer fazer as pessoas pensarem quando pergunta isso?
Eu quero que eles vejam o caminho em meio à crise para soluções possíveis. Eu quero surpreendê-los, e que eles me surpreendam. Existem muitas maneiras diferentes de responder, e eu amo todas as respostas – até mesmo das pessoas que simplesmente pensaram que eu era maluco por estar fazendo essa pergunta.

Para quem também se apaixonou pelo filme, recomendo a leitura da entrevista na íntegra no site do Jornal Tabaré.

O filme estará disponível online a partir de amanhã, no site www.occupylove.org.

27 abril 2013

bambuína

Ela é linda, ela é leve, ela é de bambu, ela é a Bambuína! Depois da Jacobina (bici vendida) e da Gioconda (bici roubada), ela chegou para alegrar minha vida.

A Bambuína é uma single-speed contra-pedal. Uma vida simples, o bastante. Um presente louco de especial dos queridos Klaus Volkmann e Marcos Nicolaiewsky da ArtBikeBamboo.

Para quem está curioso sobre como isso é possível, aqui tem algumas fotos do processo de fabricação desses veículos de inspiração em massa.