14 março 2016

o gênio do homem comum

existe suficiente falsidade e absurda violência odiosa no ser humano mediano
para abastecer qualquer exército de qualquer época

e os melhores no assassinato são aqueles que se declaram contra ele
e os melhores no ódio são aqueles que pregam o amor
e os melhores na guerra, por fim, são aqueles que pregam a paz

aqueles que pregam Deus precisam de Deus
aqueles que pregam a paz não têm paz
aqueles que pregam o amor não têm amor

cuidado com os pregadores
cuidado com os sabe-tudo
cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros
cuidado com aqueles que detestam a pobreza
ou os que têm orgulho dela
cuidado com aqueles que rapidamente elogiam
porque eles precisam de elogios em troca
cuidado com aqueles que rapidamente censuram
porque têm medo daquilo que não conhecem
cuidado com aqueles que sempre procuram multidões porque
não são nada sozinhos
cuidado com o homem mediano, com a mulher mediana
cuidado com seu amor, seu amor é mediano
busca o mediano

mas existe talento em seu ódio
existe talento suficiente em seu ódio para matar você
para matar qualquer um
não querendo a solidão
não entendendo a solidão
eles vão tentar destruir qualquer coisa
que seja diferente deles
não sendo capazes de criar arte
eles não entenderão a arte
eles tomarão seu próprio fracasso em serem criativos
simplesmente como uma falha do mundo
não sendo capazes de amar completamente
eles verão o seu amor como incompleto
e então eles irão lhe odiar
e ódio deles será perfeito

como um diamante brilhoso
como uma faca
como uma montanha
como um tigre
como cicuta

sua arte mais refinada




Traduzi o poema The Genius Of The Crowd, do Bukowski. Me parece infelizmente apropriado para os recentes dias. Aqui, o poema narrado pelo autor em inglês e com legendas em espanhol.

04 fevereiro 2016

voa, GROUS!



Lançado no final de 2015, MIL GROUS é o primeiro livro publicado cuja diagramação assino! Ele foi lançado pela Torre de Marfim, de João Kowacs e Daniela de Paula. A parceria com a produtora também marca a primeira publicação de livros com meu querido selo MÚSCULO. O livrinho é uma produção independente mas não com poucos balangandans: temos prefácio generoso do Jorge Mautner! Os GROUS têm passeado por feiras do país, nos braços do editor Kowacs, do ilustrador Daniel Eizirik e dos meus.

MIL GROUS acaba de ganhar uma linda resenha na Zero Hora dessa quarta-feira, 6 de fevereiro. Dá uma conferida aqui no texto online.

Para adquiri-lo, envie mensagem para a página no facebook ou para o email para samlout@gmail.com.

26 janeiro 2016

ava

Os membros da etnia Avá-Canoeiro sofreram muitos massacres durante a história. [..] Dados de 2011 afirmam a existência de apenas seis membros na etnia, que corre risco de extinção. [...] [Pode haver] ainda mais dois grupos Avá-Canoeiro que não mantêm contato com a sociedade.

16 janeiro 2016

lançado Rua Sete #2

Mais um bebê está à solta no mundo! Nova edição do zine Rua Sete, diagramado por mim para o Santander Cultural. Tem um pouco sobre os Kaingang, Vasco Prado, as ilustras lindas da Pilar Prado, cineclubes, Figueiroas. Onde encontrar pela cidade, é só pegar, é gratuito!

Locais de distribuição em Porto Alegre:
> Cidade Baixa: Agridoce, Dub Studio, rmEco Hostel, Casa Azul, Dirty Old Man, Locals Only, Café Cartum, Bamboletras.
> Bom Fim: Odessa, Sim Salabim, Ocidente, Lancheria, Piperita

15 janeiro 2016

Feira Rua Sete



Na última semana de janeiro em Porto Alegre, tem uma feira gráfica LINDA, bate-papo sobre ZINES e shows: é a Feira Rua Sete! Tudo acontece nos dias 28 e 29 de janeiro no Santander Cultural! Estaremos lá com a MÚSCULO e todos os nossos amigos artistas com suas autopublicações! Terá de tudo: pôsteres, ilustrações, adesivos, história em quadrinhos, fotolivros, caderninhos, livros e zines!

Confira todo mundo que vai estar lá e mais informações sobre os eventos paralelos no fôlder virtual abaixo ou no Facebook.



15 dezembro 2015

Lançamos MIL GROUS!



Meus queridos, nesta quinta, vulgo meu aniversário, lançamos o primeiro livro de Lorean Linchen (e o primeiro livro diagramado por mim)!

MIL GROUS é um grande poema dividido em 64 partes - ou 64 poemas, a seu dispor. esse foi um trabalho de mais de um ano, ilustrado por Daniel Eizirik, diagramado por mim e editado por João Kowacs, numa parceria da Torre de Marfim com a MÚSCULO. o prefácio é de Jorge Mautner. uma joiazinha em forma de papel.

Vai ter lançamento no final da tarde (18h) desta quinta (17/12), com showzinhos e balangandãs. É na Casa Frasca, Av. Independência esq. com Barros Cassal. Vem nos abraçar!

17 novembro 2015

sobre racismo e pesquisa

Na semana da consciência negra, um bom avanço na pesquisa sobre racismo. A Airi Sacco investigou a formação do racismo na infância. E descobriu coisas importantes como o vínculo da representação das classes sociais e a identificação com alguma etnia.

O nome da tese é "Orgulho e preconceito: O desenvolvimento de atitudes raciais em crianças de Porto Alegre e Salvador". O tema é o racismo mas também é importante para saber os limites do uso de medidas explícitas na ciência. Quando, em entrevistas, as pessoas controlam totalmente a resposta que dão. Quais são os problemas de usar somente essas fontes como dado de pesquisa?

Ela resumiu a tese de doutorado em Psicologia em 3min, para um concurso. Recomendo assistir.

Crise da Síria em 10min



A Forbes publicou um vídeo-resumo bem útil, já que hoje funcionamos melhor vendo tudo! É do canal WHYMAPS, com áudio em espanhol e mil legendas.




06 novembro 2015

novo zine na área

SAIU! ele é todo lindo e gratuito e cheião de coisas. Quem encontrar por aí na cidade, pó pegar! Primeira edição do zine Rua Sete do Santander Cultural.

Obrigada a todos os queridos coprodutores desta belezinha azul!

30 outubro 2015

TEM EP na rede!



Afrobeat. Baião. Funk. Saiu o primeiro disco da Trabalhos Espaciais Manuais, banda de Porto Alegre, ou melhor dizendo, pequena orquestra popular, que faz música instrumental para dançar!

O EP está totalmente disponível para streaming! Não perca.

BandCamp ► trabalhosespaciaismanuais.bandcamp.com
SoundCloud ► soundcloud.com/trabalhosespaciaismanuais
YouTube ► youtube.com/TrabalhosEspaciaisManuais

O encarte conta esse lindo projeto gráfico assinado por Gabriel Sacks e Rafael Druzian, bateria e sax tenor da banda. E mais: o encarte vira um belo cartaz exclusivo.

Quer o disco em formato físico? Dá pra encomendar pela página da TEM no Facebook.

O EP da TEM foi gravado no TungStudio por Stenio Zanona, masterizado por Arthur Tabbal e lançado no dia 24/10/2015.

20 outubro 2015


Feliz dia do professor atrasado.
Feliz dia da esperança.

Foto de Caren Firouz/Reuters no Paquistão. Veja mais no link: UOL > Fotógrafos registram salas de aula em vários países do mundo

14 agosto 2015

desintoxicação indexical

Querido diário,

Parei para pensar outro dia que a nossa geração (conceito problemático, mas do qual gosto de me valer às vezes para simplificar as coisas) tem um problema de índex.

Problema: Pare para imaginar como seus pais faziam para telefonar para os amigos. Eles tinham o número gravado na memória. O que eles faziam para descobrir um telefone se não lembrassem? Buscavam na agenda telefônica, breviamente anotada, à mão, em seções nas letras A, B, C. Quando lembravam de um trecho de uma história? Corriam aos livros na prateleira! Um pedaço de música? Cantarolava e lembravam juntos.

(Aqui cabe um pequeno parênteses. A senhora Indalécia, mais conhecia como minha avó, decorava a letra inteiras das músicas na década de 1950, quando as ouvia pela primeira vez no rádio. Por quê? Para que, se gostasse, pudesse pedi-las depois.)

O que nós fazemos quando queremos falar para alguém? Ícones, botões, infinite scrolling, agenda telefônica que salva em ordem os números mais ligados (sem falar nos chats, onde precisamos só saber o nome das pessoas). Tags, hashtags, marcadores, feeds, grupos, listas, fóruns, likes, recomendações, sharing, oversharing. Paramos de ter um pensamento indexical, que consegue organizar informações na memória de maneira organizada. Não é difícil se deparar com pessoas da nossa geração que têm a impressão de já ter visto isso antes, só não fazem ideia de onde.

É excesso de timeline, tumblr, feed, mailing, customização do profile virtual. Tudo do jeitinho que a gente quer, a qualquer momento disponível. Tá tudo tão aí, acessível, que de repente nada tem mais graça. De repente, me senti burra.

Considerações prévias: deletei metade das minhas contas em sites. Saí de grupos em facebook. Saí de mailings. Parei de dar likes, de clicar em coraçõezinhos no Instagram. Deletei meus feeds. A ideia é: desintoxicar. Salvei numa pastinha de favoritos os meus, de verdade, links favoritos. Eu sei que isso ainda é uma maneira de indexicar os locais para os quais eu quero voltar, mas pelo menos é um tecnologia mais branda.

O resultado conto aqui mais tarde.

as meninas de Huambo

Lá na Angola, Ruy Mingas canta a letra de Manuel Rui. Lá em Angola, o pai do poeta sonhava com um além-mar bonito, e abriu a Livraria Brasileira no estado de Huambo. A livraria faliu. Lá na Angola, litoral africano, país da famosa Luanda, a independência só veio em 75. Em 1975.

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade...
Porque meninos inventaram coisas novas
Que até já dizem que as estrelas são do povo

Manuel disse que "a realidade é sempre mais de sonho do que o imaginário".
Permanece desconhecida nossa matéria-prima, máter-continente. Alguns nos ajudam a conhecê-la um pouquinho melhor.

Conheci essa música com o disco Flor Bailarina, que retoma as principais músicas da Angola. Obrigada, Jussara Silveira.

Conheci esse poeta com o livro Sonha Mamana África, do qual tantas vezes já falei aqui, sobre a literatura da África lusófona. Aprendi isso e tantas outras com ela. Obrigada, Cremilda Medina.

11 agosto 2015

nunca é o bastante



É, hoje, a quantidade de informação produzida num nano-segundo é maior do que todo conteúdo já feito no universo desde que o mundo é mundo (ou algum dado assim). Mas sabe o que cresce mais rápido do que o volume de dados digitais? A nossa carência. [...] A tendência é que nosso próximo passo seja uma ruptura total, uma desconexão inclusive digital. Afinal, o excesso leva à abstinência.

Leia o texto de Vinícus França, originalmente publicado no Medium.

08 agosto 2015

eupai



essa foto, apesar de ser de mim, é uma foto do meu pai

eu não sei quem tirou, se foi ele ou minha mãe
eu não sei porque eu quis posar com o violão do meu pai
mas sempre quando vejo essa foto minha aos 7 anos de idade
eu acho que estou vendo meu pai

meu pai era para mim, aos 7 anos
- e ainda hoje é -
esse violão

meu pai é esse violão imenso
que é do tamanho de mim inteira
meu pai é aquele som
que só ele e esse violão juntos podem ter

meu pai é esse sol calorento de verão
meu pai é aquela mão gigante cheia de calos
onde cabia minha mão inteira
- e ainda cabe

meu pai é aquele amontoado de cabelos negros
que insiste em deixar para trás, arrumadinho
mas eles não obedecem

meu pai é aquele bigodão faroeste sempre meio bagunçado
meu pai são aqueles olhinhos verdes tristonhos
por trás de imensos óculos redondos de armação dourada

meu pai é aquela orelha vermelha que eu gostava de apertar
quando era criança
meu pai é aquele monte de notas erradas que ele sempre corrige
quando eu acho que estou cantando bem

meu pai é aquele monte de sal que ele coloca na comida
porque não sabe muito bem prever o sabor das coisas
meu pai é aquele monte de piadas que eu já ouvi um milhão de vezes
e que, sinceramente, poderia ouvir um milhão de vezes mais

meu pai são aquelas 52 ligações não atendidas para o meu celular
preocupadíssimo com o fim do mundo
enquanto eu estava tranquilamente vendo um filme no cinema
meu pai é aquele pesadelo no meio da noite
que ele tem certeza que é sobre mim
e me liga pra me avisar

meu pai é uma saudade que eu tenho
é um pedaço de mim
que existe fora de mim mesma
meu pai é aquele choro que só ele consegue me fazer chorar

meu pai é aquele jeito desengonçado
meio brabo, meio torto
de dizer que me ama enquanto me xinga muito
- e eu que sou teimosa feito ele
tento dizer a mesma coisa
escrevendo poesia

meu pai
eupai