12 dezembro 2014

cartas para o jornalismo

Em setembro deste ano, a professora Cremilda Medina (USP) ministrou um seminário na Faculdade de Comunicação da UFRGS. Foi uma despretensiosa – mas preciosa – aula a respeito das ferramentas desgastadas com a qual o Jornalismo perde forças diariamente ao promover a impessoalização das narrativas. Para falar sobre essas coisas, Cremilda contou muitas histórias de sua atuação profissional, como o perfil em primeira pessoa de Elis Regina e da vez que transformou doces poloneses em objeto de uma matéria sobre os sobreviventes do nazismo.

Para Cremilda, é preciso que o jornalista livre-se do ego assinante e assuma-se como autor da mediação social. É preciso que supere o medo de ferir o autor com o eu lírico - querela há muito já resolvida pelas Letras. É preciso lembrar que não existe um “jornalismo literário”, pois toda escrita é literária (que pode ser expressiva ou não: a estilística vem do acontecimento); que todo jornalismo é cultural, pois tudo que se faz na esfera de produção de sentido é produção simbólica de um jornalismo que é leitor e autor cultural. É tarefa do comunicador social criar ambientes transdisciplinares entre os conhecimentos (do senso comum ou da ciência). A pesquisa em arquivos ou na internet nunca é suficiente para fazer Jornalismo, é preciso estar afeto ao mundo e atento às metodologias da história contemporânea, que nos ensinam sobre a superação de uma racionalidade esquemática. A interpretação – a qual objetiva o jornalista e o leitor do jornalismo – precisa ser mestiça de racionalidade e sensibilidade para compreender a realidade.

As atividades terminaram com a sugestão de um pequeno laboratório: reescrever reportagens publicadas na imprensa brasileira. A mim coube recontar algumas histórias sobre a epidemia do Ebola. Foram cinco já ótimas matérias publicadas na Folha de S.Paulo entre os dias 18 e 20 de agosto, além da ajuda de um conto da literatura moçambicana de língua portuguesa. Utilizando-me das noções de polifonia, polissemia e cumplicidade, transformei a reportagem em relato, como se os enviados especiais contassem sua história através de um terceiro repórter, sujeito oculto, mas presente através das cartas.

As reportagens e o conto referidos foram estes:
'Nada nos preparou para o medo permanente' (Patrícia Campos Mello, 18/ago/2014)
Sobreviventes do ebola (Patrícia Campos Mello e Avener Prado, 18/ago/2014)
Ebola leva terror a aldeia africana (Adam Nossiter, 19/ago/2014)
Ebola por dentro (Patrícia Campos Mello e Avener Prado, 19/ago/2014)
'Epidemia de medo' marca surto do ebola (Patrícia Campos Mello, 20/ago/2014)
As mãos dos pretos (Luís Bernardo Honwana, no livro "Nós Matámos o Cão-Tinhoso", de 1964)

Segue a matéria:

Cartas de Serra Leoa

Patrícia Campos Mello e Avener Prado foram enviados pela Folha de S.Paulo para Serra Leoa, no terceiro final de semana de agosto. A região está sofrendo desde o mês de março com uma forte epidemia do vírus do ebola. Na época da viagem, quase dois mil casos já tinham sido registrados na “zona do ebola”, região fronteiriça entre Serra Leoa, Guiné e Libéria, além da Nigéria.

Com sintomas iniciais parecidos com os da malária, o ebola mata cerca de 60% das pessoas que contamina. Orientados pelo Ambulatório do Viajante do Hospital das Clínicas de SP, os dois tomaram muitas vacinas antes de embarcar: malária, tétano, raiva, sarampo, poliomielite, meningite, febre tifoide, hepatite A e B. Além disso, um termômetro, utilizado por quase todos os profissionais que foram até o país para trabalhar contra a epidemia. É preciso monitorar a temperatura todos os dias.

Mãos que não podem tocar
Patrícia contou que ela e Avener estavam a caminho de Kailahun, distrito no extremo leste de Serra Leoa, local onde foram vitimados pelo vírus a maior soma de pessoas. No meio da estrada de chão batido, que já havia se transformado em pura lama, ficaram atolados. Demorou cerca de uma hora para que outros carros, caminhões da ONU e da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), também parassem. Alguns meninos do vilarejo, fracos mas sorridentes, foram chegando e tentando empurrar a caminhonete.

Se as mãos brancas dos pretos podem ter muitas origens – como nos conta o escritor moçambicano Luís Bernardo Honwana –, em Serra Leoa só importavam as consequências. Ninguém podia encostar sua mão em ninguém. Os meninos da vila que empurravam os carros e pediam fotos, avisavam, em inglês: “No worry, no touch”.

No comboio atolado na estrada, a médica sueca Karin Ekholm contou que ninguém mais encosta nos outros sem luvas e muito menos leva as mãos ao próprio rosto. “O vírus só é transmitido por contato com pessoas ou coisas, mas a doença é altamente contagiosa”. No hospital improvisado em Kailahun, todas as roupas dos dez novos internados diariamente por suspeita de ebola eram queimadas. O horror da contaminação chegava e eles agora entendiam o treinamento dado pela MSF sobre a pressão psicológica na cobertura de uma epidemia.


Estrada para Kailahun. Foto: Avener Prado

Para o hospital, a pé
Ao lado da epidemia do vírus, a epidemia do medo é maior para quem está hospitalizado. A infectologista italiana Lívia Tampellini contou para Patrícia que tem pesadelos em que suas luvas se rasgam e ela se contamina, ou que uma pessoa com ebola vomita em seus pés. A médica trabalha no hospital da MSF em Kailahun e, como frisou o fotógrafo Avener, “hospital” talvez seja mal entendido. Ele fez questão de fotografar a ala de alto risco em que trabalha Lívia, que nada mais é do que um espaço improvisado coberto por panos no chão, cadeiras de plástico e cordões laranja de isolamento ao redor.

Antes de chegarem à zona do ebola, os repórteres encontraram em alguns sobreviventes do vírus em Kenema, cidade do interior leonês no trajeto entre a capital Freetown e Kailahun. No período de 14 dias em que esteve na área de isolamento, Ahasan Kemokai, 34 anos, viu muitas pessoas morrerem. Sua prima e seu sobrinho de dez meses de idade. Seu colega de cama faleceu no intervalo em que Ahasan foi ao banheiro. Suas roupas, sapatos e celular foram queimados. Ele acredita que contraiu o vírus de sua mãe. Três dias depois da morte da mãe, Ahasan sentiu os primeiros sintomas. “Eu até desconfiei que fosse ebola, mas não se pode negar a mão à sua mãe”. Foi para o hospital a pé, vencendo mais de dois quilômetros e meio de estrada, para não contaminar ninguém no ônibus.

Os sintomas iniciais do ebola são febre intensa e repentina, acompanha de dores musculares e de cabeça. Em estágios avançados, acontecem diarreias, vômitos e sangramentos. A contaminação pelo vírus não acontece pelo ar, mas pelo contato com qualquer fluido corporal ou ainda pela ingestão de animais contaminados (como macacos e morcegos). Em 90% dos casos, a doença se manifesta após dez dias da contaminação.

Ahasan deixou o hospital de Kenema com um certificado de alta. Estudos apontam que pessoas que se curaram do ebola adquirem anticorpos e ficam imunes à doença. Mesmo assim, Ahasan conta que evita contato com sua esposa e não sabe se vai recuperar o emprego. As pessoas no bairro em que mora, dele nem chegam perto.


Ahasan Kemokai. Foto: Avener Prado

Enterros seguros
A Cruz Vermelha começou a promover os enterros seguros, evitando a preparação tradicional do corpo dos falecidos. O contato com os corpos contaminados parece ter sido uma das causas da avançada proliferação do vírus em Serra Leoa. Por isso, segundo o médico chefe de Kenema, Mohamed Bandi, a entidade instalou uma espécie de disque-denúncia, onde as pessoas avisam anonimamente sobre a possibilidade de contaminados escondidos nas casas.

Segundo o médico, a contaminação segue descontrolada porque muitas famílias preferem continuar com os doentes em casa, o que impede o monitoramento total por parte dos agentes de saúde. Mas mesmo nos hospitais a contaminação acontece. Uma das vítimas do ebola foi o maior especialista do vírus no país, Sheik Umar Khan. Faixas em sua homenagem estão em toda parte do hospital de Kenema.

Os estabelecimentos todos colocaram baldes com cloro nas portas. As pessoas devem lavar bastante as mãos para evitar a proliferação do vírus. Os técnicos dos necrotérios vestidos com uma roupa amarela de proteção e máscaras de oxigênio também tratam com uma solução de cloro os corpos contaminados. Os próprios trajes amarelos de proteção são incinerados depois da utilização diária.


Hospital na fronteira de Kailahun. Foto: Avener Prado

Abundância e escassez
O governo de Serra Leoa está isolando a zona do ebola (leste de Serra Leoa). David Keilie-Coomber, detentor do semiextinto cargo de chefe supremo do país, preocupa-se com a possível futura escassez de alimentos, devido ao suprimenro das atividades comerciais com a região. A preocupação aumenta com a situação das aldeias rurais, onde as palmeiras convivem com plantações de arroz e mandioca. O repórter do New York Times também no país, Adam Nossiter, conta que muitas aldeias estão vazias e os moradores acreditam que, com a morte de tantos agricultores, é capaz que não haja plantio de coisa alguma neste ano.

Enquanto isso, os gastos aumentam. Somente no hospital de Kailahun, são utilizados por dia cerca de 150 macacões amarelos de proteção, ao custo de 20 dólares cada um. Apesar do custo, o equipamento é necessário para os agentes de trabalham diretamente com a limpeza de fezes, vômito e sangue. No interior das tendas da MSF o uso dos macacões é obrigatório. Avener fotografou a preparação de um funcionário para ir à área de risco do hospital e escutou que o cheiro lá dentro é de cloro e sangue. Pacientes em estágio final da doença sangram pela boca, nariz e vagina.

Os médicos não ficam mais de 60 dias em cada posto, pois no trabalho assistem muitas pessoas morrendo e não podem tocar em ninguém durante meses. A médica Lívia confessou para Patrícia: “Às vezes nos abraçamos dentro da área de alto risco, todos vestidos de macacão, só para sentir algum contato físico”.

21 novembro 2014

as três idades da mulher

No trem, as três lado a lado. Era fácil perceber que pertenciam à mesma família, em três gerações. A cor rosa choque do vestido curto todo de renda, como dita a moda, destaca com eficácia o volume dos seios - talvez ainda mais pela ajuda do cinto de couro falso preto cheio de detalhes em dourado brilhante. O interesse no volume do colo era fortificado devido ao mistério instalado pelos longos cabelos pretos. Os fios escorridos tapavam parte do volume lateral, apagando as diferenças entre o tronco e os braços. Alto contraste com a avó, sentada por benevolência do cidadão do trem. Ali onde os seios caídos já se confundiam com o inchaço da barriga. Os cabelos, dessa vez, presos atenciosamente num coque perfeitíssimo, e fechados com louvor num adereço de brilho comedido. Nem mesmo a camiseta, também rendada, também de cor forte (laranja), como dita a moda, conferia sensualidade àquela que talvez hoje ocupasse mais os neurônios que os hormônios. Os olhos, pequenos, meio cansados, escondidos detrás de um óculos feinho de armação quase inexistente. Mesmo se eles não estivessem ali em cima, seja difícil dizer qualquer coisa, porque não paravam de olhar para a paisagem pela janela, distante. O queixo mascava alguma balinha, ou a própria língua. Ali do lado, outra boquinha parecia triste. Cada ponta os lábios caidinhas para baixo, talvez por imposição das imensas bochechas. Era a mais nova. Os cabelos presos para trás numa longa trança de lisos fios pretos, que a faziam parecer, de frente, próxima da avó, e, de costas, da irmã. O penteado caía com graça em cima de um vestido leve mas comportado de flores rosa num fundo amarelo, bastante veranil. Aquele corpo gordinho talvez não ficasse bem com rendas - como diz a moda. Os olhinhos redondos e curiosos apontavam para talvez uns 8 anos. Da irmã é difícil dizer, porque estavam guardados por um grande óculos escuros, numa aparência rebelde.


As três idades da mulher, Gustav Klimt

07 novembro 2014

avenida paulista

Pessoas tomando café em copos, de pé, enquanto escutam rádio, vêem tevê e conversam. Prédios antigos enormes do lado de gigantes envidraçados. Mendigos lêem jornal. As cores que predominam são o cinza e o descascado. as pessoas todas andam muito, todas, pra todos os lados. As pessoas todas dão informações, cordialmente. Muitos nordestinos constroem coisas. Tudo se vende, a muitos preços. Inclusive, a módicos 4 e cinquenta, um gostoso mousse de chá verde na Liberdade.

Não existe horizonte em SP.

04 novembro 2014

dorine,



"... um amor que é o fascínio recíproco de duas pessoas por aquilo que elas têm de menos dizível, de menos socializável.”

Esse é um trecho de Carta a D., de André Gorz, o livro que mais gostei nos últimos tempos.

Escrito em 2006, a longa carta/pequeno livro de poucas 60 páginas é um relato, resumo, retrospectiva da vida a dois de André e Dorine. Quando terminei o livro, dentro do avião, comecei a chorar e graças a deus as luzes acenderam para a hora do lanche e pude voltar à consciência.

Tive alguma dúvida na hora de escolhê-lo na livraria. Não conhecia o autor - e, convenhamos, uma carta de amor talvez seja a melhor maneira de conhecer qualquer escritor. Então, me convenci fortemente com as primeiras linhas:

"Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros , não pesa mais que quarenta quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do me peito um vazio devorador que somente o calor dos eu corpo contra o meu é capaz de preencher."

André Gorz é um filósofo e cientista político que fez parte do cenário pós-existencialista francês e deu caldo para as críticas de Maio de 68 e as abordagens sociais progressistas posteriores, como a ecologia. Dá para conhecer um pouco mais do seu trabalho intelectual neste artigo: Por uma sociedade do tempo liberado.

13 outubro 2014

ciência, substantivo feminino

Atingir o topo da carreira científica no Brasil significa ostentar o posto de pesquisador nível 1A do CNPq. Dos cerca de 180 pesquisadores mais bem cotados da UFRGS, somente 19 são mulheres.

Cuidando para não cair numa polarização exagerada, é preciso lembrar que o feminino desempenha papéis que os homens não desempenham. Sendo as pesquisadoras mulheres a minoria do cenário das descobertas científicas, elas precisam também neste ambiente provar sua equanimidade de capacidades? As instituições apoiam o ciclo de vida de mulheres ou ainda atender e premiam somente as lógicas de vida do masculino? Paras as mulheres-mães, como criar os filhos numa carreira tão absorvente como a da docência e da pesquisa? Porque a progressão profissional nas universidades não contempla o afastamento para gravidez e amamentação? Você sabe se bolsistas de pós-graduação têm direito a licença maternidade? Ainda: um número menor de mulheres significa a retirada do feminino nessas relações de pesquisa? Está em falta a ternura, virtude tão desencorajada aos homens e nos centros de pesquisa, masculinizados biológica e afetuosamente?

Vamos para outras perguntas, passa ou repassa: diga rápido uma renomada cientista mulher brasileira. Diga agora, homens. Lembrem das leituras na faculdade, quantas mulheres embasam sua pesquisa teórica? Agora pensem, homens. Se as mulheres hoje estão em maior número nas universidades, talvez demore para esse processo afirmativo se refletir nos cargos superiores e nas referências de pensamento.

Para quem entende literalmente o feminino e o masculino, é fácil cair no pensamento a respeito de diferenças genéticas. Um pode isso, outro pode aquilo. A respeito disso, o maravilhoso astrofísico Neil Tyson tem uma boa resposta: "Numa sociedade dominada por homens brancos, é muito difícil você estar fora das expectativas a respeito do que você deve ser. Caso você seja uma mulher ou um negro. Antes de começarmos a falar de diferenças genéticas, precisamos criar um sistema de oportunidades iguais".



Para saber mais, o livro Women Scientists in the Americas publicou depoimentos de pesquisadoras sobre o tema.

Por isso, convido para o lançamento de um projeto fotográfico que encontrou as poucas cientistas brasileiras, na mãe UFRGS, que absorveram e superaram os desafios em cada esquina!

Abertura da exposição Ciência, substantivo feminino
Fotos da minha orientadora, mulher, cientista, Ana Taís Portanova
quarta 15 outubro, 18h
Saguão da Reitoria da UFRGS
Campus Central - Porto Alegre

08 outubro 2014

pela vida das mulheres

Compartilho aqui a fala maravilhosa deste domingo no Ato pela descriminalização do aborto e legalização da interrupção voluntária da gravidez. Foi uma fala de fazer chorar. Obrigada, meninas.



Agosto de 2014, Rio de Janeiro.
Jandira Magdalena dos Santos Cruz, 27 anos, duas filhas.
Pagou R$4500,00 para interromper uma gravidez indesejada. Pagou mais do que isso: pagou com sua vida. Morta, teve seus dentes, braços e pernas arrancados. Seu corpo foi encontrado queimado e jogado em um carro abandonado.

Setembro de 2014, Niterói
Elisângela Barbosa, 32 anos, 3 filhos.

Pagou R$2800,00 por uma condenação à morte. Ela também queria interromper uma gravidez indesejada. Com um tubo de plástico no útero, seu corpo foi abandonado em um hospital público. Teve seu útero e intestino perfurados.
Nascer no Brasil condenou essas mulheres à morte. Estariam vivas se tivessem nascido a menos de 500km de Porto Alegre, no Uruguai.

No dia 17 de outubro de 2012, o senado uruguaio aprovou a descriminalização do aborto e nenhuma mulher que realizou aborto legal morreu até então. O único erro de Jandira, Elisângela e de uma mulher que morre a cada dois dias no Brasil, foi ter nascido aqui. Neste país que criminaliza as mulheres que desejam interromper a gravidez.
O debate sobre aborto não é novidade, pois foi realizado exaustivamente ao redor do mundo. Uma parte do mundo escolheu por salvar as mulheres e outra parte, como o Brasil, escolheu condená-las à morte.
“Com uma legislação medieval e miserável, condenamos as mulheres a se submeterem a um procedimento do qual não sabem se sairão vivas. O que eu to dizendo pra vocês é que são mulheres que desejam com tanta força não estarem grávidas que estão decididas a morrer se for necessário.”

Quantas mulheres mais nós vamos permitir que sejam mortas? Quantas crianças agora sem mãe, quantos pais sem suas filhas, famílias sem irmãs, companheiras, quantas amigas mortas?

Eu quero fazer um pedido a vocês: olhem ao redor! De cada 5 mulheres que vocês estão vendo agora, uma já fez o aborto. Eu vou repetir: de cada 5 mulheres que vocês estão vendo agora, uma já fez o aborto.
Ao contrário do que se acredita, as pesquisas mostram que essas mulheres são de todas as classes sociais, e a maior parte está acima dos 25 anos, 81% já tem filhos, 64% são casadas e 91% são religiosas (católicas, evangélicas e protestantes).

A vida dessas mulheres não vale nada? Elas merecem ser presas? Elas deveriam estar mortas? A vida das nossas mulheres vale menos que a vida das uruguaias, italianas, canadenses, sul africanas, inglesas...? Por que no Brasil elas são condenadas ao corredor da morte?

Hoje é 28 de setembro. Dia latino-americano e caribenho da luta pela descriminalização e legalização do aborto. Nós estamos a uma semana das eleições, há meses sendo inundados por propostas, debates e promessas. Mas sobre o aborto pouco é dito.

Fica cada vez mais claro que essa questão não é abordada com a seriedade devida. Esse assunto que é tão caro a todas nós mulheres é mantido como um tabu, por pragmatismo, dogmatismo ou mera covardia. E assim continuamos jogando as mulheres para a clandestinidade e as condenando à morte e ao julgamento público.
É por esse motivo que nós saímos às ruas hoje. Para lutar pelas nossas vidas e pelo nosso direito de fazer escolhas sobre o nosso próprio corpo.

Esse ato visa trazer o debate a público e dizer que não vamos mais aceitar o silêncio. Não pedimos 1 minuto de silêncio por todas essas mortes. Queremos dias e noites de luta para garantir que outras vidas não sejam perdidas.
Pela legalização e pela descriminalização do aborto. Por um Brasil que também seja das mulheres!
LEGALIZE!
O CORPO É NOSSO!
É NOSSA ESCOLHA!
É PELA VIDA DAS MULHERES!

24 setembro 2014

legalizar a vida

Na noite de ontem (23/09), o Jornal Nacional exibiu suíte da matéria a respeito da última morte registrada no RJ por consequência de aborto em clínica despreparada. A funcionária da clínica despreparada será indiciada, e o "falso médico" está foragido, por crime de aborto - sem aspas, é isso mesmo que é. O preço, segundo o valor que ela portava na bolsa, 2 mil e 800 reais. a gravidez tinha 5 meses, ela tinha três filhos.

Morre segunda vítima de aborto em menos de um mês no Rio 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a cada dois dias no Brasil uma mulher morre por consequência de aborto inseguro. O que significa "aborto inseguro"? Aborto de pobre. Aborto feito em clínicas com péssimas condições, aborto barato, aborto feito por mulheres que preferem pagar para se submeter a esse risco tremendo do que viver sem conseguir sustentar um filho, ou por consequência de um estupro, ou por vontade do marido mesmo.

Cartilha "Abortamento seguro: Orientação técnica e de políticas para sistemas de saúde" da OMS

Aborto clandestino? É todo o tipo de aborto feito até agora no Brasil: aborto é crime. Mesmo os abortos feitos por mulheres ricas. Sim, elas também ficam grávidas sem intenção. Sim, elas também abortam. abortam em clínicas bem seguras, com procedimentos muito bem pagos, por profissionais muito bem requisitados na sua cidade. médicos de universidades, médicos de grandes hospitais, médicos de clínicas caríssimas.

Segundo a Pesquisa Nacional de Aborto, uma em cada 7 brasileiras jovens já escolheram se submeter o procedimento Até os 40 anos de idade, uma em cada 5 mulheres do país vai fazer um aborto. Esses são, obviamente, números mínimos, pois muitas mulheres, por razões óbvias, não relataram sua escolha.

Você sabe quanto custa um aborto em clínica médica na sua cidade? Você sabe quantas pessoas ao seu redor já escolheram interromper uma gravidez - por inúmeros motivos? Você já parou para pensar que não existe outra opção para as mulheres que optam por manter a gravidez e não têm como manter os filhos?

Por essas e muitas, muitas outras coisas, convido para o ato deste domingo, 28/09, no Parque da Redenção em Porto Alegre. Ato pela descriminalização do aborto e legalização da interrupção voluntária da gravidez. A partir das 14h haverá aula pública sobre o tema, onde podemos discutir possibilidades.

Defender a legalização do aborto significar defender a regulamentação de procedimentos por clínicas seguras, legalizadas. acompanhamento médico para as pacientes.

Divulgue, convide os amigos. Não deixe a lei matar pessoas.


22 setembro 2014

o céu dos justos

Este projeto maravilhoso: Conversa Suja, da jornalista Anna Virginia Balloussier e do fotógrafo Gabriel Cabral é fotógrafo. 69 histórias sobre sexualidade, lato sensu.




Márcia Pantera foi para o “Inferno”.

Exibido na Bienal, essa videoarte simula a destruição do Templo de Salomão “made in Brás” da Igreja Universal. É o primeiro tapa de Pantera como atriz. Pôs os cílios postiços de sempre, mas abdicou da costumeira peruca loira para interpretar um líder religioso que lembra o papa católico e lidera uma igreja similar à do evangélico Edir Macedo.

A drag queen Márcia Pantera, de dia, é o vendedor Carlos Márcio. Cinco vezes por semana, ele pilota sua scooter Cyticom 300i branca de Brasilândia até Santana, onde trabalha numa loja “arraso” de sapatos, bolsas e acessórios.

A porção felina é um “arraso” que começou em 1989. Márcio assistiu à travesti Marcinha, “uma negra liiiiiinda de cabelo até a cintura”, brilhar muito na Corintho, famosa boate gay em São Paulo e decidiu também se montar.

Pediu “licença poética” para adotar o sobrenome de Marcos Pantera, irmão de Monique Evans. Como Márcia Pantera, virou ícone da noite paulistana e musa do estilista Alexandre Herchcovitch –que conheceu na porta da Nostro Mondo, lendária casa na rua da Consolação onde Adriane Galisteu já foi confundida com uma drag queen.

Márcio descobriu ser gay lá pelos 10 anos, após beijar uma namoradinha. Achou que ela “babava muito”. E foi só. Já os meninos da classe, esses sim lhe davam água na boca.

Aos 17 anos, escreveu no diário os sonhos eróticos que tinha com seu professor de natação, “um loiro alto de olhos azuis”. Hoje ri dos amigos que se dizem ex-gays “curados” pelo pastor. “Como, se passa um homem sem camisa e o cara olha?”

Nada contra igrejas. Ele vai em várias. “Por trás da drag existe o Márcio, que é religioso ou o que quer que seja.” Frequenta cultos evangélicos, dá uma passadinha em terreiros de macumba e foi crismado na Igreja Católica, com “toda aquela palhaçada de quando a gente coloca a roupinha de menininho branco”.

Perto de sua casa tem dois templos evangélicos que aceitam a vida como ela é: colorida que nem sua cartela de maquiagem. Bem diferente da Universal, que trava uma “guerra pelo seu corpo”, diz.

Na casa do bispo Edir, diz, “tentam fazer lavagem cerebral pra você se tornar um homem, seguir uma regrinha, ter mulher, filho. Mas homem eu já sou”.

E este homem que fala grosso sob o salto fino tem uma certeza: Márcia Pantera vai para o céu.

08 setembro 2014

mar de peixes mortos

Fui a Foz do Iguaçu e vi mamãe Oxum na cachoeira. Naquela quarta-feira, parecia que as Cataratas seriam a maior coisa que eu já teria visto na vida.

Aí fui conhecer a Usina Hidrelética Binacional de Itaipu. Para quem perguntou sobre o tamanho: é enorme. Tanto que a gente perde a noção de perspectiva. Dizem que só o vertedouro (água excedente do fluxo principal que gira as turbinas) é 40 vezes a vazão média das Cataratas do Iguaçu.

Nas fotos, o "mar" artificial que o rio Paraná se tornou, do outro lado, a cratera que transforma energia cinética em elétrica. Diante do tamanho dessas coisas não tem como não pensar: imagina toda essa inteligência do homem servindo pra outras coisas.





10 julho 2014

novo cinema tcheco no brasil

Durante março, abril, maio e junho, alguns queridos e raros filmes thecos percorreram território brasileiro. A mostra de cinema Nouvelle Vague Tcheca: O outro lado da europa, patrocinada pelo Centro Cultural Banco do Brasil, esteve em caravana no CCBB e São Paulo e do Rio e na Sala P.F.Gastal em Porto Alegre.

A mostra, com curadoria de Gabriela Wondracek Linck, trouxe em película filmes decisivos na história da cinematografia do leste europeu. Como esta sequência de pérolas é um tanto obscura, Leonardo Bomfim organizou um catálogo com vários textos que contextualizam e dimensionam o valor dessas produções. O catálogo na íntegra está disponível no site da Vai e Vem, produtora do evento (link) - aproveitem para dar uma olhada em outros livrinhos de cinema bastante preciosos.

Participei da coletânea com um pequeno ensaio sobre Věra Chytilová, um dos nomes mais famosos dessa geração.



Věra Chytilová

Existem algumas coisas que precisam ser ditas desde o início sobre Věra Chytilová (1929). Věra foi a primeira diretora de cinema mulher de seu país reconhecida internacionalmente. Věra é a única diretora mulher da Czech New Wave. Além disso, é de Věra o mais famoso filme dessa geração. Věra é a Eva do cinema tcheco.

Os filmes de Věra Chytilová presentes na Mostra Nouvelle Vague Tcheca: O outro lado da Europa revelam a maturidade juvenil da cineasta. Em O něčem jiném (Alguma coisa de outro 1963), Sedmikrásky (As Pequenas Margaridas, 1966) e Ovoce stromů rajských jíme (Fruto do Paraíso, 1969), o universo idílico em campos verdes e floridos emolduram histórias que remetem ao poder da mulher, à fragilidade dos corpos e à profundidade das emoções. Věra, na época dos filmes exibidos vivendo a terceira década de sua vida, utilizava com sabedoria ácida elementos de sua juventude. A diretora passou a infância na Morávia, parte sul e menos urbanizada da atual República Tcheca. A paisagem campestre foi atravessada pelos revezes de um pai quase alcoólatra e de uma educação rígida num colégio de freiras.

Věra passou pela filosofia, moda, arquitetura e fotografia antes de chegar ao cinema. Começou a cursar FAMU, Escola de Cinema de Praga, somente aos 28 anos, onde conheceu seu marido e parceiro de trabalho, o fotógrafo Jaroslav Kučera.

Comumente descrita como uma cineasta feminista, este alcunha não é intencional muito menos imotivada. A diretora não se preocupa em defender o lugar da mulher ou questionar seu espaço da sociedade, ela simplesmente os assume como dados. Desagradando tanto moralistas quanto feministas da academia, Věra parece não estar preocupada em levantar nenhuma bandeira além da liberdade das mentes e dos corpos. Uma das frases mais conhecidas da diretora é a que define sua relação com a plateia: "eu não tenho nenhum desejo de mimar o público".

Věra é a Agnès Varda da Tchecoslováquia portando o relho de Margaret Thatcher. Não é incomum que ela responda sem piedade entrevistas de jornalistas inocentes demais. A falta de docilidade por parte da primeira-dama do cinema tcheco talvez seja efeito do esforço que a diretora fez para cavar um espaço de ação no contexto nada incentivador do leste europeu pré e pós invasão soviética.

Usando a virtude mais poderosa do que poderia ser descrito como o feminino, a da comunhão e transformação dos opostos, para a alquímica Věra, a cultura patriarcal não é uma inimiga de guerra, mas um combustível para que se animem e se liberem os corpos femininos. Como em Fruto do Paraíso, em que Eva dá uma reviravolta na convencional versão da história sobre a expulsão do Éden.

As heroínas de As Pequenas Margaridas são duas meninas estragadas cujos hábitos podem “envenenar os trabalhadores” incentivando o desperdício de comida e a devassidão, conforme observou o relatório da censura tchecoslovaca que baniu o filme do país em 1966. As margaridas podem e devem ter o direito de ocupar o mundo e configurar suas identidades através da ação prazerosa – e por isso, para a Věra, sobretudo política – se dar ao luxo do desperdício por lazer: gula e luxúria.

No entanto, se pouco esforçado em agradar a sociedade, o experimentalismo de Věra agradou desde cedo à crítica. As personagens femininas em paralelo, Eva e Jirka, garantiram ao primeiro longa da diretora, o elegante preto-e-branco Alguma coisa de outro, que vencesse o Mannhein Film Festival, onde foi realizada sua première. O sucesso posterior foi confirmado com o explosivamente colorido e radicalmente montado As Pequenas Margaridas, que venceu em 1966 o Festival de Bergamo, na Itália. Em 1967, o filme foi banido da Tchecoslováquia e o trabalho de Věra no cinema inviabilizado pelo governo. Ela ficou impedida de filmar nos estúdios de Praga e, escolhendo permanecer no país à revelia de um convite para viajar aos Estados Unidos, trabalhou em projetos em publicidade ao lado de Kučera.

Věra continua ativa e sem deixar muitos poréns moralistas atrapalhando seu caminho. No ano de 2000, aos 71, foi apreendida na Alemanha por filmar para um de seus últimos longas uma cena em que a própria neta aparece nua. Filmar menores nus configura pedofilia. Ela arranjou outra praia menos conhecida onde a polícia alemã não se lembrasse de colocar as leis em prática. Em fevereiro de 2012 um mal súbito surpreendeu a diretora que, passando dos 83 anos, respondeu aos jornais tchecos: "Mas eu não quero parar agora, neste mundo ainda tem muito coisa a ser feita".

23 junho 2014

noite gringa


Foto: Coletivo Projetação

A Zero Hora publicou na última sexta-feira, 20, dois textos de opinião sobre as badalações que estão tomando conta das ruas de Porto Alegre durante a Copa do Mundo. Os textos são, como devem ser bons textos de opinião jornalísticos, bastante gostosos de ler e se utilizam às pampas da ironia como eufemismo para pontos de vista bastante situados. Embora sejam dois, a visão feminina e a visão masculina sobre a noite de Porto Alegre tomada por estrangeiros, as opiniões não são muito diversas.

Os dois textos circularam bastante pelas redes sociais e são de importante leitura para situarmo-nos na questão e nas diversas opiniões sobre a situação. Resumindo-os rapidamente, poderíamos dizer que nos informam sobre:

  • a diferença demográfica entre homens e mulheres na capital, e a possível escassez masculina gerada pela falta de quase 10% na camada;
  • a liberdade que as mulheres têm, assim como os homens, de usar seu próprio corpo para benefício e satisfação próprios;
  • a grande afronta que está sendo para a decente sociedade familiar e machista gaúcha de ver mulheres "se dando bem" na noite;
  • o rancor dos homens gaúchos que esperam, avidamente, o fim da Copa e a consequente extradição dos gringos pegadores.

Agora, vamos adicionar a estes argumentos outras possibilidades de questionamento:

Embora o IBGE confirme a diferença, nem todas as mulheres e os homens gaúchos são heterossexuais, dessa maneira, perturbando um pouco a justiça numérica do argumento. Quantos dos estrangeiros que vieram a Porto Alegre são gays? E como está a noite deles também? Como está a cidade em relação a isso, pois é sabido que, por exemplo, na Cidade Baixa, alguns pontos de encontro de jovens gays foram "higienizados" e existem bares homofóbicos? Aliás, como está o futebol em relação à homofobia? Esses são assuntos que perturbam, também, os mesmos ambientes invadidos pela noite gringa. Dado que (1) a Copa das Copas apela para o slogan "Contra todo o tipo de preconceito" e que, no mesmo embalo, (2) recentemente a ONU veio a público pedir para que os jogadores gays se assumissem durante os jogos, acredito que este dado poderia gerado no mínimo uma frase no texto!

Agora, deixando isso de lado e focando num recorte específico heterossexual na capital gaúcha, vamos lembrar que: estamos falando de sexo e precisamos então assumir este assunto sem rubores ou eufemismo disfarçantes. Porto Alegre é a capital brasileira em número de incidências do vírus HIV e o tema tem sido abafado não somente nos comentários jornalísticos (que mais parecem de relações públicas), como também nos oficinais - que também estão procurando abafar uma séria de problemas sociais. Coincidência ou não, justo no período da Copa e nos entornos mais movimentados durante os jogos, foram apagadas as borboletas da Vida Urgente nas ruas e avenidas onde pessoas morreram em decorrência de acidentes e retiradas as bicicletas fantasma colocadas pela Massa Crítica em homenagem a ciclistas mortos no trânsito.

"Os estrangeiros são melhores". Esta é a enunciação veiculada por trás da defesa inveterada e inconsequente do jargão "as mulheres têm direito de namorarem quem quiser". É óbvio que nós temos todo o direito, pois que a Copa, que tanto nos tirou, seja também um tempo de dar. Para todo mundo que quisermos, com todo mundo que quisermos. - como muito bem pontuou o texto do G8-Generalizando, grupo de direitos sexuais e de gênero em Porto Alegre. Mas este não é um tema de tão fácil resolução.

Temos sim, diariamente, de enfrentar um machismo vigente, institucionalizado. No entanto, não podemos desprezar um problema em favor de outro. É sabido que nosso país inteiro está adaptado às exigências da FIFA para criar um padrão primeiro-mundo que é temporário. É aquela primeira lógica que está por trás, também, do esquema direciona milhares de policiais à capital para barrar caminhadas brasileiras anti-Copa e, ao mesmo tempo, trancar o trânsito para o desfile de milhares de australianos e holandeses. Ou ainda, que faz o policiamento parar na esquina onde acabam os hoteis, permitindo que a cidade continue em seu padrão brasileiro terceiro-mundo na rua ao lado. Não adianta deixar a Copa passar e voltar ao normal como era antes, homens. Vamos deixar ainda mais claro: o problema é ainda o machismo, mas a questão está ainda mais revestida dele, porque a "mulher livre" nesse argumento libertador ainda é a mesma mulher que (1) vive à procura do melhor homem e (2) este homem é estrangeiro.

Chegamos agora ao ponto, para mim, crucial: a perpetuação da imagem da mulher brasileira como atrativo sexual. Quem circulou pela Cidade Baixa durante os dias de Copa deve ter recebido alguns panfletos para casas de massagem de luxo especialmente para a Copa. Precisamos parar de aliar a ideia de liberdade feminina com uma permissividade inconsequente e acrítica. Nosso problema é interno, nacional, é outro.

Sobre jornalismo

Adicionalmente, é preciso dizer que jornalismo opinativo ainda é jornalismo. É sempre válido um texto que nos aproxima da questão - nos afete com o problema -, um texto mais adjetivo, contextualizador - que nos afeiçoe ao problema - e por isso convide à ação, mais do que um texto burocraticamente informativo. No entanto, embora sejam "somente artigos de opinião" e "não devam ser levados tão a sério", devo pontuar que prezo por um jornalismo de valores, que ainda se propõe a comentar e debater assuntos seriamente. Jornalismo que deve engrandecer os debates sociais com informações, opiniões articuladas e plurais. E não, como tem sido feito, com esforços esvaziados para simplesmente "rir com o público", proporcionando entretenimento e não informação e, ainda pior, esvaziando o próprio diferencial do jornalismo frente a outras ações de comunicação, de tensionar questões outras das que já ouvimos na rua, no bar, na fila do supermercado.

Um jornalista pode ser crítico e útil, bem-humorado e responsável ao mesmo tempo. Pensei que pelo menos para os defensores do diploma, a formação em Jornalismo servisse para alguma coisa.

04 junho 2014

manifesto contra o amor neoliberal

A segunda edição do zine MÚSCULO está em gestação. Enquanto isso, aproveito para divulgar o nosso manifesto, que recebeu bastante atenção desde o seu lançamento, em janeiro. Dúvidas no guichê "Comentários".

O primeiro zine, na íntegra, no site musculozine.hotglue.me

29 maio 2014

30 mil anos depois



Na sessão desta quarta 28/05, o Cine Político exibiu o filme Vlado, 30 anos depois (2005). A exibição faz parte de um ciclo de cinema e discussão promovido pelo grupo de estudos da FAMECOS sobre os 50 anos do golpe militar no Brasil. Na Sala P. F. Gastal, a discussão sobre os anos de chumbo foi guiada por Ayrton Centeno, que recentemente publicou o livro que conta a história do Coojornal, Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, o maior nome da imprensa contra-hegemônica do sul do país nos 1970.

Dentre outras histórias muito bem escavadas por um grande investigador, comentou a respeito do errôneo nome "golpe militar", dado que a tomada de poder orquestrada em 1964 não contou somente com resistência de parte específica do oficialato brasileiro mas também obteve, por trás das fardas e boinas, grande articulação da iniciativa privada brasileira e norte-americana, e sua fiel escudeira, a imprensa hegemônica.

Para entender o período negro do Brasil, Ayrton lembrou do episódio de 1961, quando da Campanha da Legalidade no Rio Grande do Sul, pela permanência do vice Jango. Neste período, em que iniciou-se a orquestração que veio a se transformar posteriormente no golpe militar, um episódio pouco conhecido aconteceu na Base Aérea de Canoas, zona metropolitana de Porto Alegre. Militares legalistas se negaram a seguir a ordem de bombardear o centro da capital e o Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, de onde o governador à época, Leonel Brizola, apoiava a permanência de João Goulart. Na resistência estava o coronel-aviador Alfeu de Alcântara Monteiro. No 5º QG ainda conta-se a respeito do dia em que soldados deitaram-se na pista, às dezenas, para impedir a decolagem. Ele foi, mais tarde, em 1964, assassinato por 16 tiros, de costas, na mesma Base Aérea que coordenava.

Este golpe não foi somente e/ou de maneira coesa militar. Ainda, enfrentou resistência também durante sua década final, onde encontra lugar o caso do assassinato de Vlado e da tortura de tantos outros jornalistas críticos brasileiros. Mesmo durante a tentativa de abertura do governo ("lenta e gradual"), acordada a partir dos anos 1970, o instrumento de repressão militar, o DOI-CODI, decidiu continuar dando cabo dos críticos ao governo. Neste período, a tortura já havia assassinato e, portanto, desarticulado, quase todos os levantes da luta armada. A caça agora dirigia-se aos críticos, saber, quaisquer pessoas que não se alinhassem à abordagem militar. Entre eles estavam jornalistas com forte inspiração ética, tal como Vladimir Herzog.

Posto que estávamos sob forte influência norte-americana e capitalista, temendo a virada política de cunho socialista, num mundo dividido ao meio pela Guerra Fria de influências, talvez resulte daí certa herança maniqueísta - e esquizofrênica - da política nacional. É um pouco do que nos faz pensar o filme de João Batista de Andrade sobre o assassinato de Vlado, 30 anos depois. Resta só saber se para a nossa política já passaram tantos anos assim.



Um pouco mais sobre esta história de Alfeu de Alcântara Monteiro está disponível nos links dos Desaparecidos Políticos e da Carta Maior.

Mais sobre João Batista de Andrade no site oficial do cineasta.

11 fevereiro 2014

santiagos, black blocs e jornalismo


Homenagem feita por cinegrafistas em frente à igreja da Candelária

Morreu nesta segunda-feira Santiago Ilídio Andrade. O cinegrafista da BAND sofreu afundamento craniano e teve morte cerebral depois de ser atingido por um rojão lançado na última quinta (06/02) durante protesto contra o aumento da passagem de ônibus, perto da Central do Brasil no Rio de Janeiro.

Nenhuma morte deve ser menosprezada e não é fácil fazer jornalismo neste contexto. No entanto, cabe a nós, jornalistas observadores da imprensa, apontar alguns dados que precisam ser relembrados num momento em que a grande mídia explora cansativamente o caso.

Este não foi o primeiro caso de morte em protestos, desde o início da onda de manifestações, em março do ano passado. Muitos já morreram, como bem lembrou Eduardo Sterzi:

Antes morreram, pelo menos:

1. a gari Cleonice Vieira de Moraes, em Belém (PA), vítima do gás lacrimogêneo lançado pela polícia militar;

2. 13 mortos na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré (RJ) - neste caso, a imprensa sequer se deu ao trabalho de informar todos os nomes;

3. o estudante Marcos Delefrate, de 18 anos, em Ribeirão Preto (SP), atropelado por um carro que furou um bloqueio de manifestantes;

4. Valdinete Rodrigues Pereira e Maria Aparecida, atropeladas em protesto na BR-251, no distrito de Campos Lindos, em Cristalina (GO);

5. Douglas Henrique de Oliveira, de 21 anos, que caiu do viaduto José Alencar, em Belo Horizonte (MG), por ter sido acuado pela polícia militar. Luiz Felipe Aniceto, que saiu do mesmo viaduto, ficou um mês em coma e também acabou morrendo. No mesmo dia, depois de um toque de recolher ilegal, o morador de rua Luiz Estrela foi espancado até a morte.

6. o marceneiro Igor Oliveira da Silva, de 16 anos, atropelado por um caminhão que fugia de uma manifestação, numa ciclovia próxima à Rodovia Cônego Domênico Rangoni, na altura de Guarujá (SP);

7. Paulo Patrick, de 14 anos, atropelado por um táxi durante manifestação em Teresina (PI);

8. Fernando da Silva Cândido, ator, por inalação de gás lançado pela polícia, no Rio de Janeiro.

9. o senhor que foi atropelado por um ônibus, ao tentar fugir da polícia, na mesma manifestação em que o cinegrafista Santiago foi atingido - sobre esta outra vítima, nenhuma linha na imprensa. Chamava-se Tasman Amaral Accioly e era vendedor ambulante.

As imagens também mostram outro fato bastante interessante: o cinegrafista não usava nenhum equipamento de proteção individual - não obrigatório mas altamente recomendado para repórteres que cobrem conflitos. A TV Bandeirantes teria não fornecido? É o que o quer saber o MPT.

Fábio Raposo foi se apresentar à Polícia, segundo ele, pela divulgação de sua imagem chegando inclusive na mídia internacional. Quantos policiais não se importaram com a divulgação do número de mortos em conflitos (como os acima), visto que muito raramente seus rostos são registrado e veiculados pela grande imprensa?

"Black Bloc mata cinegrafista"

Os canais da Band e da Globo - e todos os que copiam os textos dessas duas mídias no Brasil - não se cansam de chamar os possíveis responsáveis* pelo acidente** de manifestantes do Black Bloc. "Possíveis responsáveis": o jornalista não pode presumir culpabilidade do suspeito. Preocupação que muitas vezes, como agora, não é tomada por parte de matérias feitas rápida e irresponsavelmente. "Acidente": é de se imaginar que os "acendedores do rojão" não miraram na vítima. O rojão não tinha um alvo. Este tipo de crime seria, portanto, culposo (negligência, imperícia) e não doloso (intenção, vontade).

Ir às ruas com o rosto coberto não é o suficiente para parte do "grupo" Black Boc. A tática geralmente é organizada, com objetivos bem definidos e participantes bem reconhecíveis, eles se vestem totalmente de preto (por isso, black bloc). Bloc é um "bloco", em inglês.

Agora vamos lá: Black Bloc? Vamos aqui fazer um breve esclarecimento sobre o que seria o tal grupo. (Estas explicações talvez sejam necessárias somente como mais uma das consequências de enviar jornalistas despreparados para produzir matérias sobre assuntos que não entendem. Não há jornalista o bastante para tantas pautas, pesquisa e apuração o bastante para pouco tempo, boa-vontade das empresas o bastante para primar por um conteúdo de qualidade. Também, num país com monopólio de imprensa, quem iria se preocupar com qualidade?)

FAQ Black Bloc

Algumas dúvidas frequentes respondidas por rápida pesquisa sobre o assunto:

Quem, quando, onde? O Black Bloc não é um grupo. O Black Bloc é uma tática de protesto que surgiu na Europa nos anos 1980. Esta é uma ação conduzida por grupos anarquistas – o que não significa bagunceiros.

O que? O anarquismo é uma visão política embasada em alguns pilares essenciais, tais como a discordância com o monopólio da autoridade política e da propriedade privada e a defesa da liberdade individual e da sociedade baseada no apoio mútuo (algo como a junção do "melhor do comunismo e do liberalismo", como apontou Cindy Milstein em seu livro).

Como, por quê? A intenção do Black Bloc é, resumidamente, demonstrar aos governos a "força popular". Por isso os ataques (sempre intencionalmente alvos materiais e não sujeitos) são contra estruturas de grandes corporações (indústrias, bancos). Eles organizam ações e dispersão organizada posteriormente. É como se fosse, ainda mais resumidamente, um grupo paramilitar de livre adesão que é contra o militarismo e suas técnicas de coerção psicológica e uso de violência contra sujeitos.

Não vou entrar no mérito se a conformação desta técnica é uma consequência de ideias de esquerda com posicionamentos de direita (como citou Alberto Dines), pois isso é trabalho para sociólogos e cientistas políticos e este é só um breve comentário em primeira pessoa de uma jornalista.