14 agosto 2015

desintoxicação indexical

Querido diário,

Parei para pensar outro dia que a nossa geração (conceito problemático, mas do qual gosto de me valer às vezes para simplificar as coisas) tem um problema de índex.

Problema: Pare para imaginar como seus pais faziam para telefonar para os amigos. Eles tinham o número gravado na memória. O que eles faziam para descobrir um telefone se não lembrassem? Buscavam na agenda telefônica, breviamente anotada, à mão, em seções nas letras A, B, C. Quando lembravam de um trecho de uma história? Corriam aos livros na prateleira! Um pedaço de música? Cantarolava e lembravam juntos.

(Aqui cabe um pequeno parênteses. A senhora Indalécia, mais conhecia como minha avó, decorava a letra inteiras das músicas na década de 1950, quando as ouvia pela primeira vez no rádio. Por quê? Para que, se gostasse, pudesse pedi-las depois.)

O que nós fazemos quando queremos falar para alguém? Ícones, botões, infinite scrolling, agenda telefônica que salva em ordem os números mais ligados (sem falar nos chats, onde precisamos só saber o nome das pessoas). Tags, hashtags, marcadores, feeds, grupos, listas, fóruns, likes, recomendações, sharing, oversharing. Paramos de ter um pensamento indexical, que consegue organizar informações na memória de maneira organizada. Não é difícil se deparar com pessoas da nossa geração que têm a impressão de já ter visto isso antes, só não fazem ideia de onde.

É excesso de timeline, tumblr, feed, mailing, customização do profile virtual. Tudo do jeitinho que a gente quer, a qualquer momento disponível. Tá tudo tão aí, acessível, que de repente nada tem mais graça. De repente, me senti burra.

Considerações prévias: deletei metade das minhas contas em sites. Saí de grupos em facebook. Saí de mailings. Parei de dar likes, de clicar em coraçõezinhos no Instagram. Deletei meus feeds. A ideia é: desintoxicar. Salvei numa pastinha de favoritos os meus, de verdade, links favoritos. Eu sei que isso ainda é uma maneira de indexicar os locais para os quais eu quero voltar, mas pelo menos é um tecnologia mais branda.

O resultado conto aqui mais tarde.

as meninas de Huambo

Lá na Angola, Ruy Mingas canta a letra de Manuel Rui. Lá em Angola, o pai do poeta sonhava com um além-mar bonito, e abriu a Livraria Brasileira no estado de Huambo. A livraria faliu. Lá na Angola, litoral africano, país da famosa Luanda, a independência só veio em 75. Em 1975.

Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade...
Porque meninos inventaram coisas novas
Que até já dizem que as estrelas são do povo

Manuel disse que "a realidade é sempre mais de sonho do que o imaginário".
Permanece desconhecida nossa matéria-prima, máter-continente. Alguns nos ajudam a conhecê-la um pouquinho melhor.

Conheci essa música com o disco Flor Bailarina, que retoma as principais músicas da Angola. Obrigada, Jussara Silveira.

Conheci esse poeta com o livro Sonha Mamana África, do qual tantas vezes já falei aqui, sobre a literatura da África lusófona. Aprendi isso e tantas outras com ela. Obrigada, Cremilda Medina.

11 agosto 2015

nunca é o bastante



É, hoje, a quantidade de informação produzida num nano-segundo é maior do que todo conteúdo já feito no universo desde que o mundo é mundo (ou algum dado assim). Mas sabe o que cresce mais rápido do que o volume de dados digitais? A nossa carência. [...] A tendência é que nosso próximo passo seja uma ruptura total, uma desconexão inclusive digital. Afinal, o excesso leva à abstinência.

Leia o texto de Vinícus França, originalmente publicado no Medium.

08 agosto 2015

eupai



essa foto, apesar de ser de mim, é uma foto do meu pai

eu não sei quem tirou, se foi ele ou minha mãe
eu não sei porque eu quis posar com o violão do meu pai
mas sempre quando vejo essa foto minha aos 7 anos de idade
eu acho que estou vendo meu pai

meu pai era para mim, aos 7 anos
- e ainda hoje é -
esse violão

meu pai é esse violão imenso
que é do tamanho de mim inteira
meu pai é aquele som
que só ele e esse violão juntos podem ter

meu pai é esse sol calorento de verão
meu pai é aquela mão gigante cheia de calos
onde cabia minha mão inteira
- e ainda cabe

meu pai é aquele amontoado de cabelos negros
que insiste em deixar para trás, arrumadinho
mas eles não obedecem

meu pai é aquele bigodão faroeste sempre meio bagunçado
meu pai são aqueles olhinhos verdes tristonhos
por trás de imensos óculos redondos de armação dourada

meu pai é aquela orelha vermelha que eu gostava de apertar
quando era criança
meu pai é aquele monte de notas erradas que ele sempre corrige
quando eu acho que estou cantando bem

meu pai é aquele monte de sal que ele coloca na comida
porque não sabe muito bem prever o sabor das coisas
meu pai é aquele monte de piadas que eu já ouvi um milhão de vezes
e que, sinceramente, poderia ouvir um milhão de vezes mais

meu pai são aquelas 52 ligações não atendidas para o meu celular
preocupadíssimo com o fim do mundo
enquanto eu estava tranquilamente vendo um filme no cinema
meu pai é aquele pesadelo no meio da noite
que ele tem certeza que é sobre mim
e me liga pra me avisar

meu pai é uma saudade que eu tenho
é um pedaço de mim
que existe fora de mim mesma
meu pai é aquele choro que só ele consegue me fazer chorar

meu pai é aquele jeito desengonçado
meio brabo, meio torto
de dizer que me ama enquanto me xinga muito
- e eu que sou teimosa feito ele
tento dizer a mesma coisa
escrevendo poesia

meu pai
eupai

29 julho 2015

tapioca e merengue

Fiz umas fotos do show da Trabalhos Espaciais Manuais, a TEM, no 512 durante o último sábado. As cores malucas sao das luzes do show, as quais eu não tratei de propósito.

Ouve um pouco do afrobeat maluco deles aqui SoundCloud ou alguns clipes no YouTube.
Os próximos shows são divulgados no Facebook da banda.

Parada Gráfica



Neste final de semana tem Parada Gráfica, a maior feira de arte impressa de Porto Alegre! É zine, fotolivro, ilustração, cartaz, xilografia, quadrinhos, caderninho etc. A terceira edição do evento traz centenas de produções de todo o Brasil, pra mostrar que o papel ainda não morreu.

Nós do MÚSCULO estaremos na BANCA FORT mostranfo os trabalhos de Ricardo Ambus, Anelise De Carli, Lidia Brancher, Gabriel Sacks, Joao Pedro Cé, Bruno Góes, Nonada - Jornalismo Travessia, Luísa Hervé, Paula PLIM, Grazi Fonseca e Nina Moraes.

O MÚSCULO vai trazer:
Cartaz Manifesto contra o amor neoliberal
Zine MÚSCULO #1
Zine MÚSCULO #2
Zine MÚSCULO #3
Zine PLIM para colorir [novo!]
Zine Travessias [novo!]
Zine Lambeos Lábios [novo!]
Zine Other People’s Love Problems [novo!]
Fotolivro Fotos que minha mãe tirou em 1979
Fotolivro Urbanos [novo!]
Fotolivro Cementerio Central
Fotolivro Fortaleza [novo!]
Diario Antes de dormir [novo!]

Tudo na banca a preços promocionais E vai ter surpresinhas e presentinhos para quem nos visitar!

A feira de arte impressa tem ENTRADA GRATUITA e acontece no sábado e domingo (1 e 2 agosto) no Museu do Trabalho, em frente à Usina do Gasômetro.
Até lá! ᶘ ᵒᴥᵒᶅ

PARADA GRÁFICA
Sábado e domingo, 1º e 2 de agosto
14h às 19h
Museu do Trabalho
Rua dos Andradas, 230
Centro Histórico, Porto Alegre

23 julho 2015

once-for-all references in cultural appropriation



A deeper understanding of cultural appropriation also refers to a particular power dynamic in which members of a dominant culture take elements from a culture of people who have been systematically oppressed by that dominant group. [...] That’s why cultural appropriation is not the same as cultural exchange, when people share mutually with each other – because cultural exchange lacks that systemic power dynamic. It’s also not the same as assimilation, when marginalized people adopt elements of the dominant culture in order to survive conditions that make life more of a struggle if they don’t.

Read whole article here > What’s Wrong with Cultural Appropriation? These 9 Answers Reveal Its Harm

Asian, native & latin american, hindi, afro parties. Seems like western white people (in american way of life) need to take something cus they don't have nothing left that looks like culture. We can't just only take the north american critics to an other world like Brazil without seeing what remains. But A LOT OF RACISM remains.

Read the article > It’s Not Cool to Wear a Culture as a Costume

Having Privilege Doesn’t Mean You’re a Bad Person
Having Privilege Doesn’t Mean You Haven’t Experienced Oppression in Other Ways
Privilege Isn’t a Contest to Determine Who’s the Most Oppressed


Please, read > What Privilege Really Means (And Doesn’t Mean) – To Clear Up Your Doubts Once and For All

Pics from the great Sanaa Hamid.

12 junho 2015

em Brasília, 19 horas

O concreto armado do Instituto de Ciências Humanas da UnB me deixou levemente claustrofóbica, mas meus cabelos adoraram o ar seco.

08 junho 2015

ciranda saraí vive!

Neste sábado 06/06, uma festinha de rua marcou o início da revitalização da Ciranda, o espaço infantil coletivo da Ocupação Saraí! Teve muita tinta e criançada, além dos shows da Trabalhos Espaciais Manuais e do Grupo PN.

Quem tiver interesse em reservar um turno da sua semana para ajudar a reestruturar o espaço ou compartilhar qualquer conhecimento, entre em contato com os moradores. É só chegar na esquina da Av. Mauá com a Caldas Jr., no centro de Porto Alegre.

02 junho 2015

ciranda saraí

Neste sábado, 6 de junho, a partir das 15h da tarde, tem festa na Ocupação Saraí! É a reinauguração do espaço infantil CIRANDA!

Vamos receber doações de material escolar para as crianças e haverá mil atrações para apoiar e fortalecer a luta pelo direito à habitação popular:
+ TRABALHOS ESPACIAIS MANUAIS abrindo para O SHOW DE PAGODE DO GRUPO PN (PEGADA DE NEGÃO)!
+ OFICINA DE DANÇA DE RUA
+ OFICINA DE ZINES E ENCADERNAÇÃO ARTESANAL com o Vìtor e eu ❤, da Associação de Pesquisas e Práticas em Humanidades

Convida os amigos e vem!

CIRANDA SARAÍ
sábado | 06/06 | 15h
esquina da Caldas Jr. com Av. Mauá, centro de Porto Alegre

14 maio 2015

Eu branco, tu preto



Pierre Verger, por volta dos 90 anos de idade, morava na Bahia. O velhinho que largou a Europa para mergulhar no mundo negro costumava vestir uma bata e uma calça estampadas, bem à moda africana. Quem escreve isso é André Zatz, que foi em 1995 a Salvador visitar o famoso fotógrafo francês para entender o candomblé. O texto foi publicado no número 16 da coleção São Paulo de Perfil, editada na USP por Cremilda Medina - que também é uma pesquisadora da literatura africana de língua portuguesa.

Ler esse pequeno textinho de quatro páginas me causou grande impressão. Isso porque, dentre a minha geração e nos ambientes em que circulo, está crescendo um forte movimento de empoderamento negro e feminista. Pierre Verger, um branco europeu do século XX, atravessou esse cenário com passos firmes como quem pede licença com calma e sobriedade, e me colocou uma pulga atrás da orelha.

Para Verger, aquilo não era só uma roupa não. Aquele Pierre Verger, nascido numa abastada família parisiense, perdeu a família e resolver fazer do fotojornalismo sua escapatória para o mundo. Assim descobriu a África, o Brasil, o povo nagô e a religiosidade. Ele começou a fotografar a Bahia e a conhecer os povos do terreiro, e terminou a vida com um acervo de mais de 60 mil fotos sobre a negritude. É seu mérito a visibilidade dada à cultura negra, mais especialmente a afro-brasileira, durante as décadas de 1940, 50 e 60, ajudando a combater o teor sensacionalista atrelado à religião. Para Verger, isso tudo fez tanto sentido que ele se iniciou no candomblé até tornar-se sacerdote babalaô sob o nome de Fatumbi.

Quem diria, um branco europeu virou babalaô de uma religião brasileira de matriz profundamente africana. Quer mais? Pierre era gay, por mais que não falasse sobre sua homossexualidade em público. Àquele mesmo repórter da USP, Pierre Fatumbi Verger falou:

"Essa educação que recebemos nos afasta de quem somos na realidade. E um homem terá dificuldade para entrar em transe caso tenha tido uma educação francesa demais. É esse o meu caso. Os negros são diferentes da gente, eles não têm essa nossa curiosidade. Quando um ocidental assiste a uma dessas cerimônias, sua maior dúvida é se o transe é real ou se é simulado. Esse tipo de curiosidade é que nos limita."

Que a nossa educação não nos limite, não crie ente nós fronteiras. Porque o outro não é trincheira, é ponte.



Empoderar-se é construir poder. Ter poder é basicamente poder dizer não. É estabelecer limites na ação do outro, é pegar com as próprias mãos as coisas no mundo e colocá-las novamente no lugar que acredita-se que devem estar. Mas as mãos dos homens por vezes erram, e acabam sem querer construindo muros.

De quem você costumeiramente recebe um não? Talvez a primeira resposta tenha relação com sua família. Não, filho. Outra hierarquias também nos dizem não: chefes, professores, poder público, proprietários dos apartamentos em que moramos, donos de estabelecimentos comerciais. Não vendemos fiado. Não se pode usar o banheiro sem consumir no local. Não estacione. Não pise na grama. Mas há quem leve mais nãos do que outras pessoas.

Quem são os que levam não? Os que menos têm oportunidades, os que têm menos poder, socialmente falando. São os pobres. Os pretos. As mulheres. As mulheres pretas e pobres. Os filhos de ninguém, os donos de nada. Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata. E se eles resolverem falar alguns não também, como é que fica?

Os ouvidos escutam, a boca questiona. Escute. Nunca menospreze a dor de uma vítima. O primeiro passo é nunca duvidar de um sofrimento, quando expressado. Nunca diminua o grito de resposta de quem foi subjugado - essa resposta que pode, sim, acabar sendo violenta. Paz sem voz é medo.

É isso mesmo: eu, branca, nunca, nunquinha mesmo, vou sentir na minha própria pele alguns preconceitos. Por mais que teoricamente tente, minha experiência sobre discriminação é abstrata, não é carnal. Minhas atitudes em relação a este tema tendem a ser, portanto, menos carnais e mais apaziguadoras, e podem acabar caindo num menosprezo pela dor do outro. Simplesmente porque eu, branca, todos os dias que saio de casa, carrego comigo alguns privilégios.

Talvez, para começar a pensar em racismo, seja preciso primeiro nutrir nossa empatia. Ela começa com a escuta atenta. Sobre isso, duas mulheres brilhantes falaram muito: a portuguesa-brasileira Cremilda Medina (editora do livro mencionado no início deste texto) e a filósofa francesa Simone Weil (que disse: "a atenção é a forma mais rara e pura de generosidade"). Frente à miserável condição de que na nossa vida só podemos viver na nossa própria pele, é preciso desenvolver a consciência, ou melhor, a virtude, da alteridade.



Entre a minha geração tem crescido o interesse pela cultura afrobrasileira. Isso ao mesmo tempo em que algumas polêmicas têm esquentado os debates sobre negritude e apropriação cultural.

Multiplicam-se as festas, músicas, gírias de origem africana e poucos se interessam pela militância pelo fim do racismo. Será que os bailarinos, cada vez mais numerosos, d'Os Tincoãs nas festas, sabem que a música nagô não é só uma estética sonora vazia de sentido? Que os tambores convocam, com um ritmo específico para cada orixá, a presença viva deles nos seus filhos-de santo? Que, sim, a música é festa e também culto; e essas coisas podem ser duas faces da mesma moeda? Que Axé não é uma simples interjeição? Que os turbantes são coroas ancestrais? Que o corpo da mulher negra é muito mais do que um ícone da sensualidade brasileira? Que as jovens negras sofrem todos os dias tentando alisar seus cabelos resistentes à gravidade?

No primeiro semestre deste ano em Porto Alegre, alguns eventos culturais trouxeram à tona da questão da apropriação indevida da cultura negra. Neste mesmo período uma peça de teatro que marcou o debate na capital colocou negros no palco para falarem sobre suas vidas e lançarem algumas perguntas (este texto deve ao elenco desta peça a maior parte de seus argumentos). Turbantes devem morar em cabeças brancas ou negras? Qual o limite do gosto e o que é apropriação cultural? Qual a diferença entre o não que ouvimos, eu, preto, e tu, branco?

É nesses momentos, de lembrar quantos nãos alguns levaram (coisas que estão socialmente acessíveis para certas pessoas e não para outras), que pensamos: será que uma oficina sobre turbantes não deveria ser ministrada por um negra? Será que na hora de falar sobre o tambor não deveria ser um músico negro? Será que eu preciso definir as cores da minha cultura, ainda mais da - graças aos deuses todos - salada de frutas brasileira? De novo: a voz do oprimido pode sair esganiçada, violenta, mas ouvi-la é necessário. É dela que saem os relatos importantes para mudarmos as realidades. Ouvir um não de um negro talvez seja muito mais difícil numa sociedade em que geralmente os cargos de poder (inclusive o cultural) são ocupados por brancos.

Não se aproprie da cultura dos meus ancestrais. Não se aproprie indevidamente da minha cultura. Não resuma a riqueza da minha cultura em estética. Minha cultura não é produto para enriquecer você.

Quem sabe em vez de falarmos sobre apropriação cultural - que nos traz a ideia de uma incauta e impossível separação - devamos falar sobre a mercantilização da cultura. Não são poucos os que lucram com a cultura. Não são poucos os que lucram com a cultura negra: ultimamente com as festas de temática afro-tropical, mas há décadas com a commoditização e o embranquecimento do carnaval de rua brasileiro.

Festa não é lugar para defender pauta política. Muito embora saibamos que ao lado dos dias de guerra, precisemos de noites de amor. Simplesmente porque festa não é ambiente de discussão, de diálogo. O que não tira, é claro, a obrigação de que os organizadores de um evento sejam cuidadosos com os sujeitos e as temáticas nos quais ousam tocar, como o rei Midas, para transformá-la em ouro. Como bem resumiu um amigo, não entendo como a produtificação de algumas pautas (as que enfrentam problemas sociais, como os gays e os negros) podem resultar em algo positivo a não ser para quem esteja lucrando em cima disso.

Imaginem a maravilha que seria se cada um de nós, pretos e brancos, que gostam de vestir estampas e turbantes, e ouvir Tincoãs nas festas, nos preocupássemos com as casas de religião de matriz africana que não são protegidas da destruição por não receberem o título de patrimônio histórico como as igrejas cristãs. Se a cada "saravá" que escutássemos, morresse um jovem negro inocente a menos, por preconceito de policiais que consideram-nos mais suspeitos do que jovens brancos. Imagina que maravilha seria se a gente realmente não precisasse mais falar em racismo.

O preconceito não precisa nem pode ser um debate exclusivamente protagonizado por pretos, realizado em ambientes da cultura negra. Muitos já não têm mais paciência para diariamente expor relatos de segregação racial. Eles têm muito mais o que fazer. O racismo é uma invenção dos brancos. Então somos nós os brancos que devemos dar cabo disso.

--
As fotos são de Pierre Verger. Obrigada aos meus amigos pelas conversas generosas que resultaram neste texto.

06 maio 2015

no mucho

Después del almuerzo en el Balneario Cuchilla Alta, Antonio me ha dicho:

"Ya ves, nena, no necesitas mucho en esta vida para ser feliz. Solo un ranchito, una comidita, una amorcito para aquecerte los pies en las noches. Una guitarra, un perro. Un coche, viejito, quizás, que sea solo para viajar un poquitito. No necessitas mucho más, te lo digo. Cree en este viejo."

Viva el pueblo pueblito de la america morenita.

01 maio 2015

a bênção

o negrume da noite reluziu o dia
o perfil azeviche que a negrutude criou

constituiu um universo de beleza
explorando pela raça negra
por isso o negro lutou, o negro lutou
e acabou invejado e se consagrou

Ilê Ilê Aiyê, tu és o senhor dessa grande nação
e hoje os negros clamam: a bênção, a bênção, a bênção

Odé Comorodé odé odé Arerê
Odé Comorodé odé odé Arerê

29 abril 2015

zona sol

Atenção pessoal para o toque de cinco motivos para vir para a zona sul de Porto Alegre no próximo sábado 23/05:

1. Show da Trabalhos Espaciais Manuais
2. Show da Quiçá, se fosse
3. Zapata - Cervejaria Rural dando 50 litros de cerveja para os 100 primeiros ingressos
4. Coletivo Pitanga fazendo comidas com PANCs, orgânicos e delícias
5. FEIRA GRÁFICA organizada por Lidia Brancher e eu, pelo MÚSCULO.

VEM VEM VEM VEM VEM



27 abril 2015

O candomblé segundo Verger

por André Zatz*



Salvador, bairro do Vasco da Gama, segunda travessa da ladeira da Vila América. Um bairro popular, um lugar escondido no morro. A casa de número seis, oculta por árvores e plantas, era o local de residência de Pierre Verger, um fotógrafo francês que desenvolveu um vasto trabalho sobre o candomblé, tendo passado a maior parte dos últimos 50 anos entre a Bahia e a África.

Uma vizinha indicou o caminho. No alto das escadas, Verger estava sentado diante de uma mesa, vestido com uma roupa que parecia ter origem africana - talvez fosse uma blusa e uma saia, ambas do mesmo tecido estampado. Ele estava com mais de 90 anos e tinha alguma dificuldade para andar por causa de uma doença recente. Faleceu pouco mais de um ano depois, no dia 11 de fevereiro de 1996. Foi capaz de expor em sua obra, numa linguagem um pouco mais acessível, coisas que em geral permanecem pouco claras.

O candomblé é uma religião que surgiu tendo como principal influência a religião dos negros iorubás, ou nagôs como são conhecidos no Brasil. Ele gira em torno do culto aos orixás, que como explica Verger, são entidades intermediárias entre o homem e o Ser Supremo, Olodumarê. Olodumarê os criou para governarem e supervisionarem o mundo, delegando-lhes alguns de seus poderes. É portanto aos orixás que os homens devem dirigir suas orações e fazer suas oferendas, já que Olodumarê em si é inacessível e está além da compreensão humana.

Os cultos dos orixás são a razão de ser do ritual no candomblé. Cada uma dessas divindades tem uma ritualística que inclui comida especial, roupas, insígnias, cores e cantos característicos. Nos rituais, eles tomam posse de alguns de seus devotos, que perdem a consciência e agem por horas sob seu controle.

Em princípio, os orixás são ancestrais divinizados. Quer dizer que eles, ao invés de terem morrido como todo mundo, possuidores de um axé poderoso e de poderes excepcionais, teriam sofrido uma morfose em momentos de crise emocional provocados pela cólera, o arrependimento e outros sentimentos violentos. O que neles era material desaparecia, queimado por essa paixão, e restava apenas o seu axé, poder em estado de energia pura. Há inúmeras lendas que falam desses momentos de transmutação. E o axé do ancestral-orixá teria a faculdade, após sua morte, de se transmitir momentaneamente a um de seus descendentes durante um transe de possessão.

O orixá só pode ser percebido pelos seres humanos ao tomar posse de um deles. Esse ser escolhido e eleito pelo orixá torna-se o veículo que lhe permite voltar para receber os sinais de respeito de seus descendentes que o evocaram.

Tomando posse desse eleito, o orixá reencontra por um momento sua antiga personalidade espiritual e material. Ele é novamente o personagem de outros tempos, com suas qualidades, seus defeitos, gostos e tendências, seu caráter amável ou agressivo. Assim, de volta momentaneamente para o meio de seus descendentes durante as cerimônias, o orixá dança com eles, recebe suas saudações, escuta suas queixas, lhes dá conselhos, concede graças, resolve dificuldades. O mundo do além está próximo e os crentes podem falar diretamente com seu deus e usufruir de sua benevolência.

Com o tempo, a definição e a própria concepção do que é orixá tendem a evoluir. Há cada vez mais adeptos do candomblé que são não apenas mulatos cada vez mais claros, mas também europeus e mesmo asiáticos, sem nenhuma ligação de parentesco que chegue à África. Parece então difícil inclui-los na definição de orixá-ancestral. No entanto, como explica Verger, embora eles não tenham qualquer ligação se sangue com seu orixá, pode haver entre eles certas afinidades de temperamento.

Africanos e não-africanos têm em comum tendências inatas e um comportamento geral que correspondem aos de um orixá. Se examinarmos os iniciados, agrupando-os por orixá, poderemos notar que eles têm, com frequência, traços comuns, tanto no plano físico como no plano psíquico. Poderíamos chamar essas tendências de arquétipos da personalidade frequentemente ocultos. Ocultos porque certas tendências e faculdades inatas não podem se desenvolver livremente nas pessoas ao longo de sua existência, caso entrem em conflito com certas regras de conduta admitidas no meio onde vivem. As experiências vividas, o exemplo dos mais velhos, os princípios inculcados pela educação, a censura do meio social só deixam vir à tona algumas dessas tendências e faculdades, criando nele uma personalidade aparente diferente daquela que poderia ter se vivesse num meio onde os valores morais e os princípios admitidos fossem diferentes.



Para uma pessoa cuja vida impediu que sua natureza própria aflorasse, ser escolhida como filha-de-santo pelo orixá cujo arquétipo corresponde a suas tendências ocultas é a experiência que pode lhe dar mais alívio e conforto. Estando em transe, ela se comporta inconscientemente como o orixá, o que corresponde exatamente ao que aspiram suas tendências secretas reprimidas. É por isso que Pierre Verger acha que o termo mais apropriado para descrever essas experiências não é transe de possessão, mas sim transe de expressão da verdadeira personalidade. O praticante pode então tornar-se ele mesmo, ou aproximar-se disso. Pode seguir seus impulsos mais profundos, que até então estavam restritos ao subconsciente, e isso é uma coisa muito agradável.

- Você vê, meu avô era holandês, meu pai belga, eu nasci na França. Durante minha juventude cultivaram em mim o ódio aos alemães. Mas se meu pai, ao invés de ter pego um trem para a França tivesse pego um para a Alemanha, eu teria ódio aos franceses. E se meu pai tivesse pego um barco e ido para a Inglaterra, eu acharia que os franceses eram comedores de sapo.

Podemos nos dar conta que tudo isso é aprendido, não tem nada a ver com o que cada um é realmente, depende completamente das circunstâncias em que sua vida transcorre. Mas pelo que diz Verger, o candomblé fala de uma outra natureza do homem, mais verdadeira, com a qual ele pode se religar. Não seria dessa possibilidade prática que em sua origem falam todas as religiões? A própria origem da palavra religião tem a ver com religar. Religar-se talvez com sua natureza mais íntima, com o que está acima de nós, com Deus.

- Essa educação que recebemos nos afasta de quem somos na realidade. E um homem terá dificuldade para entrar em transe caso tenha tido uma educação francesa demais. É esse o meu caso. Os negros são diferentes da gente, eles não têm essa nossa curiosidade. Quando um ocidental assiste a uma dessas cerimônias, sua maior dúvida é se o transe é real ou se é simulado. Esse tipo de curiosidade é que nos limita.

No candomblé, o mais importante não é o conhecimento intelectual. A própria iniciação não consiste em revelar alguns segredos para o noviço, mas em fazer aparecer, ou melhor fazer reaparecer nele, em certas circunstâncias, uma de suas personalidades ocultas, essas do ancestral divinizado presente nele em estado latente - mesmo que simplesmente em função dos genes que ele carrega -, inibida e alienada pelas circunstâncias de existência levadas pelo noviço até esse dia.

Durante o período de iniciação, o devoto é mergulhado em um estado de entorpecimento e de sugestibilidade, causado em parte pelas beberagens e banhos, onde são colocadas certas folhas. Sua memória parece ser momentaneamente lavada da lembrança de sua vida anterior. Nesse estado de vacuidade e de disponibilidade, a identidade e o comportamento do orixá podem se formar sem obstáculos e se tornarem familiares a ele. Mais tarde, após o fim da iniciação, o noviço reencontrará sua velha personalidade e se esquecerá, no estado de vigília, de tudo o que se passou durante esse período de iniciação. Contudo, ele permanecerá sensível em seu inconsciente aos rimos dos tambores particulares a seu deus, que agirão como que estimulando um reflexo condicionado, fazendo cair em transe, sucumbindo ao apelo do orixá. Em outros termos, esses apelos o estimularão a exteriorizar um arquétipo de comportamento conforme as suas aspirações reprimidas.

Ele não vai se lembrar de nada do que acontecer enquanto estiver em transe, mas verá outros em transe e saberá que também passou por isso. Mesmo não estando em transe, portanto, poderá se lembrar de que é filho do seu santo e de que em certos momentos o encarna.

Ele poderá deste modo, lembrar-se de que não é apenas aquele que sempre julgou ser, que há algo mais nele, sua natureza mais verdadeira, e que ela não virá à tona sem certos esforços de sua parte.

Quem nunca ouvir dizer que todo mundo tem seu orixá (mesmo aqueles que não praticam o candomblé) e nem se intrigou com isso? Pierre Verger esclarece que não é porque vivemos separados desse "conhecimento" que o mundo dos orixás deixa de existir também em nós. A simples curiosidade sobre esses fatos não nos leva muito longe. É preciso mais do que isso. Mas como agir conhecendo tão pouco o mundo em que vivemos?

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Fotos de Pierre Verger. Texto originalmente publicado no livro Axé, número 16 da coleção São Paulo de Perfil, editada na USP por Cremilda Medina. As partes em negrito foram grifadas por mim.