14 maio 2015

Eu branco, tu preto



Pierre Verger, por volta dos 90 anos de idade, morava na Bahia. O velhinho que largou a Europa para mergulhar no mundo negro costumava vestir uma bata e uma calça estampadas, bem à moda africana. Quem escreve isso é André Zatz, que foi em 1995 a Salvador visitar o famoso fotógrafo francês para entender o candomblé. O texto foi publicado no número 16 da coleção São Paulo de Perfil, editada na USP por Cremilda Medina - que também é uma pesquisadora da literatura africana de língua portuguesa.

Ler esse pequeno textinho de quatro páginas me causou grande impressão. Isso porque, dentre a minha geração e nos ambientes em que circulo, está crescendo um forte movimento de empoderamento negro e feminista. Pierre Verger, um branco europeu do século XX, atravessou esse cenário com passos firmes como quem pede licença com calma e sobriedade, e me colocou uma pulga atrás da orelha.

Para Verger, aquilo não era só uma roupa não. Aquele Pierre Verger, nascido numa abastada família parisiense, perdeu a família e resolver fazer do fotojornalismo sua escapatória para o mundo. Assim descobriu a África, o Brasil, o povo nagô e a religiosidade. Ele começou a fotografar a Bahia e a conhecer os povos do terreiro, e terminou a vida com um acervo de mais de 60 mil fotos sobre a negritude. É seu mérito a visibilidade dada à cultura negra, mais especialmente a afro-brasileira, durante as décadas de 1940, 50 e 60, ajudando a combater o teor sensacionalista atrelado à religião. Para Verger, isso tudo fez tanto sentido que ele se iniciou no candomblé até tornar-se sacerdote babalaô sob o nome de Fatumbi.

Quem diria, um branco europeu virou babalaô de uma religião brasileira de matriz profundamente africana. Quer mais? Pierre era gay, por mais que não falasse sobre sua homossexualidade em público. Àquele mesmo repórter da USP, Pierre Fatumbi Verger falou:

"Essa educação que recebemos nos afasta de quem somos na realidade. E um homem terá dificuldade para entrar em transe caso tenha tido uma educação francesa demais. É esse o meu caso. Os negros são diferentes da gente, eles não têm essa nossa curiosidade. Quando um ocidental assiste a uma dessas cerimônias, sua maior dúvida é se o transe é real ou se é simulado. Esse tipo de curiosidade é que nos limita."

Que a nossa educação não nos limite, não crie ente nós fronteiras. Porque o outro não é trincheira, é ponte.



Empoderar-se é construir poder. Ter poder é basicamente poder dizer não. É estabelecer limites na ação do outro, é pegar com as próprias mãos as coisas no mundo e colocá-las novamente no lugar que acredita-se que devem estar. Mas as mãos dos homens por vezes erram, e acabam sem querer construindo muros.

De quem você costumeiramente recebe um não? Talvez a primeira resposta tenha relação com sua família. Não, filho. Outra hierarquias também nos dizem não: chefes, professores, poder público, proprietários dos apartamentos em que moramos, donos de estabelecimentos comerciais. Não vendemos fiado. Não se pode usar o banheiro sem consumir no local. Não estacione. Não pise na grama. Mas há quem leve mais nãos do que outras pessoas.

Quem são os que levam não? Os que menos têm oportunidades, os que têm menos poder, socialmente falando. São os pobres. Os pretos. As mulheres. As mulheres pretas e pobres. Os filhos de ninguém, os donos de nada. Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata. E se eles resolverem falar alguns não também, como é que fica?

Os ouvidos escutam, a boca questiona. Escute. Nunca menospreze a dor de uma vítima. O primeiro passo é nunca duvidar de um sofrimento, quando expressado. Nunca diminua o grito de resposta de quem foi subjugado - essa resposta que pode, sim, acabar sendo violenta. Paz sem voz é medo.

É isso mesmo: eu, branca, nunca, nunquinha mesmo, vou sentir na minha própria pele alguns preconceitos. Por mais que teoricamente tente, minha experiência sobre discriminação é abstrata, não é carnal. Minhas atitudes em relação a este tema tendem a ser, portanto, menos carnais e mais apaziguadoras, e podem acabar caindo num menosprezo pela dor do outro. Simplesmente porque eu, branca, todos os dias que saio de casa, carrego comigo alguns privilégios.

Talvez, para começar a pensar em racismo, seja preciso primeiro nutrir nossa empatia. Ela começa com a escuta atenta. Sobre isso, duas mulheres brilhantes falaram muito: a portuguesa-brasileira Cremilda Medina (editora do livro mencionado no início deste texto) e a filósofa francesa Simone Weil (que disse: "a atenção é a forma mais rara e pura de generosidade"). Frente à miserável condição de que na nossa vida só podemos viver na nossa própria pele, é preciso desenvolver a consciência, ou melhor, a virtude, da alteridade.



Entre a minha geração tem crescido o interesse pela cultura afrobrasileira. Isso ao mesmo tempo em que algumas polêmicas têm esquentado os debates sobre negritude e apropriação cultural.

Multiplicam-se as festas, músicas, gírias de origem africana e poucos se interessam pela militância pelo fim do racismo. Será que os bailarinos, cada vez mais numerosos, d'Os Tincoãs nas festas, sabem que a música nagô não é só uma estética sonora vazia de sentido? Que os tambores convocam, com um ritmo específico para cada orixá, a presença viva deles nos seus filhos-de santo? Que, sim, a música é festa e também culto; e essas coisas podem ser duas faces da mesma moeda? Que Axé não é uma simples interjeição? Que os turbantes são coroas ancestrais? Que o corpo da mulher negra é muito mais do que um ícone da sensualidade brasileira? Que as jovens negras sofrem todos os dias tentando alisar seus cabelos resistentes à gravidade?

No primeiro semestre deste ano em Porto Alegre, alguns eventos culturais trouxeram à tona da questão da apropriação indevida da cultura negra. Neste mesmo período uma peça de teatro que marcou o debate na capital colocou negros no palco para falarem sobre suas vidas e lançarem algumas perguntas (este texto deve ao elenco desta peça a maior parte de seus argumentos). Turbantes devem morar em cabeças brancas ou negras? Qual o limite do gosto e o que é apropriação cultural? Qual a diferença entre o não que ouvimos, eu, preto, e tu, branco?

É nesses momentos, de lembrar quantos nãos alguns levaram (coisas que estão socialmente acessíveis para certas pessoas e não para outras), que pensamos: será que uma oficina sobre turbantes não deveria ser ministrada por um negra? Será que na hora de falar sobre o tambor não deveria ser um músico negro? Será que eu preciso definir as cores da minha cultura, ainda mais da - graças aos deuses todos - salada de frutas brasileira? De novo: a voz do oprimido pode sair esganiçada, violenta, mas ouvi-la é necessário. É dela que saem os relatos importantes para mudarmos as realidades. Ouvir um não de um negro talvez seja muito mais difícil numa sociedade em que geralmente os cargos de poder (inclusive o cultural) são ocupados por brancos.

Não se aproprie da cultura dos meus ancestrais. Não se aproprie indevidamente da minha cultura. Não resuma a riqueza da minha cultura em estética. Minha cultura não é produto para enriquecer você.

Quem sabe em vez de falarmos sobre apropriação cultural - que nos traz a ideia de uma incauta e impossível separação - devamos falar sobre a mercantilização da cultura. Não são poucos os que lucram com a cultura. Não são poucos os que lucram com a cultura negra: ultimamente com as festas de temática afro-tropical, mas há décadas com a commoditização e o embranquecimento do carnaval de rua brasileiro.

Festa não é lugar para defender pauta política. Muito embora saibamos que ao lado dos dias de guerra, precisemos de noites de amor. Simplesmente porque festa não é ambiente de discussão, de diálogo. O que não tira, é claro, a obrigação de que os organizadores de um evento sejam cuidadosos com os sujeitos e as temáticas nos quais ousam tocar, como o rei Midas, para transformá-la em ouro. Como bem resumiu um amigo, não entendo como a produtificação de algumas pautas (as que enfrentam problemas sociais, como os gays e os negros) podem resultar em algo positivo a não ser para quem esteja lucrando em cima disso.

Imaginem a maravilha que seria se cada um de nós, pretos e brancos, que gostam de vestir estampas e turbantes, e ouvir Tincoãs nas festas, nos preocupássemos com as casas de religião de matriz africana que não são protegidas da destruição por não receberem o título de patrimônio histórico como as igrejas cristãs. Se a cada "saravá" que escutássemos, morresse um jovem negro inocente a menos, por preconceito de policiais que consideram-nos mais suspeitos do que jovens brancos. Imagina que maravilha seria se a gente realmente não precisasse mais falar em racismo.

O preconceito não precisa nem pode ser um debate exclusivamente protagonizado por pretos, realizado em ambientes da cultura negra. Muitos já não têm mais paciência para diariamente expor relatos de segregação racial. Eles têm muito mais o que fazer. O racismo é uma invenção dos brancos. Então somos nós os brancos que devemos dar cabo disso.

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As fotos são de Pierre Verger. Obrigada aos meus amigos pelas conversas generosas que resultaram neste texto.

27 abril 2015

O candomblé segundo Verger

por André Zatz*



Salvador, bairro do Vasco da Gama, segunda travessa da ladeira da Vila América. Um bairro popular, um lugar escondido no morro. A casa de número seis, oculta por árvores e plantas, era o local de residência de Pierre Verger, um fotógrafo francês que desenvolveu um vasto trabalho sobre o candomblé, tendo passado a maior parte dos últimos 50 anos entre a Bahia e a África.

Uma vizinha indicou o caminho. No alto das escadas, Verger estava sentado diante de uma mesa, vestido com uma roupa que parecia ter origem africana - talvez fosse uma blusa e uma saia, ambas do mesmo tecido estampado. Ele estava com mais de 90 anos e tinha alguma dificuldade para andar por causa de uma doença recente. Faleceu pouco mais de um ano depois, no dia 11 de fevereiro de 1996. Foi capaz de expor em sua obra, numa linguagem um pouco mais acessível, coisas que em geral permanecem pouco claras.

O candomblé é uma religião que surgiu tendo como principal influência a religião dos negros iorubás, ou nagôs como são conhecidos no Brasil. Ele gira em torno do culto aos orixás, que como explica Verger, são entidades intermediárias entre o homem e o Ser Supremo, Olodumarê. Olodumarê os criou para governarem e supervisionarem o mundo, delegando-lhes alguns de seus poderes. É portanto aos orixás que os homens devem dirigir suas orações e fazer suas oferendas, já que Olodumarê em si é inacessível e está além da compreensão humana.

Os cultos dos orixás são a razão de ser do ritual no candomblé. Cada uma dessas divindades tem uma ritualística que inclui comida especial, roupas, insígnias, cores e cantos característicos. Nos rituais, eles tomam posse de alguns de seus devotos, que perdem a consciência e agem por horas sob seu controle.

Em princípio, os orixás são ancestrais divinizados. Quer dizer que eles, ao invés de terem morrido como todo mundo, possuidores de um axé poderoso e de poderes excepcionais, teriam sofrido uma morfose em momentos de crise emocional provocados pela cólera, o arrependimento e outros sentimentos violentos. O que neles era material desaparecia, queimado por essa paixão, e restava apenas o seu axé, poder em estado de energia pura. Há inúmeras lendas que falam desses momentos de transmutação. E o axé do ancestral-orixá teria a faculdade, após sua morte, de se transmitir momentaneamente a um de seus descendentes durante um transe de possessão.

O orixá só pode ser percebido pelos seres humanos ao tomar posse de um deles. Esse ser escolhido e eleito pelo orixá torna-se o veículo que lhe permite voltar para receber os sinais de respeito de seus descendentes que o evocaram.

Tomando posse desse eleito, o orixá reencontra por um momento sua antiga personalidade espiritual e material. Ele é novamente o personagem de outros tempos, com suas qualidades, seus defeitos, gostos e tendências, seu caráter amável ou agressivo. Assim, de volta momentaneamente para o meio de seus descendentes durante as cerimônias, o orixá dança com eles, recebe suas saudações, escuta suas queixas, lhes dá conselhos, concede graças, resolve dificuldades. O mundo do além está próximo e os crentes podem falar diretamente com seu deus e usufruir de sua benevolência.

Com o tempo, a definição e a própria concepção do que é orixá tendem a evoluir. Há cada vez mais adeptos do candomblé que são não apenas mulatos cada vez mais claros, mas também europeus e mesmo asiáticos, sem nenhuma ligação de parentesco que chegue à África. Parece então difícil inclui-los na definição de orixá-ancestral. No entanto, como explica Verger, embora eles não tenham qualquer ligação se sangue com seu orixá, pode haver entre eles certas afinidades de temperamento.

Africanos e não-africanos têm em comum tendências inatas e um comportamento geral que correspondem aos de um orixá. Se examinarmos os iniciados, agrupando-os por orixá, poderemos notar que eles têm, com frequência, traços comuns, tanto no plano físico como no plano psíquico. Poderíamos chamar essas tendências de arquétipos da personalidade frequentemente ocultos. Ocultos porque certas tendências e faculdades inatas não podem se desenvolver livremente nas pessoas ao longo de sua existência, caso entrem em conflito com certas regras de conduta admitidas no meio onde vivem. As experiências vividas, o exemplo dos mais velhos, os princípios inculcados pela educação, a censura do meio social só deixam vir à tona algumas dessas tendências e faculdades, criando nele uma personalidade aparente diferente daquela que poderia ter se vivesse num meio onde os valores morais e os princípios admitidos fossem diferentes.



Para uma pessoa cuja vida impediu que sua natureza própria aflorasse, ser escolhida como filha-de-santo pelo orixá cujo arquétipo corresponde a suas tendências ocultas é a experiência que pode lhe dar mais alívio e conforto. Estando em transe, ela se comporta inconscientemente como o orixá, o que corresponde exatamente ao que aspiram suas tendências secretas reprimidas. É por isso que Pierre Verger acha que o termo mais apropriado para descrever essas experiências não é transe de possessão, mas sim transe de expressão da verdadeira personalidade. O praticante pode então tornar-se ele mesmo, ou aproximar-se disso. Pode seguir seus impulsos mais profundos, que até então estavam restritos ao subconsciente, e isso é uma coisa muito agradável.

- Você vê, meu avô era holandês, meu pai belga, eu nasci na França. Durante minha juventude cultivaram em mim o ódio aos alemães. Mas se meu pai, ao invés de ter pego um trem para a França tivesse pego um para a Alemanha, eu teria ódio aos franceses. E se meu pai tivesse pego um barco e ido para a Inglaterra, eu acharia que os franceses eram comedores de sapo.

Podemos nos dar conta que tudo isso é aprendido, não tem nada a ver com o que cada um é realmente, depende completamente das circunstâncias em que sua vida transcorre. Mas pelo que diz Verger, o candomblé fala de uma outra natureza do homem, mais verdadeira, com a qual ele pode se religar. Não seria dessa possibilidade prática que em sua origem falam todas as religiões? A própria origem da palavra religião tem a ver com religar. Religar-se talvez com sua natureza mais íntima, com o que está acima de nós, com Deus.

- Essa educação que recebemos nos afasta de quem somos na realidade. E um homem terá dificuldade para entrar em transe caso tenha tido uma educação francesa demais. É esse o meu caso. Os negros são diferentes da gente, eles não têm essa nossa curiosidade. Quando um ocidental assiste a uma dessas cerimônias, sua maior dúvida é se o transe é real ou se é simulado. Esse tipo de curiosidade é que nos limita.

No candomblé, o mais importante não é o conhecimento intelectual. A própria iniciação não consiste em revelar alguns segredos para o noviço, mas em fazer aparecer, ou melhor fazer reaparecer nele, em certas circunstâncias, uma de suas personalidades ocultas, essas do ancestral divinizado presente nele em estado latente - mesmo que simplesmente em função dos genes que ele carrega -, inibida e alienada pelas circunstâncias de existência levadas pelo noviço até esse dia.

Durante o período de iniciação, o devoto é mergulhado em um estado de entorpecimento e de sugestibilidade, causado em parte pelas beberagens e banhos, onde são colocadas certas folhas. Sua memória parece ser momentaneamente lavada da lembrança de sua vida anterior. Nesse estado de vacuidade e de disponibilidade, a identidade e o comportamento do orixá podem se formar sem obstáculos e se tornarem familiares a ele. Mais tarde, após o fim da iniciação, o noviço reencontrará sua velha personalidade e se esquecerá, no estado de vigília, de tudo o que se passou durante esse período de iniciação. Contudo, ele permanecerá sensível em seu inconsciente aos rimos dos tambores particulares a seu deus, que agirão como que estimulando um reflexo condicionado, fazendo cair em transe, sucumbindo ao apelo do orixá. Em outros termos, esses apelos o estimularão a exteriorizar um arquétipo de comportamento conforme as suas aspirações reprimidas.

Ele não vai se lembrar de nada do que acontecer enquanto estiver em transe, mas verá outros em transe e saberá que também passou por isso. Mesmo não estando em transe, portanto, poderá se lembrar de que é filho do seu santo e de que em certos momentos o encarna.

Ele poderá deste modo, lembrar-se de que não é apenas aquele que sempre julgou ser, que há algo mais nele, sua natureza mais verdadeira, e que ela não virá à tona sem certos esforços de sua parte.

Quem nunca ouvir dizer que todo mundo tem seu orixá (mesmo aqueles que não praticam o candomblé) e nem se intrigou com isso? Pierre Verger esclarece que não é porque vivemos separados desse "conhecimento" que o mundo dos orixás deixa de existir também em nós. A simples curiosidade sobre esses fatos não nos leva muito longe. É preciso mais do que isso. Mas como agir conhecendo tão pouco o mundo em que vivemos?

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Fotos de Pierre Verger. Texto originalmente publicado no livro Axé, número 16 da coleção São Paulo de Perfil, editada na USP por Cremilda Medina. As partes em negrito foram grifadas por mim.

13 abril 2015

viver sem medo

Às vezes os grandes ficam grandes demais pra continuar entre a gente. Gracias, abuelito Gale.

01 abril 2015

Cartas de Serra Leoa

Cremilda Medina pediu para reescrever minha reescrita de reportagens sobre o ebola. O texto, me alertou, ainda estava truncado com retrancas e pouco encadeamento. Assumi o formato correspondência e a primeira pessoa da repórter Patrícia da Folha de S.Paulo, acrescentei detalhes ficcionais-literários e fiz novamente. A ideia é sugerir possibilidades estilísticas para futuras coberturas.

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De: Patrícia Campos Mello
Para: mãe
Data: 20 de agosto de 2014
Assunto: Notícias

Querida mamãe,

Avener Prado e eu chegamos em Serra Leoa no último domingo. Ele é o fotógrafo da Folha que viajou comigo. Vou colocar nesse email umas fotos dele para você ver melhor o que estamos vendo aqui.

Eu sei que não estás muito feliz com a minha vinda para cá, por causa da epidemia do ebola, mas desde março a região está em estado de alerta, então não tinha escolha além de vir. Não quero que fiques preocupada, tomamos todas as precauções. Mas vamos passar por toda a chamada “zona do ebola”, na fronteira entre Serra Leoa, Guiné e Libéria. A Nigéria também está infectada, mas não está no nosso caminho.

Eu também sei muito bem que a situação aqui é grave. Até agora o governo de Serra Leoa contou mais de dois mil casos de pessoas infectadas. Seis em cada 10 dessas pessoas morreram. Por isso no jornal nos mandaram tomar todas as precauções. Antes de chegarmos, fizemos tudo que nos foi orientado pelo Ambulatório do Viajante do Hospital das Clínicas de SP. Tomamos vacina pra tudo: malária, tétano, raiva, sarampo, poliomielite, meningite, febre tifoide, hepatite A e B. Além disso, temos um termômetro e todos os dias monitoramos nossa temperatura. Lá nos falaram que os sintomas do ebola são parecidos com os da malária. Então, se a temperatura variar de repente, é um mau sinal.

Logo que chegamos, já presenciamos um cenário desolador. A primeira pauta era na cidade de Kailahun, um distrito no interior, extremo leste de Serra Leoa. Fomos para lá porque ali foi onde o vírus mais contaminou pessoas. No meio da estrada de chão batido, que já havia se transformado em pura lama, ficaram atolados. Demorou cerca de uma hora para que outros carros, caminhões da ONU e do Médicos Sem Fronteiras, também parassem. Alguns meninos do vilarejo, fracos mas sorridentes, foram chegando e tentando empurrar a caminhonete. Mamãe, ali, pela primeira vez, eu vi mãos que não podem tocar.



Você lembra que eu gosto muito daquele um escritor moçambicano chamado Luís Bernardo Honwana? Pois bem, essa cena terrível me lembrou um conto dele, As mãos dos pretos. Ele conta a história de um menino que quer, por tudo, descobrir porque as mãos dos pretos são mais brancas que o resto todo dele. A questão aqui é que não importa o porquê da cor mais clara, as mãos de um preto não podem, por nada, encostar em você.

Isso porque a maioria dos habitantes locais são negros, negros rubros, não negros mesclados como aí em São Paulo. E não podem encostar porque o vírus passa muito facilmente com o contato da pele. E o pior é que eles sabem bem disso. Os meninos da vila enquanto nos ajudavam empurrando os carros atolados, falavam, num inglês errado, para nos tranquilizar: “No worry, no touch”.

No comboio atolado na estrada, uma médica sueca chamada Karin Ekholm, que está trabalhando contra a epidemia, me contou que por lá ninguém mais encosta nos outros sem luvas e muito menos leva as mãos ao próprio rosto. A contaminação pelo vírus não acontece pelo ar, mas pelo contato com qualquer fluido corporal ou ainda pela ingestão de animais contaminados (como macacos e morcegos). Por isso que nos hospitais, milhares deles construídos às pressas em terrenos baldios, todas as roupas dos novos internados são queimadas.

Avener comentou que a equipe de saúde do hospital, além de nos ter cravejado de vacinas, deveria ter nos treinado também pra o horror psicológico dessa cobertura. Conversei com uma infectologista italiana chamada Lívia Tampellini. Ela me disse, engolindo um choro, que tem pesadelos onde suas luvas se rasgam e ela se contamina por tocar num doente. Também já sonhou que uma pessoa com ebola vomita em seus pés. Pacientes em estágio final da doença sangram pela boca, nariz e vagina. Lívia diz que às vezes os médicos, mesmo vestidos de macacão, se abraçam só para sentir algum contato físico.

No meio do caminho entre Freetown (capital de Serra Leoa) e Kailahun (local da nossa pauta), passamos pela cidade de Kenema. Ali conhecemos sobreviventes da epidemia. Eu não sabia, mas são vários os casos de pessoas que se infectaram e saíram dos hospitais sem o vírus. Uma pessoa me contou que ficou 14 dias na área de isolamento e tinha certeza que ia morrer. O nome dele é Ahasan Kemokai e ele tem 34 anos. Nesse período viu muitas pessoas morrerem, incluindo sua prima e seu sobrinho de dez meses de idade. Uma vez no hospital ele foi ao banheiro e, quando voltou, seu colega de cama tinha falecido. Tudo que ele tinha quando entrou no hospital foi queimado: roupas, sapatos e até o celular. Ele acha que contraiu o vírus da sua mãe. Ela faleceu de ebola. Três dias ele sentiu os primeiros sintomas. Ficou com medo de contaminar alguém pegando o ônibus e decidiu ir até o hospital a pé. Foram dois quilômetros. Avener tirou esse retrato dele, segurando o atestado de que está livre do vírus:



No hospital, ele preencheu a lista de sintomas do ebola: febre intensa e repentina, dores musculares e de cabeça. Em estágios avançados, acontecem diarreias, vômitos e sangramentos. Avener quis tirar seu retrato segurando o certificado de alta porque ele nos contou que sofre preconceito no vilarejo onde mora. As pessoas do bairro não chegam perto dele, com medo que ainda esteja com o vírus. Por isso, Ahasan ainda evita o contato com a própria esposa e também não sabe se vai conseguir recuperar seu emprego. Mas ele acredita no que o médico disse, que as pessoas que se curaram do ebola adquirem anticorpos e ficam imunes à doença.

É forte aqui em Serra Leoa a tradição de enterro dos mortos. As famílias fazem os preparativos. Mas isso virou um problema porque os familiares começaram a propagar o vírus por estarem em contato com o corpo dos falecidos. Então a Cruz Vermelha proibiu os enterros tradicionais, afirmando que esse, provavelmente, foi o estopim para a epidemia. O médico-chefe do hospital de Kenema, Mohamed Bandi, disse que, nesse cenário horroroso, muitas famílias preferem continuar com os doentes em casa, para que passem seus últimos dias juntos, já que a doença certamente matará a todos. Isso tem impedido o monitoramento total por parte dos agentes de saúde. Então, provavelmente, existe muito mais vítima do que as estatísticas oficiais. Eles até instalaram uma espécie de disque-denúncia, que recebe ligações onde as pessoas avisam anonimamente sobre a possibilidade de pessoas contaminadas estarem escondidas em casa, ou ainda, no caso de casas fechadas há muito tempo em vilarejos, onde provavelmente uma família inteira morreu sem ninguém perceber.

Quase todos os lugares por aqui têm baldes com cloro nas portas de entrada. As pessoas lavam bastante as mãos antes de entrar e ao sair, para evitar a proliferação do vírus. Nos necrotérios, os trabalhadores vestem com um macacão amarelo de proteção e máscaras de oxigênio – isso porque na área de risco do hospital, eles dizem que o cheiro de cloro e sangue é muito forte. Até essas roupas são queimadas no fim do dia.



O cenário de uma epidemia é terrível, mas me parece que a pior parte são as consequências disso tudo. Serra Leoa é um país basicamente agrícola, e a morte de milhares de campesinos certamente vai ter consequências na produção agrícola. Pelo email da imprensa minha editora recebeu um comunicado oficial dizendo que o governo está preocupado com a possível escassez de alimentos nas aldeias rurais. Essa região é uma mistura de palmeiras e plantações de arroz e mandioca. Li algumas matérias no New York Times e que o correspondente deles por aqui escreveu ter visto aldeias inteiras vazias e que, com a morte de tantos agricultores, acreditam que não haja plantio de nada neste ano.

Devo voltar em breve porque a situação da epidemia aqui não parece que vai em breve. De qualquer maneira, mamãe, como já lhe disse, não se preocupe. Estou cheia de vacinas e muitos repórteres estão aqui comigo na mesma situação. Já visitei tantos lugares por aqui nos últimos dias que, se alguma coisa ruim devesse, ela já teria acontecido. Qualquer sinal de febre, te aviso.

Patrícia.

06 março 2015

o que é afeto?

hola, cariñitos!

estou fazendo uma pesquisa sobre afetos. para isso, estou procurando textos, anotações, correspondências, histórias quaisquer que sejam manifestações escritas de carinho. a ideia é encontrar expressões de amor feitas por nomes conhecidos por nós por variados motivos. cantores, músicos, pensadores, atrizes, cozinheiros, escravas, prostitutas, santas. o objetivo disso tudo é montar uma Oficina de Cartas de Amor, que vai terminar com a publicação de um ou vários zines sobre o assunto: expressar-se, expressar afeto, permitir-se transmitir carinho.

portanto, se vocês têm coisas preferidas que pra vocês façam muito sentido e quiserem compartilhar, seria de imensa ajuda! afeto é uma prática, é preciso treinar para saber reconhecer e oferecer. a quem interessar, por favor, enviar para > anelisedecarli@gmail.com


gracias
carinhos


26 fevereiro 2015

atenção a Simone Weil

Conheci, neste verão, um nome que mudou a minha vida: Simone Weil. Um amigo poeta, João Kowacs, me presenteou com um pequeno e precioso livrinho, uma biografia de Simone escrita por Ecléa Bosi. Na ainda inútil capacidade que escrever sobre ela, compartilho aqui alguns links sobre suas ideais e uma frase que sintetiza sua bela inteligência.

Simone foi uma filósofa e ativista política parisiense, nascida na virada do século (1909). Cedo demonstrou alta desenvoltura intelectual e falta de jeito social. Lia e recitava em latim fluentemente. Logo tornou-se professora de filosofia (aos 22 anos). Num cenário de crise pós-Primeira Guerra Mundial europeia, volta fortemente sua atenção aos movimentos de empoderamento popular, dando aulas de Política para carvoeiros na França. Alguns anos depois, abandona a universidade para trabalhar também como operária, escrevendo que não pode entender o que é a vida do proletariado se não se estiver ao lado e junto deles.

Dentre seus diversos escritos, organizados em livros depois de sua morte (1943, aos 34 anos), Simone sugere a escuta atenta ao outro e ao contraditório (motivo pelo qual escrevia cartas a seus adversários políticos) e a força da fraqueza, como escrito abaixo. Pouco difere sua postura diante mundo daquela que os primeiros cristãos chamaram de amor ágape – motivo pelo qual seus comentadores pouco estranham o fato de ela ter se tornado uma cristã não religiosa ao final da vida. Motivo pelo qual, também, os pensadores materialistas da época desprezaram seu legado intelectual e deixaram-na ser redescoberta e lida somente muitas década depois.

"Visto que o grande número obedece, e obedece até deixar-se impor o sofrimento e a morte, enquanto o pequeno número comanda, não é verdade que a maioria seja uma força. O número, apesar do que a imaginação nos leva a crer, é uma fraqueza. A fraqueza está do lado onde se tem fome, onde se está esgotado, onde se suplica, onde se treme, não do lado onde se vive bem, onde se concedem favores, onde se ameaça. O povo não está submisso apesar de ser maioria, mas porque é a maioria." – do artigo Meditação sobre a obediência e a liberdade.

É da mesma biógrafa Ecléa Bosi o artigo A atenção em Simone Weil.

"A atenção é a forma mais rara e pura de generosidade."



Mais fotos dela aqui e aqui.

30 janeiro 2015

três lições da fotografia para relacionamentos


Noite em La Paloma/Uruguay. Foto: Ives Mizoguchi

1. Uma câmera, muitas configurações. É a mesma maquininha e o objetivo é o mesmo, mas as maneiras de fazer mudam completamente de acordo com o contexto. Assim como na sociedade, onde a moral vai evoluindo historicamente, ao longo de um relacionamento, qualquer que seja, os contratos precisam ser atualizados de tempos em tempos, para que as coisas continuem com o sabor do início.

2. O amor é fotográfico e não cinematográfico. A memória é formada por fragmentos. A gente lembra das coisas em episódios, não em timelapse, nem em plano-sequência. Logo, é isso que fica dos relacionamentos, que continuam ou terminam: os momentos, bons ou ruins, momentos que separadamente fazem sentido. Coisas diferentes em momentos do tempo-espaço (tempo-contexto) diferentes. Assim a gente evita o turbilhão que confunde tudo e a nós mesmos.

3. Somente a paciência da longa exposição deixa as estrelas brilharem tanto.

12 dezembro 2014

cartas para o jornalismo

Em setembro deste ano, a professora Cremilda Medina (USP) ministrou um seminário na Faculdade de Comunicação da UFRGS. Foi uma despretensiosa – mas preciosa – aula a respeito das ferramentas desgastadas com a qual o Jornalismo perde forças diariamente ao promover a impessoalização das narrativas. Para falar sobre essas coisas, Cremilda contou muitas histórias de sua atuação profissional, como o perfil em primeira pessoa de Elis Regina e da vez que transformou doces poloneses em objeto de uma matéria sobre os sobreviventes do nazismo.

Para Cremilda, é preciso que o jornalista livre-se do ego assinante e assuma-se como autor da mediação social. É preciso que supere o medo de ferir o autor com o eu lírico - querela há muito já resolvida pelas Letras. É preciso lembrar que não existe um “jornalismo literário”, pois toda escrita é literária (que pode ser expressiva ou não: a estilística vem do acontecimento); que todo jornalismo é cultural, pois tudo que se faz na esfera de produção de sentido é produção simbólica de um jornalismo que é leitor e autor cultural. É tarefa do comunicador social criar ambientes transdisciplinares entre os conhecimentos (do senso comum ou da ciência). A pesquisa em arquivos ou na internet nunca é suficiente para fazer Jornalismo, é preciso estar afeto ao mundo e atento às metodologias da história contemporânea, que nos ensinam sobre a superação de uma racionalidade esquemática. A interpretação – a qual objetiva o jornalista e o leitor do jornalismo – precisa ser mestiça de racionalidade e sensibilidade para compreender a realidade.

As atividades terminaram com a sugestão de um pequeno laboratório: reescrever reportagens publicadas na imprensa brasileira. A mim coube recontar algumas histórias sobre a epidemia do Ebola. Foram cinco já ótimas matérias publicadas na Folha de S.Paulo entre os dias 18 e 20 de agosto, além da ajuda de um conto da literatura moçambicana de língua portuguesa. Utilizando-se as noções de polifonia, polissemia e cumplicidade de Cremilda Medina, esta matéria transforma a reportagem em relato, como se os enviados especiais contassem sua história através de um terceiro repórter, sujeito oculto.

As reportagens e o conto referidos foram estes:
'Nada nos preparou para o medo permanente' (Patrícia Campos Mello, 18/ago/2014)
Sobreviventes do ebola (Patrícia Campos Mello e Avener Prado, 18/ago/2014)
Ebola leva terror a aldeia africana (Adam Nossiter, 19/ago/2014)
Ebola por dentro (Patrícia Campos Mello e Avener Prado, 19/ago/2014)
'Epidemia de medo' marca surto do ebola (Patrícia Campos Mello, 20/ago/2014)
As mãos dos pretos (Luís Bernardo Honwana, no livro "Nós Matámos o Cão-Tinhoso", de 1964)

Segue a matéria:

Cartas de Serra Leoa


Patrícia Campos Mello e Avener Prado foram enviados pela Folha de S.Paulo para Serra Leoa, no terceiro final de semana de agosto. A região está sofrendo desde o mês de março com uma forte epidemia do vírus do ebola. Na época da viagem, quase dois mil casos já tinham sido registrados na “zona do ebola”, região fronteiriça entre Serra Leoa, Guiné e Libéria, além da Nigéria.

Com sintomas iniciais parecidos com os da malária, o ebola mata cerca de 60% das pessoas que contamina. Orientados pelo Ambulatório do Viajante do Hospital das Clínicas de SP, os dois tomaram muitas vacinas antes de embarcar: malária, tétano, raiva, sarampo, poliomielite, meningite, febre tifoide, hepatite A e B. Além disso, um termômetro, utilizado por quase todos os profissionais que foram até o país para trabalhar contra a epidemia. É preciso monitorar a temperatura todos os dias.

Mãos que não podem tocar
Patrícia contou que ela e Avener estavam a caminho de Kailahun, distrito no extremo leste de Serra Leoa, local onde foram vitimados pelo vírus a maior soma de pessoas. No meio da estrada de chão batido, que já havia se transformado em pura lama, ficaram atolados. Demorou cerca de uma hora para que outros carros, caminhões da ONU e da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), também parassem. Alguns meninos do vilarejo, fracos mas sorridentes, foram chegando e tentando empurrar a caminhonete.

Se as mãos brancas dos pretos podem ter muitas origens – como nos conta o escritor moçambicano Luís Bernardo Honwana –, em Serra Leoa só importavam as consequências. Ninguém podia encostar sua mão em ninguém. Os meninos da vila que empurravam os carros e pediam fotos, avisavam, em inglês: “No worry, no touch”.

No comboio atolado na estrada, a médica sueca Karin Ekholm contou que ninguém mais encosta nos outros sem luvas e muito menos leva as mãos ao próprio rosto. “O vírus só é transmitido por contato com pessoas ou coisas, mas a doença é altamente contagiosa”. No hospital improvisado em Kailahun, todas as roupas dos dez novos internados diariamente por suspeita de ebola eram queimadas. O horror da contaminação chegava e eles agora entendiam o treinamento dado pela MSF sobre a pressão psicológica na cobertura de uma epidemia.


Estrada para Kailahun. Foto: Avener Prado

Para o hospital, a pé
Ao lado da epidemia do vírus, a epidemia do medo é maior para quem está hospitalizado. A infectologista italiana Lívia Tampellini contou para Patrícia que tem pesadelos em que suas luvas se rasgam e ela se contamina, ou que uma pessoa com ebola vomita em seus pés. A médica trabalha no hospital da MSF em Kailahun e, como frisou o fotógrafo Avener, “hospital” talvez seja mal entendido. Ele fez questão de fotografar a ala de alto risco em que trabalha Lívia, que nada mais é do que um espaço improvisado coberto por panos no chão, cadeiras de plástico e cordões laranja de isolamento ao redor.

Antes de chegarem à zona do ebola, os repórteres encontraram em alguns sobreviventes do vírus em Kenema, cidade do interior leonês no trajeto entre a capital Freetown e Kailahun. No período de 14 dias em que esteve na área de isolamento, Ahasan Kemokai, 34 anos, viu muitas pessoas morrerem. Sua prima e seu sobrinho de dez meses de idade. Seu colega de cama faleceu no intervalo em que Ahasan foi ao banheiro. Suas roupas, sapatos e celular foram queimados. Ele acredita que contraiu o vírus de sua mãe. Três dias depois da morte da mãe, Ahasan sentiu os primeiros sintomas. “Eu até desconfiei que fosse ebola, mas não se pode negar a mão à sua mãe”. Foi para o hospital a pé, vencendo mais de dois quilômetros e meio de estrada, para não contaminar ninguém no ônibus.

Os sintomas iniciais do ebola são febre intensa e repentina, acompanha de dores musculares e de cabeça. Em estágios avançados, acontecem diarreias, vômitos e sangramentos. A contaminação pelo vírus não acontece pelo ar, mas pelo contato com qualquer fluido corporal ou ainda pela ingestão de animais contaminados (como macacos e morcegos). Em 90% dos casos, a doença se manifesta após dez dias da contaminação.

Ahasan deixou o hospital de Kenema com um certificado de alta. Estudos apontam que pessoas que se curaram do ebola adquirem anticorpos e ficam imunes à doença. Mesmo assim, Ahasan conta que evita contato com sua esposa e não sabe se vai recuperar o emprego. As pessoas no bairro em que mora, dele nem chegam perto.


Ahasan Kemokai. Foto: Avener Prado

Enterros seguros
A Cruz Vermelha começou a promover os enterros seguros, evitando a preparação tradicional do corpo dos falecidos. O contato com os corpos contaminados parece ter sido uma das causas da avançada proliferação do vírus em Serra Leoa. Por isso, segundo o médico chefe de Kenema, Mohamed Bandi, a entidade instalou uma espécie de disque-denúncia, onde as pessoas avisam anonimamente sobre a possibilidade de contaminados escondidos nas casas.

Segundo o médico, a contaminação segue descontrolada porque muitas famílias preferem continuar com os doentes em casa, o que impede o monitoramento total por parte dos agentes de saúde. Mas mesmo nos hospitais a contaminação acontece. Uma das vítimas do ebola foi o maior especialista do vírus no país, Sheik Umar Khan. Faixas em sua homenagem estão em toda parte do hospital de Kenema.

Os estabelecimentos todos colocaram baldes com cloro nas portas. As pessoas devem lavar bastante as mãos para evitar a proliferação do vírus. Os técnicos dos necrotérios vestidos com uma roupa amarela de proteção e máscaras de oxigênio também tratam com uma solução de cloro os corpos contaminados. Os próprios trajes amarelos de proteção são incinerados depois da utilização diária.


Hospital na fronteira de Kailahun. Foto: Avener Prado

Abundância e escassez
O governo de Serra Leoa está isolando a zona do ebola (leste de Serra Leoa). David Keilie-Coomber, detentor do semiextinto cargo de chefe supremo do país, preocupa-se com a possível futura escassez de alimentos, devido ao suprimenro das atividades comerciais com a região. A preocupação aumenta com a situação das aldeias rurais, onde as palmeiras convivem com plantações de arroz e mandioca. O repórter do New York Times também no país, Adam Nossiter, conta que muitas aldeias estão vazias e os moradores acreditam que, com a morte de tantos agricultores, é capaz que não haja plantio de coisa alguma neste ano.

Enquanto isso, os gastos aumentam. Somente no hospital de Kailahun, são utilizados por dia cerca de 150 macacões amarelos de proteção, ao custo de 20 dólares cada um. Apesar do custo, o equipamento é necessário para os agentes de trabalham diretamente com a limpeza de fezes, vômito e sangue. No interior das tendas da MSF o uso dos macacões é obrigatório. Avener fotografou a preparação de um funcionário para ir à área de risco do hospital e escutou que o cheiro lá dentro é de cloro e sangue. Pacientes em estágio final da doença sangram pela boca, nariz e vagina.

Os médicos não ficam mais de 60 dias em cada posto, pois no trabalho assistem muitas pessoas morrendo e não podem tocar em ninguém durante meses. A médica Lívia confessou para Patrícia: “Às vezes nos abraçamos dentro da área de alto risco, todos vestidos de macacão, só para sentir algum contato físico”.

21 novembro 2014

as três idades da mulher

No trem, as três lado a lado. Era fácil perceber que pertenciam à mesma família, em três gerações. A cor rosa choque do vestido curto todo de renda, como dita a moda, destaca com eficácia o volume dos seios - talvez ainda mais pela ajuda do cinto de couro falso preto cheio de detalhes em dourado brilhante. O interesse no volume do colo era fortificado devido ao mistério instalado pelos longos cabelos pretos. Os fios escorridos tapavam parte do volume lateral, apagando as diferenças entre o tronco e os braços. Alto contraste com a avó, sentada por benevolência do cidadão do trem. Ali onde os seios caídos já se confundiam com o inchaço da barriga. Os cabelos, dessa vez, presos atenciosamente num coque perfeitíssimo, e fechados com louvor num adereço de brilho comedido. Nem mesmo a camiseta, também rendada, também de cor forte (laranja), como dita a moda, conferia sensualidade àquela que talvez hoje ocupasse mais os neurônios que os hormônios. Os olhos, pequenos, meio cansados, escondidos detrás de um óculos feinho de armação quase inexistente. Mesmo se eles não estivessem ali em cima, seja difícil dizer qualquer coisa, porque não paravam de olhar para a paisagem pela janela, distante. O queixo mascava alguma balinha, ou a própria língua. Ali do lado, outra boquinha parecia triste. Cada ponta os lábios caidinhas para baixo, talvez por imposição das imensas bochechas. Era a mais nova. Os cabelos presos para trás numa longa trança de lisos fios pretos, que a faziam parecer, de frente, próxima da avó, e, de costas, da irmã. O penteado caía com graça em cima de um vestido leve mas comportado de flores rosa num fundo amarelo, bastante veranil. Aquele corpo gordinho talvez não ficasse bem com rendas - como diz a moda. Os olhinhos redondos e curiosos apontavam para talvez uns 8 anos. Da irmã é difícil dizer, porque estavam guardados por um grande óculos escuros, numa aparência rebelde.


As três idades da mulher, Gustav Klimt

04 novembro 2014

dorine,



"... um amor que é o fascínio recíproco de duas pessoas por aquilo que elas têm de menos dizível, de menos socializável.”

Esse é um trecho de Carta a D., de André Gorz, o livro que mais gostei nos últimos tempos.

Escrito em 2006, a longa carta/pequeno livro de poucas 60 páginas é um relato, resumo, retrospectiva da vida a dois de André e Dorine. Quando terminei o livro, dentro do avião, comecei a chorar e graças a deus as luzes acenderam para a hora do lanche e pude voltar à consciência. Tive alguma dúvida na hora de escolhê-lo na livraria. Não conhecia o autor - e, convenhamos, uma carta de amor talvez seja a melhor maneira de conhecer qualquer escritor. Então, me convenci fortemente com as primeiras linhas:

"Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros , não pesa mais que quarenta quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do me peito um vazio devorador que somente o calor dos eu corpo contra o meu é capaz de preencher."

André Gorz é um filósofo e cientista político que fez parte do cenário pós-existencialista francês e deu caldo para as críticas de Maio de 68 e as abordagens sociais progressistas posteriores, como a ecologia. Dá para conhecer um pouco mais do seu trabalho intelectual neste artigo: Por uma sociedade do tempo liberado.

13 outubro 2014

ciência, substantivo feminino

Atingir o topo da carreira científica no Brasil significa ostentar o posto de pesquisador nível 1A do CNPq. Dos cerca de 180 pesquisadores mais bem cotados da UFRGS, somente 19 são mulheres.

Cuidando para não cair numa polarização exagerada, é preciso lembrar que o feminino desempenha papéis que os homens não desempenham. Sendo as pesquisadoras mulheres a minoria do cenário das descobertas científicas, elas precisam também neste ambiente provar sua equanimidade de capacidades? As instituições apoiam o ciclo de vida de mulheres ou ainda atender e premiam somente as lógicas de vida do masculino? Paras as mulheres-mães, como criar os filhos numa carreira tão absorvente como a da docência e da pesquisa? Porque a progressão profissional nas universidades não contempla o afastamento para gravidez e amamentação? Você sabe se bolsistas de pós-graduação têm direito a licença maternidade? Ainda: um número menor de mulheres significa a retirada do feminino nessas relações de pesquisa? Está em falta a ternura, virtude tão desencorajada aos homens e nos centros de pesquisa, masculinizados biológica e afetuosamente?

Vamos para outras perguntas, passa ou repassa: diga rápido uma renomada cientista mulher brasileira. Diga agora, homens. Lembrem das leituras na faculdade, quantas mulheres embasam sua pesquisa teórica? Agora pensem, homens. Se as mulheres hoje estão em maior número nas universidades, talvez demore para esse processo afirmativo se refletir nos cargos superiores e nas referências de pensamento.

Para quem entende literalmente o feminino e o masculino, é fácil cair no pensamento a respeito de diferenças genéticas. Um pode isso, outro pode aquilo. A respeito disso, o maravilhoso astrofísico Neil Tyson tem uma boa resposta: "Numa sociedade dominada por homens brancos, é muito difícil você estar fora das expectativas a respeito do que você deve ser. Caso você seja uma mulher ou um negro. Antes de começarmos a falar de diferenças genéticas, precisamos criar um sistema de oportunidades iguais".



Para saber mais, o livro Women Scientists in the Americas publicou depoimentos de pesquisadoras sobre o tema.

Por isso, convido para o lançamento de um projeto fotográfico que encontrou as poucas cientistas brasileiras, na mãe UFRGS, que absorveram e superaram os desafios em cada esquina!

Abertura da exposição Ciência, substantivo feminino
Fotos da minha orientadora, mulher, cientista, Ana Taís Portanova
quarta 15 outubro, 18h
Saguão da Reitoria da UFRGS
Campus Central - Porto Alegre

08 outubro 2014

pela vida das mulheres

Compartilho aqui a fala maravilhosa deste domingo no Ato pela descriminalização do aborto e legalização da interrupção voluntária da gravidez. Foi uma fala de fazer chorar. Obrigada, meninas.



Agosto de 2014, Rio de Janeiro.
Jandira Magdalena dos Santos Cruz, 27 anos, duas filhas.
Pagou R$4500,00 para interromper uma gravidez indesejada. Pagou mais do que isso: pagou com sua vida. Morta, teve seus dentes, braços e pernas arrancados. Seu corpo foi encontrado queimado e jogado em um carro abandonado.

Setembro de 2014, Niterói
Elisângela Barbosa, 32 anos, 3 filhos.

Pagou R$2800,00 por uma condenação à morte. Ela também queria interromper uma gravidez indesejada. Com um tubo de plástico no útero, seu corpo foi abandonado em um hospital público. Teve seu útero e intestino perfurados.
Nascer no Brasil condenou essas mulheres à morte. Estariam vivas se tivessem nascido a menos de 500km de Porto Alegre, no Uruguai.

No dia 17 de outubro de 2012, o senado uruguaio aprovou a descriminalização do aborto e nenhuma mulher que realizou aborto legal morreu até então. O único erro de Jandira, Elisângela e de uma mulher que morre a cada dois dias no Brasil, foi ter nascido aqui. Neste país que criminaliza as mulheres que desejam interromper a gravidez.
O debate sobre aborto não é novidade, pois foi realizado exaustivamente ao redor do mundo. Uma parte do mundo escolheu por salvar as mulheres e outra parte, como o Brasil, escolheu condená-las à morte.
“Com uma legislação medieval e miserável, condenamos as mulheres a se submeterem a um procedimento do qual não sabem se sairão vivas. O que eu to dizendo pra vocês é que são mulheres que desejam com tanta força não estarem grávidas que estão decididas a morrer se for necessário.”

Quantas mulheres mais nós vamos permitir que sejam mortas? Quantas crianças agora sem mãe, quantos pais sem suas filhas, famílias sem irmãs, companheiras, quantas amigas mortas?

Eu quero fazer um pedido a vocês: olhem ao redor! De cada 5 mulheres que vocês estão vendo agora, uma já fez o aborto. Eu vou repetir: de cada 5 mulheres que vocês estão vendo agora, uma já fez o aborto.
Ao contrário do que se acredita, as pesquisas mostram que essas mulheres são de todas as classes sociais, e a maior parte está acima dos 25 anos, 81% já tem filhos, 64% são casadas e 91% são religiosas (católicas, evangélicas e protestantes).

A vida dessas mulheres não vale nada? Elas merecem ser presas? Elas deveriam estar mortas? A vida das nossas mulheres vale menos que a vida das uruguaias, italianas, canadenses, sul africanas, inglesas...? Por que no Brasil elas são condenadas ao corredor da morte?

Hoje é 28 de setembro. Dia latino-americano e caribenho da luta pela descriminalização e legalização do aborto. Nós estamos a uma semana das eleições, há meses sendo inundados por propostas, debates e promessas. Mas sobre o aborto pouco é dito.

Fica cada vez mais claro que essa questão não é abordada com a seriedade devida. Esse assunto que é tão caro a todas nós mulheres é mantido como um tabu, por pragmatismo, dogmatismo ou mera covardia. E assim continuamos jogando as mulheres para a clandestinidade e as condenando à morte e ao julgamento público.
É por esse motivo que nós saímos às ruas hoje. Para lutar pelas nossas vidas e pelo nosso direito de fazer escolhas sobre o nosso próprio corpo.

Esse ato visa trazer o debate a público e dizer que não vamos mais aceitar o silêncio. Não pedimos 1 minuto de silêncio por todas essas mortes. Queremos dias e noites de luta para garantir que outras vidas não sejam perdidas.
Pela legalização e pela descriminalização do aborto. Por um Brasil que também seja das mulheres!
LEGALIZE!
O CORPO É NOSSO!
É NOSSA ESCOLHA!
É PELA VIDA DAS MULHERES!

02 outubro 2014

As mãos dos pretos

Conto do escritor moçambicano Luís Bernardo Honwana, publicado no livro "Nós Matámos o Cão-Tinhoso", de 1964.


Still do filme "La noire de..." de Ousmane Sembène (1966).

Já não sei a que propósito é que isso vinha, mas o Senhor Professor disse um dia que as palmas das mãos dos pretos são mais claras do que o resto do corpo porque ainda há poucos séculos os avós deles andavam com elas apoiadas ao chão, como os bichos do mato, sem as exporem ao sol, que lhes ia escurecendo o corpo. Lembrei-me disso quando o Senhor Padre, depois de dizer na catequese que nós não prestávamos mesmo para nada e que até os pretos eram melhores do que nós, voltou a falar nisso de as mãos deles serem mais claras, dizendo que isso era assim porque eles, às escondidas, andavam sempre de mãos postas, a rezar.

Eu achei um piadão tal a essa coisa de as mãos dos pretos serem mais claras que agora é ver-me a não largar seja quem for enquanto não me disser por que é que eles têm as palmas das mãos assim mais claras. A Dona Dores, por exemplo, disse-me que Deus fez-lhes as mãos assim mais claras para não sujarem a comida que fazem para os seus patrões ou qualquer outra coisa que lhes mandem fazer e que não deva ficar senão limpa.

O Senhor Antunes da Coca-Cola, que só aparece na vila de vez em quando, quando as coca-colas das cantinas já tenham sid0 todas vendidas, disse que tudo o que me tinham contado era aldrabice. Claro que não sei realmente se era, mas ele garantiu-me que era. Depois de eu lhe dizer que sim, que era aldrabice, ele contou então o que sabia desta coisa das mãos dos pretos. Assim:

“Antigamente, há muitos anos, Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, Virgem Maria, São Pedro, muitos outros santos, todos os anjos que nessa altura estavam no céu e algumas pessoas que tinham morrido e ido para o céu, fizeram uma reunião e resolveram fazer pretos. Sabes como? Pegaram em barro, enfiaram-no em moldes usados para cozer o barro das criaturas, levaram-nas para os fornos celestes; como tinham pressa e não houvesse lugar nenhum ao pé do brasido, penduraram-nas nas chaminés. Fumo, fumo, fumo e aí os tens escurinhos como carvões. E tu agora queres saber por que é que as mãos deles ficaram brancas? Pois então se eles tiveram de se agarrar enquanto o barro deles cozia?!”

Depois de contar isto o Senhor Antunes e os outros Senhores que estavam à minha volta desataram a rir, todos satisfeitos.

Nesse mesmo dia, o Senhor Frias chamou-me, depois de o Senhor Antunes de ter ido embora e disse-me que tudo o que eu tinha estado para ali a ouvir de boca aberta era uma grandessíssima peta. Coisa certa e certinha sobre isso das mãos dos pretos era o que ele sabia: que Deus acabava de fazer os homens e mandava-os tomar banho num lago do céu. Depois do banho as pessoas estavam branquinhas. Os pretos, como foram feitos de madrugada e a essa hora a água do lago estivesse muito fria, só tinham molhado as palmas das mãos e as plantas dos pés, antes de se vestirem e virem para o mundo.

Mas eu li num livro, que por acaso falava nisso, que os pretos têm as mãos assim mais claras por viverem encurvados, sempre a apanhar o algodão branco de Virgínia e de mais não sei onde. Já se vê que a Dona Estefânia não concordou quando eu lhe disse isso. Para ela é só por as mãos desbotarem à força de tão lavadas.

Bem, eu não sei o que vá pensar disso tudo, mas a verdade é que ainda que calosas e gretadas, as mãos dum preto são sempre mais claras do que todo o resto dele.

A minha mãe é a única que deve ter razão sobre essa questão de as mãos de um preto serem mais claras do que o resto do corpo. No dia em que falámos nisso, eu e ela, estava-lhe eu ainda a contar o que já sabia dessa questão e ela já estava farta de se rir. O que eu achei esquisito foi que ela não me dissesse logo o que pensava disso tudo, quando eu quis saber, e só tivesse respondido depois de se fartar de ver que eu não me cansava de insistir sobre a coisa, e mesmo assim a chorar, agarrada à barriga como quem não pode mais de tanto rir. O que ela disse foi mais ou menos isto:

“ Deus fez os pretos porque os tinha de haver. Tinha de os haver, meu filho, Ele pensou que realmente tinha de o haver… Depois arrependeu-se de os ter feito porque os outros homens se riam deles e levavam-nos para as casas deles para os pôr a servir como escravos ou pouco mais. Mas como Ele já os não pudesse fazer ficar todos brancos porque os que já se tinham habituado a vê-los pretos reclamariam, fez com que as palmas das mãos deles ficassem exatamente como as palmas das mãos dos outros homens. E sabes porque é que foi? Claro que não sabes e não admira porque muitos e muitos não sabem. Pois olha: foi para mostrar que o que os homens fazem é apenas obra dos homens. Deve ter sido a pensar assim que ele fez com que as mãos dos pretos fossem iguais às mãos dos homens que dão graças a Deus por não serem pretos”.

Depois de dizer isso tudo, a minha mãe beijou-me as mãos.

Quando fugi para o quintal, para jogar à bola, ia a pensar que nunca tinha visto uma pessoa a chorar tanto sem que ninguém lhe tivesse batido.

24 setembro 2014

legalizar a vida

Na noite de ontem (23/09), o Jornal Nacional exibiu suíte da matéria a respeito da última morte registrada no RJ por consequência de aborto em clínica despreparada. A funcionária da clínica despreparada será indiciada, e o "falso médico" está foragido, por crime de aborto - sem aspas, é isso mesmo que é. O preço, segundo o valor que ela portava na bolsa, 2 mil e 800 reais. a gravidez tinha 5 meses, ela tinha três filhos.

Morre segunda vítima de aborto em menos de um mês no Rio 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a cada dois dias no Brasil uma mulher morre por consequência de aborto inseguro. O que significa "aborto inseguro"? Aborto de pobre. Aborto feito em clínicas com péssimas condições, aborto barato, aborto feito por mulheres que preferem pagar para se submeter a esse risco tremendo do que viver sem conseguir sustentar um filho, ou por consequência de um estupro, ou por vontade do marido mesmo.

Cartilha "Abortamento seguro: Orientação técnica e de políticas para sistemas de saúde" da OMS

Aborto clandestino? É todo o tipo de aborto feito até agora no Brasil: aborto é crime. Mesmo os abortos feitos por mulheres ricas. Sim, elas também ficam grávidas sem intenção. Sim, elas também abortam. abortam em clínicas bem seguras, com procedimentos muito bem pagos, por profissionais muito bem requisitados na sua cidade. médicos de universidades, médicos de grandes hospitais, médicos de clínicas caríssimas.

Segundo a Pesquisa Nacional de Aborto, uma em cada 7 brasileiras jovens já escolheram se submeter o procedimento Até os 40 anos de idade, uma em cada 5 mulheres do país vai fazer um aborto. Esses são, obviamente, números mínimos, pois muitas mulheres, por razões óbvias, não relataram sua escolha.

Você sabe quanto custa um aborto em clínica médica na sua cidade? Você sabe quantas pessoas ao seu redor já escolheram interromper uma gravidez - por inúmeros motivos? Você já parou para pensar que não existe outra opção para as mulheres que optam por manter a gravidez e não têm como manter os filhos?

Por essas e muitas, muitas outras coisas, convido para o ato deste domingo, 28/09, no Parque da Redenção em Porto Alegre. Ato pela descriminalização do aborto e legalização da interrupção voluntária da gravidez. A partir das 14h haverá aula pública sobre o tema, onde podemos discutir possibilidades.

Defender a legalização do aborto significar defender a regulamentação de procedimentos por clínicas seguras, legalizadas. acompanhamento médico para as pacientes.

Divulgue, convide os amigos. Não deixe a lei matar pessoas.