13 abril 2015

viver sem medo

Às vezes os grandes ficam grandes demais pra continuar entre a gente. Gracias, abuelito Gale.

01 abril 2015

Cartas de Serra Leoa

Cremilda Medina pediu para reescrever minha reescrita de reportagens sobre o ebola. O texto, me alertou, ainda estava truncado com retrancas e pouco encadeamento. Assumi o formato correspondência e a primeira pessoa da repórter Patrícia da Folha de S.Paulo, acrescentei detalhes ficcionais-literários e fiz novamente. A ideia é sugerir possibilidades estilísticas para futuras coberturas.

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De: Patrícia Campos Mello
Para: mãe
Data: 20 de agosto de 2014
Assunto: Notícias

Querida mamãe,

Avener Prado e eu chegamos em Serra Leoa no último domingo. Ele é o fotógrafo da Folha que viajou comigo. Vou colocar nesse email umas fotos dele para você ver melhor o que estamos vendo aqui.

Eu sei que não estás muito feliz com a minha vinda para cá, por causa da epidemia do ebola, mas desde março a região está em estado de alerta, então não tinha escolha além de vir. Não quero que fiques preocupada, tomamos todas as precauções. Mas vamos passar por toda a chamada “zona do ebola”, na fronteira entre Serra Leoa, Guiné e Libéria. A Nigéria também está infectada, mas não está no nosso caminho.

Eu também sei muito bem que a situação aqui é grave. Até agora o governo de Serra Leoa contou mais de dois mil casos de pessoas infectadas. Seis em cada 10 dessas pessoas morreram. Por isso no jornal nos mandaram tomar todas as precauções. Antes de chegarmos, fizemos tudo que nos foi orientado pelo Ambulatório do Viajante do Hospital das Clínicas de SP. Tomamos vacina pra tudo: malária, tétano, raiva, sarampo, poliomielite, meningite, febre tifoide, hepatite A e B. Além disso, temos um termômetro e todos os dias monitoramos nossa temperatura. Lá nos falaram que os sintomas do ebola são parecidos com os da malária. Então, se a temperatura variar de repente, é um mau sinal.

Logo que chegamos, já presenciamos um cenário desolador. A primeira pauta era na cidade de Kailahun, um distrito no interior, extremo leste de Serra Leoa. Fomos para lá porque ali foi onde o vírus mais contaminou pessoas. No meio da estrada de chão batido, que já havia se transformado em pura lama, ficaram atolados. Demorou cerca de uma hora para que outros carros, caminhões da ONU e do Médicos Sem Fronteiras, também parassem. Alguns meninos do vilarejo, fracos mas sorridentes, foram chegando e tentando empurrar a caminhonete. Mamãe, ali, pela primeira vez, eu vi mãos que não podem tocar.



Você lembra que eu gosto muito daquele um escritor moçambicano chamado Luís Bernardo Honwana? Pois bem, essa cena terrível me lembrou um conto dele, As mãos dos pretos. Ele conta a história de um menino que quer, por tudo, descobrir porque as mãos dos pretos são mais brancas que o resto todo dele. A questão aqui é que não importa o porquê da cor mais clara, as mãos de um preto não podem, por nada, encostar em você.

Isso porque a maioria dos habitantes locais são negros, negros rubros, não negros mesclados como aí em São Paulo. E não podem encostar porque o vírus passa muito facilmente com o contato da pele. E o pior é que eles sabem bem disso. Os meninos da vila enquanto nos ajudavam empurrando os carros atolados, falavam, num inglês errado, para nos tranquilizar: “No worry, no touch”.

No comboio atolado na estrada, uma médica sueca chamada Karin Ekholm, que está trabalhando contra a epidemia, me contou que por lá ninguém mais encosta nos outros sem luvas e muito menos leva as mãos ao próprio rosto. A contaminação pelo vírus não acontece pelo ar, mas pelo contato com qualquer fluido corporal ou ainda pela ingestão de animais contaminados (como macacos e morcegos). Por isso que nos hospitais, milhares deles construídos às pressas em terrenos baldios, todas as roupas dos novos internados são queimadas.

Avener comentou que a equipe de saúde do hospital, além de nos ter cravejado de vacinas, deveria ter nos treinado também pra o horror psicológico dessa cobertura. Conversei com uma infectologista italiana chamada Lívia Tampellini. Ela me disse, engolindo um choro, que tem pesadelos onde suas luvas se rasgam e ela se contamina por tocar num doente. Também já sonhou que uma pessoa com ebola vomita em seus pés. Pacientes em estágio final da doença sangram pela boca, nariz e vagina. Lívia diz que às vezes os médicos, mesmo vestidos de macacão, se abraçam só para sentir algum contato físico.

No meio do caminho entre Freetown (capital de Serra Leoa) e Kailahun (local da nossa pauta), passamos pela cidade de Kenema. Ali conhecemos sobreviventes da epidemia. Eu não sabia, mas são vários os casos de pessoas que se infectaram e saíram dos hospitais sem o vírus. Uma pessoa me contou que ficou 14 dias na área de isolamento e tinha certeza que ia morrer. O nome dele é Ahasan Kemokai e ele tem 34 anos. Nesse período viu muitas pessoas morrerem, incluindo sua prima e seu sobrinho de dez meses de idade. Uma vez no hospital ele foi ao banheiro e, quando voltou, seu colega de cama tinha falecido. Tudo que ele tinha quando entrou no hospital foi queimado: roupas, sapatos e até o celular. Ele acha que contraiu o vírus da sua mãe. Ela faleceu de ebola. Três dias ele sentiu os primeiros sintomas. Ficou com medo de contaminar alguém pegando o ônibus e decidiu ir até o hospital a pé. Foram dois quilômetros. Avener tirou esse retrato dele, segurando o atestado de que está livre do vírus:



No hospital, ele preencheu a lista de sintomas do ebola: febre intensa e repentina, dores musculares e de cabeça. Em estágios avançados, acontecem diarreias, vômitos e sangramentos. Avener quis tirar seu retrato segurando o certificado de alta porque ele nos contou que sofre preconceito no vilarejo onde mora. As pessoas do bairro não chegam perto dele, com medo que ainda esteja com o vírus. Por isso, Ahasan ainda evita o contato com a própria esposa e também não sabe se vai conseguir recuperar seu emprego. Mas ele acredita no que o médico disse, que as pessoas que se curaram do ebola adquirem anticorpos e ficam imunes à doença.

É forte aqui em Serra Leoa a tradição de enterro dos mortos. As famílias fazem os preparativos. Mas isso virou um problema porque os familiares começaram a propagar o vírus por estarem em contato com o corpo dos falecidos. Então a Cruz Vermelha proibiu os enterros tradicionais, afirmando que esse, provavelmente, foi o estopim para a epidemia. O médico-chefe do hospital de Kenema, Mohamed Bandi, disse que, nesse cenário horroroso, muitas famílias preferem continuar com os doentes em casa, para que passem seus últimos dias juntos, já que a doença certamente matará a todos. Isso tem impedido o monitoramento total por parte dos agentes de saúde. Então, provavelmente, existe muito mais vítima do que as estatísticas oficiais. Eles até instalaram uma espécie de disque-denúncia, que recebe ligações onde as pessoas avisam anonimamente sobre a possibilidade de pessoas contaminadas estarem escondidas em casa, ou ainda, no caso de casas fechadas há muito tempo em vilarejos, onde provavelmente uma família inteira morreu sem ninguém perceber.

Quase todos os lugares por aqui têm baldes com cloro nas portas de entrada. As pessoas lavam bastante as mãos antes de entrar e ao sair, para evitar a proliferação do vírus. Nos necrotérios, os trabalhadores vestem com um macacão amarelo de proteção e máscaras de oxigênio – isso porque na área de risco do hospital, eles dizem que o cheiro de cloro e sangue é muito forte. Até essas roupas são queimadas no fim do dia.



O cenário de uma epidemia é terrível, mas me parece que a pior parte são as consequências disso tudo. Serra Leoa é um país basicamente agrícola, e a morte de milhares de campesinos certamente vai ter consequências na produção agrícola. Pelo email da imprensa minha editora recebeu um comunicado oficial dizendo que o governo está preocupado com a possível escassez de alimentos nas aldeias rurais. Essa região é uma mistura de palmeiras e plantações de arroz e mandioca. Li algumas matérias no New York Times e que o correspondente deles por aqui escreveu ter visto aldeias inteiras vazias e que, com a morte de tantos agricultores, acreditam que não haja plantio de nada neste ano.

Devo voltar em breve porque a situação da epidemia aqui não parece que vai em breve. De qualquer maneira, mamãe, como já lhe disse, não se preocupe. Estou cheia de vacinas e muitos repórteres estão aqui comigo na mesma situação. Já visitei tantos lugares por aqui nos últimos dias que, se alguma coisa ruim devesse, ela já teria acontecido. Qualquer sinal de febre, te aviso.

Patrícia.

06 março 2015

o que é afeto?

hola, cariñitos!

estou fazendo uma pesquisa sobre afetos. para isso, estou procurando textos, anotações, correspondências, histórias quaisquer que sejam manifestações escritas de carinho. a ideia é encontrar expressões de amor feitas por nomes conhecidos por nós por variados motivos. cantores, músicos, pensadores, atrizes, cozinheiros, escravas, prostitutas, santas. o objetivo disso tudo é montar uma Oficina de Cartas de Amor, que vai terminar com a publicação de um ou vários zines sobre o assunto: expressar-se, expressar afeto, permitir-se transmitir carinho.

portanto, se vocês têm coisas preferidas que pra vocês façam muito sentido e quiserem compartilhar, seria de imensa ajuda! afeto é uma prática, é preciso treinar para saber reconhecer e oferecer. a quem interessar, por favor, enviar para > anelisedecarli@gmail.com


gracias
carinhos


26 fevereiro 2015

atenção a Simone Weil

Conheci, neste verão, um nome que mudou a minha vida: Simone Weil. Um amigo poeta, João Kowacs, me presenteou com um pequeno e precioso livrinho, uma biografia de Simone escrita por Ecléa Bosi. Na ainda inútil capacidade que escrever sobre ela, compartilho aqui alguns links sobre suas ideais e uma frase que sintetiza sua bela inteligência.

Simone foi uma filósofa e ativista política parisiense, nascida na virada do século (1909). Cedo demonstrou alta desenvoltura intelectual e falta de jeito social. Lia e recitava em latim fluentemente. Logo tornou-se professora de filosofia (aos 22 anos). Num cenário de crise pós-Primeira Guerra Mundial europeia, volta fortemente sua atenção aos movimentos de empoderamento popular, dando aulas de Política para carvoeiros na França. Alguns anos depois, abandona a universidade para trabalhar também como operária, escrevendo que não pode entender o que é a vida do proletariado se não se estiver ao lado e junto deles.

Dentre seus diversos escritos, organizados em livros depois de sua morte (1943, aos 34 anos), Simone sugere a escuta atenta ao outro e ao contraditório (motivo pelo qual escrevia cartas a seus adversários políticos) e a força da fraqueza, como escrito abaixo. Pouco difere sua postura diante mundo daquela que os primeiros cristãos chamaram de amor ágape – motivo pelo qual seus comentadores pouco estranham o fato de ela ter se tornado uma cristã não religiosa ao final da vida. Motivo pelo qual, também, os pensadores materialistas da época desprezaram seu legado intelectual e deixaram-na ser redescoberta e lida somente muitas década depois.

"Visto que o grande número obedece, e obedece até deixar-se impor o sofrimento e a morte, enquanto o pequeno número comanda, não é verdade que a maioria seja uma força. O número, apesar do que a imaginação nos leva a crer, é uma fraqueza. A fraqueza está do lado onde se tem fome, onde se está esgotado, onde se suplica, onde se treme, não do lado onde se vive bem, onde se concedem favores, onde se ameaça. O povo não está submisso apesar de ser maioria, mas porque é a maioria." – do artigo Meditação sobre a obediência e a liberdade.

É da mesma biógrafa Ecléa Bosi o artigo A atenção em Simone Weil.

"A atenção é a forma mais rara e pura de generosidade."



Mais fotos dela aqui e aqui.

30 janeiro 2015

três lições da fotografia para relacionamentos


Noite em La Paloma/Uruguay. Foto: Ives Mizoguchi

1. Uma câmera, muitas configurações. É a mesma maquininha e o objetivo é o mesmo, mas as maneiras de fazer mudam completamente de acordo com o contexto. Assim como na sociedade, onde a moral vai evoluindo historicamente, ao longo de um relacionamento, qualquer que seja, os contratos precisam ser atualizados de tempos em tempos, para que as coisas continuem com o sabor do início.

2. O amor é fotográfico e não cinematográfico. A memória é formada por fragmentos. A gente lembra das coisas em episódios, não em timelapse, nem em plano-sequência. Logo, é isso que fica dos relacionamentos, que continuam ou terminam: os momentos, bons ou ruins, momentos que separadamente fazem sentido. Coisas diferentes em momentos do tempo-espaço (tempo-contexto) diferentes. Assim a gente evita o turbilhão que confunde tudo e a nós mesmos.

3. Somente a paciência da longa exposição deixa as estrelas brilharem tanto.

12 dezembro 2014

cartas para o jornalismo

Em setembro deste ano, a professora Cremilda Medina (USP) ministrou um seminário na Faculdade de Comunicação da UFRGS. Foi uma despretensiosa – mas preciosa – aula a respeito das ferramentas desgastadas com a qual o Jornalismo perde forças diariamente ao promover a impessoalização das narrativas. Para falar sobre essas coisas, Cremilda contou muitas histórias de sua atuação profissional, como o perfil em primeira pessoa de Elis Regina e da vez que transformou doces poloneses em objeto de uma matéria sobre os sobreviventes do nazismo.

Para Cremilda, é preciso que o jornalista livre-se do ego assinante e assuma-se como autor da mediação social. É preciso que supere o medo de ferir o autor com o eu lírico - querela há muito já resolvida pelas Letras. É preciso lembrar que não existe um “jornalismo literário”, pois toda escrita é literária (que pode ser expressiva ou não: a estilística vem do acontecimento); que todo jornalismo é cultural, pois tudo que se faz na esfera de produção de sentido é produção simbólica de um jornalismo que é leitor e autor cultural. É tarefa do comunicador social criar ambientes transdisciplinares entre os conhecimentos (do senso comum ou da ciência). A pesquisa em arquivos ou na internet nunca é suficiente para fazer Jornalismo, é preciso estar afeto ao mundo e atento às metodologias da história contemporânea, que nos ensinam sobre a superação de uma racionalidade esquemática. A interpretação – a qual objetiva o jornalista e o leitor do jornalismo – precisa ser mestiça de racionalidade e sensibilidade para compreender a realidade.

As atividades terminaram com a sugestão de um pequeno laboratório: reescrever reportagens publicadas na imprensa brasileira. A mim coube recontar algumas histórias sobre a epidemia do Ebola. Foram cinco já ótimas matérias publicadas na Folha de S.Paulo entre os dias 18 e 20 de agosto, além da ajuda de um conto da literatura moçambicana de língua portuguesa. Utilizando-se as noções de polifonia, polissemia e cumplicidade de Cremilda Medina, esta matéria transforma a reportagem em relato, como se os enviados especiais contassem sua história através de um terceiro repórter, sujeito oculto.

As reportagens e o conto referidos foram estes:
'Nada nos preparou para o medo permanente' (Patrícia Campos Mello, 18/ago/2014)
Sobreviventes do ebola (Patrícia Campos Mello e Avener Prado, 18/ago/2014)
Ebola leva terror a aldeia africana (Adam Nossiter, 19/ago/2014)
Ebola por dentro (Patrícia Campos Mello e Avener Prado, 19/ago/2014)
'Epidemia de medo' marca surto do ebola (Patrícia Campos Mello, 20/ago/2014)
As mãos dos pretos (Luís Bernardo Honwana, no livro "Nós Matámos o Cão-Tinhoso", de 1964)

Segue a matéria:

Cartas de Serra Leoa


Patrícia Campos Mello e Avener Prado foram enviados pela Folha de S.Paulo para Serra Leoa, no terceiro final de semana de agosto. A região está sofrendo desde o mês de março com uma forte epidemia do vírus do ebola. Na época da viagem, quase dois mil casos já tinham sido registrados na “zona do ebola”, região fronteiriça entre Serra Leoa, Guiné e Libéria, além da Nigéria.

Com sintomas iniciais parecidos com os da malária, o ebola mata cerca de 60% das pessoas que contamina. Orientados pelo Ambulatório do Viajante do Hospital das Clínicas de SP, os dois tomaram muitas vacinas antes de embarcar: malária, tétano, raiva, sarampo, poliomielite, meningite, febre tifoide, hepatite A e B. Além disso, um termômetro, utilizado por quase todos os profissionais que foram até o país para trabalhar contra a epidemia. É preciso monitorar a temperatura todos os dias.

Mãos que não podem tocar
Patrícia contou que ela e Avener estavam a caminho de Kailahun, distrito no extremo leste de Serra Leoa, local onde foram vitimados pelo vírus a maior soma de pessoas. No meio da estrada de chão batido, que já havia se transformado em pura lama, ficaram atolados. Demorou cerca de uma hora para que outros carros, caminhões da ONU e da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), também parassem. Alguns meninos do vilarejo, fracos mas sorridentes, foram chegando e tentando empurrar a caminhonete.

Se as mãos brancas dos pretos podem ter muitas origens – como nos conta o escritor moçambicano Luís Bernardo Honwana –, em Serra Leoa só importavam as consequências. Ninguém podia encostar sua mão em ninguém. Os meninos da vila que empurravam os carros e pediam fotos, avisavam, em inglês: “No worry, no touch”.

No comboio atolado na estrada, a médica sueca Karin Ekholm contou que ninguém mais encosta nos outros sem luvas e muito menos leva as mãos ao próprio rosto. “O vírus só é transmitido por contato com pessoas ou coisas, mas a doença é altamente contagiosa”. No hospital improvisado em Kailahun, todas as roupas dos dez novos internados diariamente por suspeita de ebola eram queimadas. O horror da contaminação chegava e eles agora entendiam o treinamento dado pela MSF sobre a pressão psicológica na cobertura de uma epidemia.


Estrada para Kailahun. Foto: Avener Prado

Para o hospital, a pé
Ao lado da epidemia do vírus, a epidemia do medo é maior para quem está hospitalizado. A infectologista italiana Lívia Tampellini contou para Patrícia que tem pesadelos em que suas luvas se rasgam e ela se contamina, ou que uma pessoa com ebola vomita em seus pés. A médica trabalha no hospital da MSF em Kailahun e, como frisou o fotógrafo Avener, “hospital” talvez seja mal entendido. Ele fez questão de fotografar a ala de alto risco em que trabalha Lívia, que nada mais é do que um espaço improvisado coberto por panos no chão, cadeiras de plástico e cordões laranja de isolamento ao redor.

Antes de chegarem à zona do ebola, os repórteres encontraram em alguns sobreviventes do vírus em Kenema, cidade do interior leonês no trajeto entre a capital Freetown e Kailahun. No período de 14 dias em que esteve na área de isolamento, Ahasan Kemokai, 34 anos, viu muitas pessoas morrerem. Sua prima e seu sobrinho de dez meses de idade. Seu colega de cama faleceu no intervalo em que Ahasan foi ao banheiro. Suas roupas, sapatos e celular foram queimados. Ele acredita que contraiu o vírus de sua mãe. Três dias depois da morte da mãe, Ahasan sentiu os primeiros sintomas. “Eu até desconfiei que fosse ebola, mas não se pode negar a mão à sua mãe”. Foi para o hospital a pé, vencendo mais de dois quilômetros e meio de estrada, para não contaminar ninguém no ônibus.

Os sintomas iniciais do ebola são febre intensa e repentina, acompanha de dores musculares e de cabeça. Em estágios avançados, acontecem diarreias, vômitos e sangramentos. A contaminação pelo vírus não acontece pelo ar, mas pelo contato com qualquer fluido corporal ou ainda pela ingestão de animais contaminados (como macacos e morcegos). Em 90% dos casos, a doença se manifesta após dez dias da contaminação.

Ahasan deixou o hospital de Kenema com um certificado de alta. Estudos apontam que pessoas que se curaram do ebola adquirem anticorpos e ficam imunes à doença. Mesmo assim, Ahasan conta que evita contato com sua esposa e não sabe se vai recuperar o emprego. As pessoas no bairro em que mora, dele nem chegam perto.


Ahasan Kemokai. Foto: Avener Prado

Enterros seguros
A Cruz Vermelha começou a promover os enterros seguros, evitando a preparação tradicional do corpo dos falecidos. O contato com os corpos contaminados parece ter sido uma das causas da avançada proliferação do vírus em Serra Leoa. Por isso, segundo o médico chefe de Kenema, Mohamed Bandi, a entidade instalou uma espécie de disque-denúncia, onde as pessoas avisam anonimamente sobre a possibilidade de contaminados escondidos nas casas.

Segundo o médico, a contaminação segue descontrolada porque muitas famílias preferem continuar com os doentes em casa, o que impede o monitoramento total por parte dos agentes de saúde. Mas mesmo nos hospitais a contaminação acontece. Uma das vítimas do ebola foi o maior especialista do vírus no país, Sheik Umar Khan. Faixas em sua homenagem estão em toda parte do hospital de Kenema.

Os estabelecimentos todos colocaram baldes com cloro nas portas. As pessoas devem lavar bastante as mãos para evitar a proliferação do vírus. Os técnicos dos necrotérios vestidos com uma roupa amarela de proteção e máscaras de oxigênio também tratam com uma solução de cloro os corpos contaminados. Os próprios trajes amarelos de proteção são incinerados depois da utilização diária.


Hospital na fronteira de Kailahun. Foto: Avener Prado

Abundância e escassez
O governo de Serra Leoa está isolando a zona do ebola (leste de Serra Leoa). David Keilie-Coomber, detentor do semiextinto cargo de chefe supremo do país, preocupa-se com a possível futura escassez de alimentos, devido ao suprimenro das atividades comerciais com a região. A preocupação aumenta com a situação das aldeias rurais, onde as palmeiras convivem com plantações de arroz e mandioca. O repórter do New York Times também no país, Adam Nossiter, conta que muitas aldeias estão vazias e os moradores acreditam que, com a morte de tantos agricultores, é capaz que não haja plantio de coisa alguma neste ano.

Enquanto isso, os gastos aumentam. Somente no hospital de Kailahun, são utilizados por dia cerca de 150 macacões amarelos de proteção, ao custo de 20 dólares cada um. Apesar do custo, o equipamento é necessário para os agentes de trabalham diretamente com a limpeza de fezes, vômito e sangue. No interior das tendas da MSF o uso dos macacões é obrigatório. Avener fotografou a preparação de um funcionário para ir à área de risco do hospital e escutou que o cheiro lá dentro é de cloro e sangue. Pacientes em estágio final da doença sangram pela boca, nariz e vagina.

Os médicos não ficam mais de 60 dias em cada posto, pois no trabalho assistem muitas pessoas morrendo e não podem tocar em ninguém durante meses. A médica Lívia confessou para Patrícia: “Às vezes nos abraçamos dentro da área de alto risco, todos vestidos de macacão, só para sentir algum contato físico”.

21 novembro 2014

as três idades da mulher

No trem, as três lado a lado. Era fácil perceber que pertenciam à mesma família, em três gerações. A cor rosa choque do vestido curto todo de renda, como dita a moda, destaca com eficácia o volume dos seios - talvez ainda mais pela ajuda do cinto de couro falso preto cheio de detalhes em dourado brilhante. O interesse no volume do colo era fortificado devido ao mistério instalado pelos longos cabelos pretos. Os fios escorridos tapavam parte do volume lateral, apagando as diferenças entre o tronco e os braços. Alto contraste com a avó, sentada por benevolência do cidadão do trem. Ali onde os seios caídos já se confundiam com o inchaço da barriga. Os cabelos, dessa vez, presos atenciosamente num coque perfeitíssimo, e fechados com louvor num adereço de brilho comedido. Nem mesmo a camiseta, também rendada, também de cor forte (laranja), como dita a moda, conferia sensualidade àquela que talvez hoje ocupasse mais os neurônios que os hormônios. Os olhos, pequenos, meio cansados, escondidos detrás de um óculos feinho de armação quase inexistente. Mesmo se eles não estivessem ali em cima, seja difícil dizer qualquer coisa, porque não paravam de olhar para a paisagem pela janela, distante. O queixo mascava alguma balinha, ou a própria língua. Ali do lado, outra boquinha parecia triste. Cada ponta os lábios caidinhas para baixo, talvez por imposição das imensas bochechas. Era a mais nova. Os cabelos presos para trás numa longa trança de lisos fios pretos, que a faziam parecer, de frente, próxima da avó, e, de costas, da irmã. O penteado caía com graça em cima de um vestido leve mas comportado de flores rosa num fundo amarelo, bastante veranil. Aquele corpo gordinho talvez não ficasse bem com rendas - como diz a moda. Os olhinhos redondos e curiosos apontavam para talvez uns 8 anos. Da irmã é difícil dizer, porque estavam guardados por um grande óculos escuros, numa aparência rebelde.


As três idades da mulher, Gustav Klimt

04 novembro 2014

dorine,



"... um amor que é o fascínio recíproco de duas pessoas por aquilo que elas têm de menos dizível, de menos socializável.”

Esse é um trecho de Carta a D., de André Gorz, o livro que mais gostei nos últimos tempos.

Escrito em 2006, a longa carta/pequeno livro de poucas 60 páginas é um relato, resumo, retrospectiva da vida a dois de André e Dorine. Quando terminei o livro, dentro do avião, comecei a chorar e graças a deus as luzes acenderam para a hora do lanche e pude voltar à consciência. Tive alguma dúvida na hora de escolhê-lo na livraria. Não conhecia o autor - e, convenhamos, uma carta de amor talvez seja a melhor maneira de conhecer qualquer escritor. Então, me convenci fortemente com as primeiras linhas:

"Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros , não pesa mais que quarenta quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do me peito um vazio devorador que somente o calor dos eu corpo contra o meu é capaz de preencher."

André Gorz é um filósofo e cientista político que fez parte do cenário pós-existencialista francês e deu caldo para as críticas de Maio de 68 e as abordagens sociais progressistas posteriores, como a ecologia. Dá para conhecer um pouco mais do seu trabalho intelectual neste artigo: Por uma sociedade do tempo liberado.

13 outubro 2014

ciência, substantivo feminino

Atingir o topo da carreira científica no Brasil significa ostentar o posto de pesquisador nível 1A do CNPq. Dos cerca de 180 pesquisadores mais bem cotados da UFRGS, somente 19 são mulheres.

Cuidando para não cair numa polarização exagerada, é preciso lembrar que o feminino desempenha papéis que os homens não desempenham. Sendo as pesquisadoras mulheres a minoria do cenário das descobertas científicas, elas precisam também neste ambiente provar sua equanimidade de capacidades? As instituições apoiam o ciclo de vida de mulheres ou ainda atender e premiam somente as lógicas de vida do masculino? Paras as mulheres-mães, como criar os filhos numa carreira tão absorvente como a da docência e da pesquisa? Porque a progressão profissional nas universidades não contempla o afastamento para gravidez e amamentação? Você sabe se bolsistas de pós-graduação têm direito a licença maternidade? Ainda: um número menor de mulheres significa a retirada do feminino nessas relações de pesquisa? Está em falta a ternura, virtude tão desencorajada aos homens e nos centros de pesquisa, masculinizados biológica e afetuosamente?

Vamos para outras perguntas, passa ou repassa: diga rápido uma renomada cientista mulher brasileira. Diga agora, homens. Lembrem das leituras na faculdade, quantas mulheres embasam sua pesquisa teórica? Agora pensem, homens. Se as mulheres hoje estão em maior número nas universidades, talvez demore para esse processo afirmativo se refletir nos cargos superiores e nas referências de pensamento.

Para quem entende literalmente o feminino e o masculino, é fácil cair no pensamento a respeito de diferenças genéticas. Um pode isso, outro pode aquilo. A respeito disso, o maravilhoso astrofísico Neil Tyson tem uma boa resposta: "Numa sociedade dominada por homens brancos, é muito difícil você estar fora das expectativas a respeito do que você deve ser. Caso você seja uma mulher ou um negro. Antes de começarmos a falar de diferenças genéticas, precisamos criar um sistema de oportunidades iguais".



Para saber mais, o livro Women Scientists in the Americas publicou depoimentos de pesquisadoras sobre o tema.

Por isso, convido para o lançamento de um projeto fotográfico que encontrou as poucas cientistas brasileiras, na mãe UFRGS, que absorveram e superaram os desafios em cada esquina!

Abertura da exposição Ciência, substantivo feminino
Fotos da minha orientadora, mulher, cientista, Ana Taís Portanova
quarta 15 outubro, 18h
Saguão da Reitoria da UFRGS
Campus Central - Porto Alegre

08 outubro 2014

pela vida das mulheres

Compartilho aqui a fala maravilhosa deste domingo no Ato pela descriminalização do aborto e legalização da interrupção voluntária da gravidez. Foi uma fala de fazer chorar. Obrigada, meninas.



Agosto de 2014, Rio de Janeiro.
Jandira Magdalena dos Santos Cruz, 27 anos, duas filhas.
Pagou R$4500,00 para interromper uma gravidez indesejada. Pagou mais do que isso: pagou com sua vida. Morta, teve seus dentes, braços e pernas arrancados. Seu corpo foi encontrado queimado e jogado em um carro abandonado.

Setembro de 2014, Niterói
Elisângela Barbosa, 32 anos, 3 filhos.

Pagou R$2800,00 por uma condenação à morte. Ela também queria interromper uma gravidez indesejada. Com um tubo de plástico no útero, seu corpo foi abandonado em um hospital público. Teve seu útero e intestino perfurados.
Nascer no Brasil condenou essas mulheres à morte. Estariam vivas se tivessem nascido a menos de 500km de Porto Alegre, no Uruguai.

No dia 17 de outubro de 2012, o senado uruguaio aprovou a descriminalização do aborto e nenhuma mulher que realizou aborto legal morreu até então. O único erro de Jandira, Elisângela e de uma mulher que morre a cada dois dias no Brasil, foi ter nascido aqui. Neste país que criminaliza as mulheres que desejam interromper a gravidez.
O debate sobre aborto não é novidade, pois foi realizado exaustivamente ao redor do mundo. Uma parte do mundo escolheu por salvar as mulheres e outra parte, como o Brasil, escolheu condená-las à morte.
“Com uma legislação medieval e miserável, condenamos as mulheres a se submeterem a um procedimento do qual não sabem se sairão vivas. O que eu to dizendo pra vocês é que são mulheres que desejam com tanta força não estarem grávidas que estão decididas a morrer se for necessário.”

Quantas mulheres mais nós vamos permitir que sejam mortas? Quantas crianças agora sem mãe, quantos pais sem suas filhas, famílias sem irmãs, companheiras, quantas amigas mortas?

Eu quero fazer um pedido a vocês: olhem ao redor! De cada 5 mulheres que vocês estão vendo agora, uma já fez o aborto. Eu vou repetir: de cada 5 mulheres que vocês estão vendo agora, uma já fez o aborto.
Ao contrário do que se acredita, as pesquisas mostram que essas mulheres são de todas as classes sociais, e a maior parte está acima dos 25 anos, 81% já tem filhos, 64% são casadas e 91% são religiosas (católicas, evangélicas e protestantes).

A vida dessas mulheres não vale nada? Elas merecem ser presas? Elas deveriam estar mortas? A vida das nossas mulheres vale menos que a vida das uruguaias, italianas, canadenses, sul africanas, inglesas...? Por que no Brasil elas são condenadas ao corredor da morte?

Hoje é 28 de setembro. Dia latino-americano e caribenho da luta pela descriminalização e legalização do aborto. Nós estamos a uma semana das eleições, há meses sendo inundados por propostas, debates e promessas. Mas sobre o aborto pouco é dito.

Fica cada vez mais claro que essa questão não é abordada com a seriedade devida. Esse assunto que é tão caro a todas nós mulheres é mantido como um tabu, por pragmatismo, dogmatismo ou mera covardia. E assim continuamos jogando as mulheres para a clandestinidade e as condenando à morte e ao julgamento público.
É por esse motivo que nós saímos às ruas hoje. Para lutar pelas nossas vidas e pelo nosso direito de fazer escolhas sobre o nosso próprio corpo.

Esse ato visa trazer o debate a público e dizer que não vamos mais aceitar o silêncio. Não pedimos 1 minuto de silêncio por todas essas mortes. Queremos dias e noites de luta para garantir que outras vidas não sejam perdidas.
Pela legalização e pela descriminalização do aborto. Por um Brasil que também seja das mulheres!
LEGALIZE!
O CORPO É NOSSO!
É NOSSA ESCOLHA!
É PELA VIDA DAS MULHERES!

24 setembro 2014

legalizar a vida

Na noite de ontem (23/09), o Jornal Nacional exibiu suíte da matéria a respeito da última morte registrada no RJ por consequência de aborto em clínica despreparada. A funcionária da clínica despreparada será indiciada, e o "falso médico" está foragido, por crime de aborto - sem aspas, é isso mesmo que é. O preço, segundo o valor que ela portava na bolsa, 2 mil e 800 reais. a gravidez tinha 5 meses, ela tinha três filhos.

Morre segunda vítima de aborto em menos de um mês no Rio 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a cada dois dias no Brasil uma mulher morre por consequência de aborto inseguro. O que significa "aborto inseguro"? Aborto de pobre. Aborto feito em clínicas com péssimas condições, aborto barato, aborto feito por mulheres que preferem pagar para se submeter a esse risco tremendo do que viver sem conseguir sustentar um filho, ou por consequência de um estupro, ou por vontade do marido mesmo.

Cartilha "Abortamento seguro: Orientação técnica e de políticas para sistemas de saúde" da OMS

Aborto clandestino? É todo o tipo de aborto feito até agora no Brasil: aborto é crime. Mesmo os abortos feitos por mulheres ricas. Sim, elas também ficam grávidas sem intenção. Sim, elas também abortam. abortam em clínicas bem seguras, com procedimentos muito bem pagos, por profissionais muito bem requisitados na sua cidade. médicos de universidades, médicos de grandes hospitais, médicos de clínicas caríssimas.

Segundo a Pesquisa Nacional de Aborto, uma em cada 7 brasileiras jovens já escolheram se submeter o procedimento Até os 40 anos de idade, uma em cada 5 mulheres do país vai fazer um aborto. Esses são, obviamente, números mínimos, pois muitas mulheres, por razões óbvias, não relataram sua escolha.

Você sabe quanto custa um aborto em clínica médica na sua cidade? Você sabe quantas pessoas ao seu redor já escolheram interromper uma gravidez - por inúmeros motivos? Você já parou para pensar que não existe outra opção para as mulheres que optam por manter a gravidez e não têm como manter os filhos?

Por essas e muitas, muitas outras coisas, convido para o ato deste domingo, 28/09, no Parque da Redenção em Porto Alegre. Ato pela descriminalização do aborto e legalização da interrupção voluntária da gravidez. A partir das 14h haverá aula pública sobre o tema, onde podemos discutir possibilidades.

Defender a legalização do aborto significar defender a regulamentação de procedimentos por clínicas seguras, legalizadas. acompanhamento médico para as pacientes.

Divulgue, convide os amigos. Não deixe a lei matar pessoas.


22 setembro 2014

o céu dos justos

Este projeto maravilhoso: Conversa Suja, da jornalista Anna Virginia Balloussier e do fotógrafo Gabriel Cabral é fotógrafo. 69 histórias sobre sexualidade, lato sensu.




Márcia Pantera foi para o “Inferno”.

Exibido na Bienal, essa videoarte simula a destruição do Templo de Salomão “made in Brás” da Igreja Universal. É o primeiro tapa de Pantera como atriz. Pôs os cílios postiços de sempre, mas abdicou da costumeira peruca loira para interpretar um líder religioso que lembra o papa católico e lidera uma igreja similar à do evangélico Edir Macedo.

A drag queen Márcia Pantera, de dia, é o vendedor Carlos Márcio. Cinco vezes por semana, ele pilota sua scooter Cyticom 300i branca de Brasilândia até Santana, onde trabalha numa loja “arraso” de sapatos, bolsas e acessórios.

A porção felina é um “arraso” que começou em 1989. Márcio assistiu à travesti Marcinha, “uma negra liiiiiinda de cabelo até a cintura”, brilhar muito na Corintho, famosa boate gay em São Paulo e decidiu também se montar.

Pediu “licença poética” para adotar o sobrenome de Marcos Pantera, irmão de Monique Evans. Como Márcia Pantera, virou ícone da noite paulistana e musa do estilista Alexandre Herchcovitch –que conheceu na porta da Nostro Mondo, lendária casa na rua da Consolação onde Adriane Galisteu já foi confundida com uma drag queen.

Márcio descobriu ser gay lá pelos 10 anos, após beijar uma namoradinha. Achou que ela “babava muito”. E foi só. Já os meninos da classe, esses sim lhe davam água na boca.

Aos 17 anos, escreveu no diário os sonhos eróticos que tinha com seu professor de natação, “um loiro alto de olhos azuis”. Hoje ri dos amigos que se dizem ex-gays “curados” pelo pastor. “Como, se passa um homem sem camisa e o cara olha?”

Nada contra igrejas. Ele vai em várias. “Por trás da drag existe o Márcio, que é religioso ou o que quer que seja.” Frequenta cultos evangélicos, dá uma passadinha em terreiros de macumba e foi crismado na Igreja Católica, com “toda aquela palhaçada de quando a gente coloca a roupinha de menininho branco”.

Perto de sua casa tem dois templos evangélicos que aceitam a vida como ela é: colorida que nem sua cartela de maquiagem. Bem diferente da Universal, que trava uma “guerra pelo seu corpo”, diz.

Na casa do bispo Edir, diz, “tentam fazer lavagem cerebral pra você se tornar um homem, seguir uma regrinha, ter mulher, filho. Mas homem eu já sou”.

E este homem que fala grosso sob o salto fino tem uma certeza: Márcia Pantera vai para o céu.

08 setembro 2014

mar de peixes mortos

Fui a Foz do Iguaçu e vi mamãe Oxum na cachoeira. Naquela quarta-feira, parecia que as Cataratas seriam a maior coisa que eu já teria visto na vida.

Aí fui conhecer a Usina Hidrelética Binacional de Itaipu. Para quem perguntou sobre o tamanho: é enorme. Tanto que a gente perde a noção de perspectiva. Dizem que só o vertedouro (água excedente do fluxo principal que gira as turbinas) é 40 vezes a vazão média das Cataratas do Iguaçu.

Nas fotos, o "mar" artificial que o rio Paraná se tornou, do outro lado, a cratera que transforma energia cinética em elétrica. Diante do tamanho dessas coisas não tem como não pensar: imagina toda essa inteligência do homem servindo pra outras coisas.





10 julho 2014

novo cinema tcheco no brasil

Durante março, abril, maio e junho, alguns queridos e raros filmes thecos percorreram território brasileiro. A mostra de cinema Nouvelle Vague Tcheca: O outro lado da europa, patrocinada pelo Centro Cultural Banco do Brasil, esteve em caravana no CCBB e São Paulo e do Rio e na Sala P.F.Gastal em Porto Alegre.

A mostra, com curadoria de Gabriela Wondracek Linck, trouxe em película filmes decisivos na história da cinematografia do leste europeu. Como esta sequência de pérolas é um tanto obscura, Leonardo Bomfim organizou um catálogo com vários textos que contextualizam e dimensionam o valor dessas produções. O catálogo na íntegra está disponível no site da Vai e Vem, produtora do evento (link) - aproveitem para dar uma olhada em outros livrinhos de cinema bastante preciosos.

Participei da coletânea com um pequeno ensaio sobre Věra Chytilová, um dos nomes mais famosos dessa geração.



Věra Chytilová

Existem algumas coisas que precisam ser ditas desde o início sobre Věra Chytilová (1929). Věra foi a primeira diretora de cinema mulher de seu país reconhecida internacionalmente. Věra é a única diretora mulher da Czech New Wave. Além disso, é de Věra o mais famoso filme dessa geração. Věra é a Eva do cinema tcheco.

Os filmes de Věra Chytilová presentes na Mostra Nouvelle Vague Tcheca: O outro lado da Europa revelam a maturidade juvenil da cineasta. Em O něčem jiném (Alguma coisa de outro 1963), Sedmikrásky (As Pequenas Margaridas, 1966) e Ovoce stromů rajských jíme (Fruto do Paraíso, 1969), o universo idílico em campos verdes e floridos emolduram histórias que remetem ao poder da mulher, à fragilidade dos corpos e à profundidade das emoções. Věra, na época dos filmes exibidos vivendo a terceira década de sua vida, utilizava com sabedoria ácida elementos de sua juventude. A diretora passou a infância na Morávia, parte sul e menos urbanizada da atual República Tcheca. A paisagem campestre foi atravessada pelos revezes de um pai quase alcoólatra e de uma educação rígida num colégio de freiras.

Věra passou pela filosofia, moda, arquitetura e fotografia antes de chegar ao cinema. Começou a cursar FAMU, Escola de Cinema de Praga, somente aos 28 anos, onde conheceu seu marido e parceiro de trabalho, o fotógrafo Jaroslav Kučera.

Comumente descrita como uma cineasta feminista, este alcunha não é intencional muito menos imotivada. A diretora não se preocupa em defender o lugar da mulher ou questionar seu espaço da sociedade, ela simplesmente os assume como dados. Desagradando tanto moralistas quanto feministas da academia, Věra parece não estar preocupada em levantar nenhuma bandeira além da liberdade das mentes e dos corpos. Uma das frases mais conhecidas da diretora é a que define sua relação com a plateia: "eu não tenho nenhum desejo de mimar o público".

Věra é a Agnès Varda da Tchecoslováquia portando o relho de Margaret Thatcher. Não é incomum que ela responda sem piedade entrevistas de jornalistas inocentes demais. A falta de docilidade por parte da primeira-dama do cinema tcheco talvez seja efeito do esforço que a diretora fez para cavar um espaço de ação no contexto nada incentivador do leste europeu pré e pós invasão soviética.

Usando a virtude mais poderosa do que poderia ser descrito como o feminino, a da comunhão e transformação dos opostos, para a alquímica Věra, a cultura patriarcal não é uma inimiga de guerra, mas um combustível para que se animem e se liberem os corpos femininos. Como em Fruto do Paraíso, em que Eva dá uma reviravolta na convencional versão da história sobre a expulsão do Éden.

As heroínas de As Pequenas Margaridas são duas meninas estragadas cujos hábitos podem “envenenar os trabalhadores” incentivando o desperdício de comida e a devassidão, conforme observou o relatório da censura tchecoslovaca que baniu o filme do país em 1966. As margaridas podem e devem ter o direito de ocupar o mundo e configurar suas identidades através da ação prazerosa – e por isso, para a Věra, sobretudo política – se dar ao luxo do desperdício por lazer: gula e luxúria.

No entanto, se pouco esforçado em agradar a sociedade, o experimentalismo de Věra agradou desde cedo à crítica. As personagens femininas em paralelo, Eva e Jirka, garantiram ao primeiro longa da diretora, o elegante preto-e-branco Alguma coisa de outro, que vencesse o Mannhein Film Festival, onde foi realizada sua première. O sucesso posterior foi confirmado com o explosivamente colorido e radicalmente montado As Pequenas Margaridas, que venceu em 1966 o Festival de Bergamo, na Itália. Em 1967, o filme foi banido da Tchecoslováquia e o trabalho de Věra no cinema inviabilizado pelo governo. Ela ficou impedida de filmar nos estúdios de Praga e, escolhendo permanecer no país à revelia de um convite para viajar aos Estados Unidos, trabalhou em projetos em publicidade ao lado de Kučera.

Věra continua ativa e sem deixar muitos poréns moralistas atrapalhando seu caminho. No ano de 2000, aos 71, foi apreendida na Alemanha por filmar para um de seus últimos longas uma cena em que a própria neta aparece nua. Filmar menores nus configura pedofilia. Ela arranjou outra praia menos conhecida onde a polícia alemã não se lembrasse de colocar as leis em prática. Em fevereiro de 2012 um mal súbito surpreendeu a diretora que, passando dos 83 anos, respondeu aos jornais tchecos: "Mas eu não quero parar agora, neste mundo ainda tem muito coisa a ser feita".