11 fevereiro 2014

santiagos, black blocs e jornalismo


Homenagem feita por cinegrafistas em frente à igreja da Candelária

Morreu nesta segunda-feira Santiago Ilídio Andrade. O cinegrafista da BAND sofreu afundamento craniano e teve morte cerebral depois de ser atingido por um rojão lançado na última quinta (06/02) durante protesto contra o aumento da passagem de ônibus, perto da Central do Brasil no Rio de Janeiro.

Nenhuma morte deve ser menosprezada e não é fácil fazer jornalismo neste contexto. No entanto, cabe a nós, jornalistas observadores da imprensa, apontar alguns dados que precisam ser relembrados num momento em que a grande mídia explora cansativamente o caso.

Este não foi o primeiro caso de morte em protestos, desde o início da onda de manifestações, em março do ano passado. Muitos já morreram, como bem lembrou Eduardo Sterzi:

Antes morreram, pelo menos:

1. a gari Cleonice Vieira de Moraes, em Belém (PA), vítima do gás lacrimogêneo lançado pela polícia militar;

2. 13 mortos na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré (RJ) - neste caso, a imprensa sequer se deu ao trabalho de informar todos os nomes;

3. o estudante Marcos Delefrate, de 18 anos, em Ribeirão Preto (SP), atropelado por um carro que furou um bloqueio de manifestantes;

4. Valdinete Rodrigues Pereira e Maria Aparecida, atropeladas em protesto na BR-251, no distrito de Campos Lindos, em Cristalina (GO);

5. Douglas Henrique de Oliveira, de 21 anos, que caiu do viaduto José Alencar, em Belo Horizonte (MG), por ter sido acuado pela polícia militar. Luiz Felipe Aniceto, que saiu do mesmo viaduto, ficou um mês em coma e também acabou morrendo. No mesmo dia, depois de um toque de recolher ilegal, o morador de rua Luiz Estrela foi espancado até a morte.

6. o marceneiro Igor Oliveira da Silva, de 16 anos, atropelado por um caminhão que fugia de uma manifestação, numa ciclovia próxima à Rodovia Cônego Domênico Rangoni, na altura de Guarujá (SP);

7. Paulo Patrick, de 14 anos, atropelado por um táxi durante manifestação em Teresina (PI);

8. Fernando da Silva Cândido, ator, por inalação de gás lançado pela polícia, no Rio de Janeiro.

9. o senhor que foi atropelado por um ônibus, ao tentar fugir da polícia, na mesma manifestação em que o cinegrafista Santiago foi atingido - sobre esta outra vítima, nenhuma linha na imprensa. Chamava-se Tasman Amaral Accioly e era vendedor ambulante.

As imagens também mostram outro fato bastante interessante: o cinegrafista não usava nenhum equipamento de proteção individual - não obrigatório mas altamente recomendado para repórteres que cobrem conflitos. A TV Bandeirantes teria não fornecido? É o que o quer saber o MPT.

Fábio Raposo foi se apresentar à Polícia, segundo ele, pela divulgação de sua imagem chegando inclusive na mídia internacional. Quantos policiais não se importaram com a divulgação do número de mortos em conflitos (como os acima), visto que muito raramente seus rostos são registrado e veiculados pela grande imprensa?

"Black Bloc mata cinegrafista"

Os canais da Band e da Globo - e todos os que copiam os textos dessas duas mídias no Brasil - não se cansam de chamar os possíveis responsáveis* pelo acidente** de manifestantes do Black Bloc. "Possíveis responsáveis": o jornalista não pode presumir culpabilidade do suspeito. Preocupação que muitas vezes, como agora, não é tomada por parte de matérias feitas rápida e irresponsavelmente. "Acidente": é de se imaginar que os "acendedores do rojão" não miraram na vítima. O rojão não tinha um alvo. Este tipo de crime seria, portanto, culposo (negligência, imperícia) e não doloso (intenção, vontade).

Ir às ruas com o rosto coberto não é o suficiente para parte do "grupo" Black Boc. A tática geralmente é organizada, com objetivos bem definidos e participantes bem reconhecíveis, eles se vestem totalmente de preto (por isso, black bloc). Bloc é um "bloco", em inglês.

Agora vamos lá: Black Bloc? Vamos aqui fazer um breve esclarecimento sobre o que seria o tal grupo. (Estas explicações talvez sejam necessárias somente como mais uma das consequências de enviar jornalistas despreparados para produzir matérias sobre assuntos que não entendem. Não há jornalista o bastante para tantas pautas, pesquisa e apuração o bastante para pouco tempo, boa-vontade das empresas o bastante para primar por um conteúdo de qualidade. Também, num país com monopólio de imprensa, quem iria se preocupar com qualidade?)

FAQ Black Bloc

Algumas dúvidas frequentes respondidas por rápida pesquisa sobre o assunto:

Quem, quando, onde? O Black Bloc não é um grupo. O Black Bloc é uma tática de protesto que surgiu na Europa nos anos 1980. Esta é uma ação conduzida por grupos anarquistas – o que não significa bagunceiros.

O que? O anarquismo é uma visão política embasada em alguns pilares essenciais, tais como a discordância com o monopólio da autoridade política e da propriedade privada e a defesa da liberdade individual e da sociedade baseada no apoio mútuo (algo como a junção do "melhor do comunismo e do liberalismo", como apontou Cindy Milstein em seu livro).

Como, por quê? A intenção do Black Bloc é, resumidamente, demonstrar aos governos a "força popular". Por isso os ataques (sempre intencionalmente alvos materiais e não sujeitos) são contra estruturas de grandes corporações (indústrias, bancos). Eles organizam ações e dispersão organizada posteriormente. É como se fosse, ainda mais resumidamente, um grupo paramilitar de livre adesão que é contra o militarismo e suas técnicas de coerção psicológica e uso de violência contra sujeitos.

Não vou entrar no mérito se a conformação desta técnica é uma consequência de ideias de esquerda com posicionamentos de direita (como citou Alberto Dines), pois isso é trabalho para sociólogos e cientistas políticos e este é só um breve comentário em primeira pessoa de uma jornalista.

03 fevereiro 2014

não vai ter copa



Clareando ideias àqueles a quem talvez falte um pouco de poesia:


Àqueles que duvidam da sutileza intelectual alheia, uma tentativa de explicação: Não vai ter Copa significa a negação radical do que é a Copa do Mundo tal qual ela é no mundo realmente existente, e não na fantasia daqueles que reclamam o espírito esportivo, a união dos povos e essas coisas que constam no manual da Fifa ou nos álbuns de figurinhas. (...)

Ao dizer que não vai haver Copa do Mundo, o que se está a afirmar é que não haverá consenso nacional algum; que uma parte da população não é estúpida o suficiente para endossar sorridentemente a rapina; que as manchetes e videorreportagens das vitórias e derrotas das seleções em campo terão que dividir espaço com o noticiário das ruas apinhadas pela multidão em protesto, as bombas da polícia, a violência arbitrária do Estado e manifestantes presos e/ou feridos no país do futebol.


Vale a pena a leitura > Por que "Não vai ter Copa"?


Os governos têm feito sua parte para ajudar… os cartolas. Com isenção de cerca R$ 1 bilhão em impostos, o Mundial no Brasil já é um ótimo negócio para a entidade. Ao todo, cerca de R$ 28 bilhões serão gastos em obras de infraestrutura e construção e reforma de estádios para receber o torneio. Desse montante, quase R$ 8 bilhões estão sendo gastos em estádios. Metade desse valor é financiada por bancos federais. Apenas R$ 820 milhões gastos nos estádios foram financiados com recursos privados (segundo valores da CGU). O restante dos recursos foi aportado por governos locais, como é o caso de Brasília, onde o valor do Mané Garrincha passou de R$ 1,2 bilhão.

Cerca de um terço do valor total das obras (R$ 8,7 bilhões) está sendo financiado por bancos federais – Caixa Econômica Federal, BNDES e bancos estaduais. Boa parte desses empréstimos é tomada pelos próprios governos estaduais, sozinhos ou em parcerias com o setor privado, embora alguns empréstimos também sejam contraídos por entes privados (como os mais de R$ 400 milhões liberados pelo BNDES para o Corinthians construir o Itaquerão).


Esses e outros números estão no texto Vai ter Copa. Só não para você.

22 janeiro 2014

rolezinho na confusão

Há 14 anos, a periferia também foi ao shopping: o MTU, Movimento dos Trabalhadores Urbanos organizou uma "tomada" ao RioSul, na zona sul do Rio. Alugaram ônibus para, segundo matéria n'O Globo da época, "tornar a miséria visível". O documentário da GumeFilmes entrevista alguns dos manifestantes - aqui nenhuma exclusividade de adolescentes - 7 anos depois do episódio.

A Polícia afirma que impediu a entrada em algumas lojas com medo de atitudes violentas, mas, como diz Ivana Bentes no curta, não conseguiu impedir essa centena de pessoas de atravessar a parede invisível da distância socioeconômica e "comer um pãozinho com mortadela no shopping". Vale a pena assistir os 20min:



Este foi um ato midiático bem pensado e organizado. Mas a classe C naquela época era outra. A denúncia era sobre o abuso do consumismo ao lado da perseverança da pobreza.

Para entender o rolezinho de hoje, talvez seja melhor concentrar no desespero lojista, materializado pela expressão da vendedora de roupas em Hiato. As marcas estão desesperadas em perder a margem.


Gordon Parks - Outside Looking In, Mobile, Alabama, 1956

Com a ascensão do poder econômico da classe C no Brasil, os últimos governos do PT inseriram este esforço num contexto latinoamericano em que a esquerda tentou desenvolver a economia local através do aquecimento do mercado interno. Aumento do salário mínimo, achatamento do funcionalismo público. Essa crescida econômica desse grande contingente populacional, no entanto, não impediu de forma alguma (ainda: inflacionou) a contínua acumulação de riqueza por parte dos mesmos velhos centros de poder, a saber, velhas oligarquias do comércio, do agronegócio e da política.

É sobre um Brasil que ainda não é um país de classe C que o professor da FGV Gustavo Andrey Fernandes fala. O status social brasileiro está, desde a recônditas eras do colonialismo, ligado a "quem pode pagar mais". Estão, infelizmente, cooptados pela lógica da marca (para vestir, comer, consumir) os jovens que "dão um rolê" hoje pelo shoppings.

Me atrevo a dizer que talvez o problema aqui - além de reiteradamente étnico - seja mais social do que racista. Dos problemas da persistência desses padrões de diferenciação socioeconômica: "Um funcionário da Nike uma vez declarou para a pesquisa: 'nós nos envergonhamos desse fenômeno de apropriação da nossa marca por esses marginais'. Mas eles nos diziam: 'as marcas deveriam nos pagar para fazer propaganda, porque nos as amamos. Sem marca, você é um lixo'." (tirado desta matéria).

O rolezinho de hoje pode ser talvez um ato político - sem querer. Ato político pela deliberada reação previsível do poder privado e público: restrição de acesso, apartheid (?). Mas num país de negros e mulatos como o Brasil, restringir aos pobres o acesso ao ambiente construído para os ricos pode ser visto de maneira enviesada numa análise rápida. O que interessa, segundo o professor Fernandes, à luta preservacionista dos shoppings é: garantir que os ricos continuem querendo comprar no ambiente construído para eles, não importa sua cor. Mas não é difícil ingressarmos rapidamente na discussão que permeia a das cotas raciais e econômicas nas universidades, visto que é preciso dar visibilidade à pluralidade étnica brasileira como primeiro passo para uma forçosa mudança social.

PS: Na foto de Gordon Parks, crianças negras olham para um parque destinado exclusivamente para brancos, quando em alguns estados dos EUA vigorava o regime institucionalizado de segregação racial. Outras fotos incríveis dele aqui.


17 janeiro 2014

sexo proibido

- Ela tinha uma tatuagem nas coxas!

Ouvi o servidor reclamar, intrigado com a sensualidade vamp da intrépida Juíza.

- Mas ela já tem idade!
- Ah mas tinha uns olhos...

Meus freios apitaram. Mas ora, veja bem: o problema aqui não creio ser de machismo. Pensando bem, também é condenável um governador atraente, um Juiz com mãos provocantes, uma governadora com tatuagem na perna. O que dizer da professora universitária? Decote jamais. Nossa questão aqui é a dessexualização dos corpos

Funcionário públicos dessexualizados: isto não é uma coisa positiva, pessoal. Crianças que não encaram com naturalidade a mudança nos seus corpos não é legal. Mulheres que passam a vida sem conhecer a masturbação: tem algo de errado aí.



Estamos acostumados a não permitir aos corpos que se sexualizem. Socialmente, fazê-lo é uma aberração. No entanto existe uma boa distância entre o atentado violento ao pudor e o sex appeal. E frente a este problema - assumir e gostar de ser sensual, como a juíza que não evitou mostrar um pedaço de sua tatuagem na coxa - as leis são ainda mais fortes porque não são escritas mas veladas.

As pessoas, todas, têm direito ao sexo. Têm direito ao prazer. Não sentir prazer, não provocá-lo, não desejá-lo é sintoma - aí sim - de destempero social. A libido é propulsora - pelo menos no quesito estritamente químico - da preservação da espécie. E não digo aqui somente porque ela provoca a concepção nas fêmeas, mas porque anima a proteção entre os indivíduos (quem ama, cuida), a organização dos seres em grupos (famílias societais), a compreensão de que temos instintos como os outros animais e todo o entendimento decorrente desta aproximação.

Ainda mais, a sexualidade, quando assumida, liberta. Liberta porque está relacionada ao fazer. Quem ama, quem trepa, quem goza, faz. Faz, provoca a mudança, age, não espera na inação. Estimular, então, o conhecimento do sexo numa sociedade cívico-falida é abrir as portas para a revolução, para a não-obediência, estimular a juventude em potência que existe em seres de qualquer idade.

Sexualizados de todo o mundo, uni-vos!


Montagens sobre os cartazes de divulgação do filme de Lars Von Trier. Essta última é do nosso zine.

15 janeiro 2014

um novo músculo

Estamos lançando um zine em Porto Alegre nesta semana! MÚSCULO é uma publicação independente de artes e cultura que reúne uma produção preciosa em visualidades e palavras. A edição é feita por Pedro Cassel, Ricardo Ambus e por mim.



Esse novo músculo quer exercitar a conexão, fazer trabalhar nossa juventude, usar a nossa força de vontade, colocar nosso mundo em tensão. Se temos alguma grande pretensão - e que entendam isto mais como uma inspiração poética e não megalomaníaca - é de ser um pouco a Gertrude Stein da nossa época. Queremos dar palco, voz para os trabalhos incríveis que centenas de pessoas sensacionais têm realizado por perto dos nossos limites pessoais. Queremos descobrir coisas novas, pensá-las dentro do nosso contexto e trazê-las a público. Com o zine, pretendemos contribuir também para a a discussão acerca da necessidade de relacionar arte e crítica social. Para isso, MÚSCULO #1 traz manifestos e relatos de vivências que testemunham a ligação entre fazer arte e pensar o mundo. Assumindo a necessidade de não estarmos alienados podemos incorporar mudanças nas atitudes do nosso cotidiano - e assim ajudar a mudar mesmo o mundo.

A cada três meses um novo músculo vai aparecer pela cidade, junto à orquestra de batimentos que criam a trilha sonora da Porto Alegre da nossa vontade. A tiragem é de 300 cópias. A publicação é vendida a preço de custo e não possui nenhuma publicidade.

Contribuem para a primeira edição: Gabriel Pessoto, Igor Natusch, João Gabriel de Queiroz, João Kowacs, Letícia Zenevich, Luiza Abrantes, Rafaela da Rocha, Ricardo Philippsen, Vítor Jochims e a Sessão Plataforma com uma entrevista com o cineasta Nicolas Provost.

Estivemos falando sobre o zine na tarde dessa quarta-feira no programa Fogo no Bunker, de João Kowacs. Uma reprise vai ao ar neste sábado, a partir das 20h, na minima.fm.



O MÚSCULO vai às ruas pela primeira vez nesta quinta-feira, 16/01. O lançamento acontece no show dos amigos da Trabalhos Espaciais Manuais, uma banda massa de Porto Alegre que capricha no groove instrumental.

Lançamento do MÚSCULO #1+ Show da Trabalhos Espaciais Manuais
QUANDO: quinta 16/01, a partir das 21h
ONDE: La Estación PUB - Miguel Tostes 941, Bom Fim - Porto Alegre
QUANTO: $7 show + $5 zine
Chegue cedo para garantir sua primeira edição do zine!

Para saber mais sobre o zine: fb.com/musculozine

28 dezembro 2013

a melhor parte


Louise Bourgeois fotografada em 1937 (26 anos) por Brassaï. Nesta época, no atelier em Paris, ela não havia definido nenhum caminho para sua criação artística - e talvez nunca tenha definido.

Que lindo seria se a melhor parte dos outros fosse também a maior parte. Se além da parte principal, a melhor face, o melhor ângulo, a melhor fala, os insights fossem o estado natural das coisas. Mas eles infelizmente não são.

O problema está em lidar com somente a melhor parte dos outros.

É complicado olhar para trás e enxergar somente uma Susan Sontag perfeita. Uma Louise Bourgeois totalmente coerente em seu trabalho de arte, sabendo desde o início o que queria fazer.

Estes pequenos desvios de conduta - ou a falta deles - são talvez o que meu amigo e historiador Pedro Cassel chama desta síndrome biográfica do "meant to be". Os artistas nasceram para assim serem, para fazer todos estes trabalhos maravilhosos que eles fizeram ou ainda fazem, cada acontecimento de suas maravilhosas vidas desencadeou uma série de fenômenos divinos ou naturais que os levou para onde estão hoje, este lugar que é o palco da história. O ápice da coerência, do talento, do primor: a certeza de que o lápis quando encostado no papel só vai fazer o que é certo, que da boca não vai sair nota errada, que os dedos conduzirão melodias impecáveis. Se falta aos biógrafos, jornalistas, resumidores de "the best of" uma paixão pelo erro, falta à historiografia valorizar também aquilo que não importa.

Como é bom errar. Como é bom encontrar nos outros - ainda mais naqueles que admiramos - a incoerência.

Por exemplo: me importam os rascunhos de Clarice Lispector. Me importam os contos não publicados de Cortázar. Me importam os versos guardados na gaveta de João Cabral de Melo Neto, esperando anos pelo poema certo sob o qual repousar. Mas me importam pelo interesse que tenho nessas pessoas, para entender a evolução do seu trabalho, como chegaram lá e como um dia não foram tudo isso ao qual se resumiram.

Me interessa se o bife que Billie Holiday cozinhava era bom. Me interessa o ensopado de camarões de Gilbert Durand. Me interessa os desenhos de Federico Fellini. As fotos de Agnès Varda. Me interessa as crises de Louise Bourgeois, Susan Sontag, Pedro Cassel.

Sobretudo me interessa o que é humano, e não transcendental - esta apensar uma possibilidade em muitas. E é somente esse interesse que me possibilita perceber, por exemplo, as incríveis fotos que a minha editora na agência de notícias faz, os desenhos absurdos que um ex-militar da força aérea faz, as mãos jardineiras de uma professora de física. Uma série de maravilhas anônimas, que nos circundam diária e insistentemente. Ou aquilo que eu mesma posso fazer.

Interessa essa parte porque essa é a parte humana desses personagens - o que não é a "melhor parte" neles é o que nos faz ter a garantia de que, quando vivos, como nós, não eram personagens, mas sim pessoas. E como pessoa eu devo ter o direito de não viver uma vida de insights e somente de melhores partes.

23 dezembro 2013

divagações sobre a hora-bunda

Que é a hora-bunda além de mais uma maneira industrial de conduzir nossa vida?

Se a produtividade na fábrica é medida de acordo com a quantidade de tempo ao longo da qual aplicamos nossa força de trabalho, é curioso pensar que o mesmo cálculo seria utilizado para trabalhos não-braçais, ou, como dizem "intelectuais" - sendo que, para mim, um intelectual que se presta a produzir intelectualidades sob a pressão da eficiência industrial é talvez menos intelectual.

Na minha breve e valorosa experiência como demissão voluntária e desemprego criativo entendi o benefício do ócio. Ócio não é a não-criação, mas o tempo livre que sua cabeça precisa para viver e não só produzir. Em 2h termino um trabalho designado para um dia de 8h de trabalho - com intervalo para almoço. O que faz uma cabeça descansada! Que foco e que paisagem não vêem uma mente que teve tempo para refletir e organizar-se internamente.

Em resumo: prefira dar meia hora de bunda que meia hora de hora-bunda.

Jamais fomos modernos.

12 dezembro 2013

universo Urban

Colette Urban é uma artista norte-americana que produziu uma série incrível de performances e instalações desde a década de 1980 até o início dos anos 2000. Depois de ter sido professora de artes na Universidade de Western Ontario, se aposentou e foi morar num sítio em Newfoundland. Conhecida como "Terra Nova", a região canadense é famosa pelos seus labradores gigantes (a província "Newfoundland and Labrador" é o local de origem do ancestral da raça de cães). Nesse lugar, Urban criou uma combinação de fazenda orgânica e residência artística, o Full Tilt Creative Centre .

É possível ver algumas das performances e um pouco da casa de Urban com o documentário Pretend Not To See Me. Conheci a artista e o filme na mostra Temps D'Images, versão brasileira da famosa mostra de Lisboa organizada por Pedro Henrique Risse e Rajele Jain em Porto Alegre durante dezembro de 2013. A direção é de Katherine Knight, que em 2011 realizou residência artística em Full Tilt.



Colette investiga a relação da humanidade com a natureza, a naturalidade de que se impregnam os rituais da nossa cultura e como podemos ressignificá-los através da relação corporal, de entrega completa, com o mundo. Brincando com objetos produzidos e rejeitados pela cultura de massa, Urban tensionava o papel do artista como agente em potência para lançar novas linhas de força nesta teia.


Limited Possession, 2011


Bare, 2008

Pela segunda vez, me apaixono por uma artista e no dia seguinte descubro que ela recém faleceu. Colette foi vítima do câncer em junho de 2013.

O trabalho de Urban é pouco conhecido e foi largamente divulgado fora do circuito de arte com o filme de Knight. Urban é um universo de referências, criatividade e generosidade. Para ver as performances documentadas de Colette, acesse Projects no site coletteurban.com ou veja os vídeos do Full Tilt em vimeo.com/user7915707.

Augur, 1996


a song to sing, a tale to tell, a point to make, 1989

04 dezembro 2013

eu não sou da paz

Apesar de eu literalmente estar envolvida com outras marés, a poesia sempre ganha. Declamação incrível de poema de Marcelino Freira por Naruna Costa:



DA PAZ

Eu não sou da paz.

Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.

Uma desgraça.

Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?

Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.

Não vou.

A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.

A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.

Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou.

Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?

Hein?

Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor.

A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe?

A paz é que não deixa.

02 dezembro 2013

cria-apaga memória

Durante a semana passada expus algumas fotos da série Meus 18 Anos num instalação temporária para o Festival O Que o Saci Precisa Saber? (27-30/11). As paredes ficaram recheadas para a despedida deste apartamento tão querido, centro nova era da boa vontade em Porto Alegre.

Dentre MUITAS coisas, tivemos: poema na revista por Karina das Oliveiras (a história de Dandara Rents), pinturas Maíra, Raphael Jacques e Maílson Fantinel, show homemade de Pedro Cassel, poemas em loopmaker por Cometa Nuh, projeções Vindouro de Ricardo Ambus, lançamento do filme Glória de Filipe Rossato (assistido no prédio em frente à janela da sala) e Cosme Rodrigues lançando o novo single "O Lobisomem Gay". Tudo muito despretensioso, tudo muito sincero.

Sobre minhas fotos: são imagens e revelações antigas, que resolvi revelar novamente. Junto das fotos, alguns post-its (uma mania minha, que ajuda minha parca memória cotidiana) lembravam preocupações do cotidiano, preocupações talvez tão importantes quanto as das fotos, mas cujo peso tensionam as motivações que nos levam de um lugar ao outro.

Por duas noites fiz intervenções com água sanitária sobre as ampliações, um experiência inédita para mim. A ideia era apagar as imagens e/ou escrever sobre elas o efeito do tempo. Das imagens começaram a brotar manchas multicolor, inclusive da única preto-e-branca, um autorretrato.

Obrigada pelo precioso cantinho da parede, queridos Gregório, Karina e Cesinha!

30 novembro 2013

me deixa





O nome dele é Pedro Cassel. A música (letra e harmonia) também são dele.

No vídeo de Jorge Souza Sá Brito quem acompanha na percussão é Gustavo Gaspar. O registro aconteceu durante apresentação bônus do show ITAMARÉ, na APPH em outubro de 2013. No show, os dois interpretam composições de Itamar Assumpção.


eu tô cruzando dois dedos debaixo da mesa
pra proteger os meus olhos de tanta beleza
e me esconder do que esconde toda essa destreza
em parecer tão atento, presente
bonito e ligado em mim
querido, me deixa

que uma cegueira arbitrária pontue e revele
por que tudo quanto é belo se entranha na pele
cadê dalila e como ela me corta as madeixas
como é que eu mato o leão do que eu quero
nascendo de novo em mim
rugindo: me deixa

que meu bom senso me impeça, da mesma maneira
de sucumbir às belezas da minha cegueira
pois vão pra além da visão os cordões da aparência
e eu não preciso te ver pra inventar
uma coisa diversa em mim
por isso, me deixa

palavras belas são belas palavras apenas
podendo ser entoadas por almas pequenas
a melodia da língua em discurso me beija
e eu sou van gogh pintando um remédio
vermelho escarlate em mim
ouvido, me deixa

agora embaixo da mesa, no fogo cruzado
dedos retorcem selando o meu corpo fechado
eu vou sentindo um cansaço, a cabeça se queixa
e cego e surdo o que resta é o
desejo explodindo de novo em mim
pedindo: me deixa

29 novembro 2013

o veneno fraquinho

De segunda a quinta desta semana aconteceu na PUCRS o VIII Congresso Brasileiro de Agroecologia. Durante o evento, encontrei o livro de Flavia Londres Agrotóxicos no Brasil: Um guia para ação em defesa da vida, lançado em 2011 e já na sua segunda edição pela AS-PTA. O livro está disponível na íntegra neste link.

Dentre outras informações, a engenheira agrônoma esclarece a respeito do glifosato, o herbicida mais vendido no Brasil e no mundo. A fórmula esteve sob monopólio da Monsanto até 2000 e vendida com o nome de Roundup. Hoje é sintetizada por várias outras empresas de biotecnologia. No interior brasileiro é tão frequente o uso deste agente químico que ele é considerado por muitos um "veneno fraquinho", sendo utilizado inclusive nos jardins domésticos das famílias rurais. O glifosato está desde 2008 em reavaliação toxicológica pela ANVISA mas até agora não teve sua comercialização restringida, nem a fiscalização de seu uso fortalecida.

Vale, no mínimo, lembrar do hino interpretado pela banda argentina Mañana me chanto:



Glifosato, matando la tierra
todo por su maldita soja transgénica
cuatro años tu campo te va a durar
poco a poco un desierto habrá en su lugar

Glifosato, matando la tierra
todas las especies que solían crecer ya no volverán
mientras tanto, las multinacionales
a costa de la vida de millones sus bolsillos llenarán

Arrasando con la selva tropical
todo pa poder su soja plantar
olvidándose la papa y el maís (organico!!!)
que no son combustible, pero nos hacen vivir

14 novembro 2013

dominique pequena



Dom La Nena é meu novo xodó. Ao escutar "Sambinha" suspeitei: este r não me engana. Então fui atrás da história desta singela e prodigiosa violoncelista e compositora.

Dominique, a pequena, saiu de Porto Alegre ainda criança, cresceu em Paris e foi morar sozinha em Buenos Aires aos 13 anos para estudar cello. Tem muito mais histórias interessantes nesta e nesta entrevista.

Aqui uma linda parceria com Kiko Dinucci:



Escute mais músicas no canal de Dom La Nena no Youtube.

12 novembro 2013

on art and solitude

Nina: "the artist's duty is to reflect our times, you can't help but be envolved"



Andreij: "a person who finds himself bored when he is alone, it seems to me, is a person in danger"



via vodca barata

31 outubro 2013

peligros que no conoce la gente grande

"(...) Si piensas que nuestro deber consiste en apagar incendios, te equivocas. La verdadera misión de un bombero es salvar vidas. Nuestro enemigo no es sólo el fuego, sino también el agua cuando inunda, la tierra cuando estalla en remezones, el aire cuando se transforma en huracán. Agrega los accidentes, los ataques de animales, los derrumbes y tantas otras amenazas...

Pensé: "Hay peligros que no conoce la gente grande, y que nosotros los pequeños podemos captar. Muertos que no quieren habitar solos en su ataúd intentan succionarnos el alma para arrastrarla con ellos al agujero final; pájaros perdidos que entran por nuestras orejas ponen sus huevos en el centro del cerebro y cuando nacen sus pollos los alimentan de nuestros sueños; piedras en cuyo interior duerme un ogro: si pisamos una, el monstruo se despierta y nos come los ojos y la lengua; sombras que se convierten en flechas, reflejos que muerden como víboras, bolas de barro que en la noche se nos meten en la cama, se nos pegan al pecho e inoculan penas tratando de que lloremos hasta que nuestra carne se disuelva en lágrimas" (...)"



Em Memorias de un niño bombero, por Alejandro Jodorowsky, com ilustrações de Max Cachimba (Buenos Aires: Planta, 2010)